sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

VITOR GONÇALVES NETO (III) E LOBO PARAMILITAR

OU PAPAI NOEL BOQUETEIRO E PAPAI NOEL MORTO

No Natal, ah, no Natal, a neve cai em Imperatriz...

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O boqueteiro. As aventuras de Vitor Gonçalves Neto com um Papai Noel diambeiro e especialista em "bola-gato":


"DEPOIS DA MISSA DO GALO…

Pombas! Não é que eu seja de missa não. Nem era. Mas naquela noite infecta de 24 de dezembro (já não me lembro o ano), perdido completamente num bairro de uma cidade estranha, me foi o jeito esperar. Ou esperá-la. Em frente ao templo alguns casais se bolinavam pelo que escolhi um lugar aos fundos para dormir. Calculei mais ou menos que naquele local estaria livre da polícia e de outras coisas que tais. Minha barriga roncava reclamando algum alimento. Garganta seca. Sexo inquieto. As roupas e o corpo fedendo a cachaça e a peido e a suor. Barba crescida. Bolsos completamente vazios. E mais que tudo a indiferença da cidade desconhecida e de seus malditos habitantes. Muito pior que a fome e o frio.

Dormi com a cadência dos sinos na sua primeira chamada aos fieis, logo mais sendo despertado por um foguetório filho da puta. E justo no momento em que alguém me alisava a perna esquerda, doendo a cãibra e reumatismo, e me baforava diamba pelas fuças. De olhos meio fechados (como num sonho) divisei um vulto fresco sentado ao lado. Ouvi uma voz de falsete dizendo assim:

“Não se assuste, filho. Eu sou Papai Noel… e você não precisa me dizer quem é!” E lembro que puxei ainda umas tragadas de seu cigarro de maconha. Empurrei sua mão espúria de entre minhas coxas. E mandei-o à merda simplesmente. Mas ele não foi. Ficou ali.

Quando acordei de fato, se houvera missa então já com galo e tudo se acabara. Um guarda noturno apitava pelaí e a visão daquele Papai Noel esdrúxulo aos poucos se apagara em mim. Mas confesso até que me ri muito ao deparar com aquelas barbas brancas postiças sobrando em minha braguilha… e avidamente recolhi o conteúdo do saco que milagrosamente me aparecera ali: uma garrafa de vinho tinto… cigarros e sanduíches… e ainda algum dinheiro também. Foi sem dúvidas o mais arretado Natal de minha vida. E amém!

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O palavratório acima data de 1973 e foi escrito especialmente para figurar em “Uma coletânea brasileira de Natal” do nosso poeta e folclorista Nascimento de Moraes Filho, que a batizou como o nome de “Esperando a Missa do Galo”, cuja foi distribuída em primeira mão a uns cem bispos que se reuniam na capital maranhense sob os auspícios do então prefeito Haroldo Tavares. O que me valeu uma excomunhão coletiva e a alcunha de O Cronista Maldito, que meu amigo poeta José Chagas me botou…"

Vitor Gonçalves Neto
In: Crônicas das Andanças: dos vivos e dos mortos, dos bichos e das fêmeas e de outras coisas que tais. Imperatriz: Ética, 1995.


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O defunto. Curta-metragem não-oficial baseado na HQ Lobo. Na historinha, o Lobo Paramilitar - o maiorial, o mercenário das galáxias - é contratado pelo Coelhinho da Páscoa para assassinar o Papai Noel. Motivo: o Natal estava "falindo" o demais feriados (inclusive a Páscoa) e, pior, o Papai Noel andava se gabando muito disso. Curta dos estudantes do American Film Institute, de baixíssimo orçamento (os atores, por exemplo, dispensaram cachê) e filmado sem a autorização da DC Comics:


LOBO PARAMILITAR ESPECIAL DE NATAL







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E como hoje celebramos o nascimento do "Menino", um salve para o "Menino Geraldo", que aniversaria hoje.

No foto com Cabecinha, no carnaval passado.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

O MENDIGO DA VIOLA DE PLÁSTICO


Às vezes eu o via no Calçadão, próximo ao Armazém Paraíba, tocando um quebradiço violão, enquanto o seu parceiro de vadiagem e mendicância (este, aleijado, paralisia infantil) arrastava seus membros inferiores pequeninos e sujos para poder recolher as moedas jogadas no chão. Outras vezes, geralmente à noite, enquanto aguardava o buzu do Conjunto Vitória passar, eu o via na parada de ônibus da praça Tiradentes, nos arredores das barraquinhas de comida, viola em punho, tocando - incomodando - os poucos clientes das barraqueiras, na esperança quase inútil de obter alguma migalha para forrar o bucho.

O tempo passou, o tempo voou, a poupança Bamerindus foi pros cocos, até que, dia desses, vi a foto acima no blog do fotógrafo Pinheiro. Não havia muita informação. O óbvio apenas: acidente de trânsito. Fiquei olhando os detalhes da imagem. Pequenos detalhes, suposições.

O carro verde, um Uno parado no trânsito - ou em trânsito no trânsito?; dois homens operando celulares: um de camisa laranja manga comprida, quase no centro da foto, e o outro, um motoqueiro, capacete firmado na testa, no canto esquerdo - estariam eles ligando para o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência, o popular Samu?; Três crianças olhando a cena - não diretamente para o homem caído, nem para o homem em pé, cabeça baixa, segurando o cotovelo esquerdo com a mão direita, mas para outro ponto, um ponto não identificável na foto, um ponto aparentemente tão longe - por não ter sido capturado pelo clic - e ao mesmo tempo tão perto - por estar ali, nas imediações, talvez só a alguns centímetros além do enquadramento do fotógrafo; uma quarta criança - um menino, um bicicleteiro - olhando frontalmente para a lente da máquina; cinco adultos (ou quatro deles mais a metade de um), que podem muito bem se conhecer (ou se desconhecer), no canto direito, à esquerda do homem de camisa laranja, sendo que um deles, o barrigudo, fuma um cigarro que pode ser Carlton, ou Derby, ou Free, ou Plaza, ou mesmo um cigarro de maconha feito em palha de milho e embebido em mel; um casal numa moto, em terceiro plano, atrás do Uno verde, olhando para o lado oposto da cena, possivelmente perguntando para a mulher morena, também atrás do Uno: “-Foi acidente?”; outros dois bicicleteiros, ambos de boné, um no meio e outro no canto esquerdo, em aparente comunicação visual; silhuetas de outras pessoas no lado direito, detrás dos quatro homens mais a metade de um; a clara curiosidade da mulher do Uno verde, esticando o pescoço e procurando melhor ângulo de visão, algo quase mórbido, extremamente reprovável em mulheres como ela, supostamente uma serva de Deus, uma assembleiana, uma mulher fiel e obediente ao marido; a rabeta de uma motocicleta, azul, no lado inferior esquerdo, possivelmente a motocicleta que se envolveu - é o que informa o blog do repórter fotográfico - no acidente automobilístico; um violão quebrado em três partes, supostamente do homem caído e próximo ao corpo dele, que pode ter parado ali pela força do impacto da colisão, ou pode também ter sido posto ali por um contra-regras que estava vindo do teatro com o instrumento cenográfico e decidiu colocá-lo naquela posição para dar mais veracidade aos fatos, para chamar a atenção das autoridades responsáveis pela segurança no trânsito; o homem em pé, magro porém forte (típico aspecto de estivador), mão direita segurando o cotovelo esquerdo, calça rasgada, um pouco curvado, talvez sentindo dor, talvez se preparando para desferir um chute certeiro na cara do imprudente transeunte que atravessou o seu caminho, mas certamente o piloto da motocicleta azul envolvida no acidente; enfim o próprio homem caído, braços para trás, pernas em “V” (o formato preciso de um passo), cabelos grisalhos, roupa gasta, suja - o acidentado, o mendigo, o que eu não via há muito tempo, o atropelado, o que não é recenseado pelo IBGE, o mesmo de oito ou noves anos atrás, nos arredores do Armazém Paraíba, e o mesmo de ontem, 22 de dezembro de 2009, dez da noite, flagrado por mim e pelos farois de diversos veículos nos arredores da rodoviária, numa rua pouco iluminada, calças arriadas, sentado estrategicamente numa calçada (na verdade, utilizando a sua altura como providencial sanitário) e cagando, principalmente cagando, com aquela cara de alívio que um bom cagão sempre nos dá, ele e sua viola - agora, depois do acidente - de plástico.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

A PONTE

Em tempos de propaladas pontes, uma ponte kafkiana.

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"Eu estava rígido e frio, era uma ponte, estendido sobre um abismo. As pontas dos pés cravadas deste lado, do outro as mãos, eu me prendia firme com os dentes na argila quebradiça. As abas do meu casaco flutuavam pelos meus lados. Na profundeza fazia ruído o gelado riacho de trutas. Nenhum turista se perdia naquela altura intransitável, a ponte ainda não estava assinalada nos mapas. - Assim eu estava estendido e esperava; tinha de esperar. Uma vez erguida, nenhuma ponte pode deixar de ser ponte sem desabar.

Certa vez, era pelo anoitecer - o primeiro, o milésimo, não sei - meus pensamentos se moviam sempre em confusão e sempre em círculo. Pelo anoitecer no verão, o riacho sussurrava mais escuro - foi então que ouvi o passo de um homem! Vinha em direção a mim, a mim. - Estenda-se, ponte, fique em posição, viga sem corrimão, segure aquele que lhe foi confiado. Compense, sem deixar vestígio, a insegurança do seu passo, mas, se ele oscilar, faça-se conhecer e como um deus da montanha atire-o à terra firme.

Ele veio; com a ponta de ferro da bengala deu umas batidas em mim, depois levantou com ela as abas do meu casaco e as pôs em ordem em cima de mim. Passou a ponta por meu cabelo cerrado e provavelmente olhando com ferocidade em torno deixou-a ficar ali longo tempo. Mas depois - eu estava justamente seguindo-o em sonho por montanha e vale - ele saltou com os dois pés sobre o meio do meu corpo. Estremeci numa dor atroz, sem compreender nada. Quem era? Uma criança? Um sonho? Um salteador de estrada? Um suicida? Um tentador? Um destruidor? E virei-me para vê-lo. - Uma ponte que dá voltas! Eu ainda não tinha me virado e já estava caindo, desabei, já estava rasgado e trespassado pelos cascalhos afiados, que sempre me haviam fitado tão pacificamente da água enfurecida. "

Franz Kafka
In:Narrativas do espólio. São Paulo: Cia das Letras, 2002.
Tradução de Modesto Carone.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

ATIRARAM NO DRAMATURGO
























Estava eu palitando os dentes encostado no balcão do permanência, olhando displicentemente a TV, quando o Wilhiam Bonner apareceu no vídeo me encarando: "É grave o estado de saúde do dramaturgo Mário bortolotto. Ele foi baleado na madrugada de sábado ao reagir a um assalto no bar do Espaço Parlapatões, na praça Roseevelt, centro de São Paulo." Cheguei mais perto da TV. Aumentei o volume. "Que foi?", perguntou o Nêgo, do outro lado do balcão, segurando um bandeco do Restaurante da Rosa e levando uma colher cheia de macarrão e arroz e frango frito pra boca. "Eu conheço esse cara aí, bicho!" E depois que o Bonner parou de falar: "Rapaz, eu acesso o blog dele quase todos os dias quando eu tô lá em Imperatriz." "E o que diacho é blog?", quis saber o Nêgo, sugando um relutante fio de macarrão que insistia em fugir de seus beiços.

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Na verdade eu não "conheço" o Mário. Ou melhor: não pessoalmente. Mas como já vai pra mais de ano que acesso regularmente o blog do cara, acho que posso dizer - sim - que o "conheço". Invariavelmente, todos os dias folheava o seu blog. Por lá tomei conhecimento de muita coisa boa: cinema, literatura, blues, rock, quadrinhos. Por lá também passei a acompanhar o cotidiano do cara. Os amigos de bar, de teatro, a ressaca, a solidão, posts de amor desesperado, comentários ofensivos de anônimos: tudo ali no atirenodramaturgo.zip.net. Aliás, depois da tragédia - três tiros: no coração, no tórax e no pescoço -, o nome do blog repercutiu de forma negativa na imprensa almofadinha. Muita gente se apressou em associar os tiros levados pelo dramaturgo ao nome do blog e à suposta “violência de sua obra” - contos, poesia, dezenas de peças de teatro. Em vão, pois diversos artirtas que conhecem a obra do Mário Bortolotto trataram logo de esclarecer os fatos e dar descarga em parte da cagada que muitos jornais publicaram. É o caso do texto publicado por Márcio Américo no blog Meninos de Kichute:

“Algumas pessoas tem tentado associar a violência cometida contra o Mário Bortolotto à arte produzida por ele. Isso é no mínimo leviano e só revela ignorância, tira o foco dos reais motivos que desaguaram nesta quase tragédia. Conheço TODA obra do Mário Bortolotto, conheço o próprio Mário e não é de hoje, e posso afirmar com toda certeza que a obra dele não tem como foco a violência, nunca teve. Há alguns personagens violentos, como tem em Nelson Rodrigues e até em Maria Clara Machado, mas a mensagem da obra do Bortolotto é para aqueles que optaram em manter-se fora deste esquema maluco que nossa sociedade montou com uma promessa absurda de felicidade. Os personagens do Mário não estão em busca de alegria, prosperidade, todos eles buscam uma só coisa: PAZ. Seus personagens são loosers, sentados, lendo, olhando o infinito, ostentando um olhar melancólico pra disfarçar talvez sua inabilidade em entender o que não faz sentido. Mário é da paz, não esta paz de pombinha branca, esta paz de passeatas com camisetas, mas a paz individual, a paz que te dá a possibilidade de sentar-se na mesa do bar, mesmo sozinho, e ficar olhando o nada, ouvindo uma boa musica, sabendo que pelo menos até aquele momento tá tudo bem.

Teve ainda pessoas que tentaram associar o nome de seu blog, ATIRE NO DRAMATURGO, à violência. Mais uma vez prova de ignorância de quem falou uma merda dessa. Atire no dramaturgo só nos revela o sofisticado background do Mário: o título é uma referência a um famoso romance policial do David Goodis - Atire no Pianista - que por sua vez remete aos clássicos do western, onde, nos salloons, havia uma placa sobre o pianista que dizia: proibido atirar no pianista. Uma ironia, aliás, outra marca registrada na obra do Mário. Atirar no dramaturgo é falar com o dramaturgo, criticar o dramaturgo, discordar ou concordar com ele, ou simplesmente agradecer por uma noite legal, por um show fraterno e pacífico. Quem fala que Mário atrai violência é porque nunca foi ao show de sua banda Saco de Ratos, onde sempre rola uma espécie de culto silencioso à fraternidade, onde pessoas sobem no palco e cantam, dançam, lêem poemas e são sempre recebidas pelo Mário com aquele seu típico abraço padrão Zé Colméia.”

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Apesar da gravidade dos ferimentos, o dramaturgo resiste bravamente e já respira sem a ajuda de aparelhos.

CINEMA LOCAL


terça-feira, 24 de novembro de 2009

VITOR GONÇALVES NETO (II)

"ORA… AS DOIDAS DOS TERMINAIS RODOVIÁRIOS

Uma aglomeração humana situada mesmo que seja num infinito pedaço de terra tem que ter pelo menos um tipo popular perambulando em seu terrritório. De preferência uma doida que saiba gritar nomes cabeludos e outras coisas que tais para a meninada e os viadantes. Lembro meus tempos de adolescência por exemplo em Teresina. E seus habitantes exdrúxulos tais comos o Gasolina e a Maria Sapatão. O “engenheiro” Jaime e o Avião. E outros tantos outros que conheci de perto pelas minhas andanças pelaí. Maria da Piedade na Bahia. O Rei dos Homens em São Luís. Centenas deles que ficaram quase todos meus amigos e algumas delas que inclusive foram até minhas amantes… mas isto não espalhem por favor.

Pombas… e como eu ia dizendo e vocês não deixaram: conheci alguns que chegavam até a ficar furiosos com os apelidos. Outros que sorriam submissos e no máximo como represália mostravam a bunda para qualquer um. Certa vez em Porto Alegre dei de cara com um “Jesus Cristo” e na Paraíba apliquei um filho na “Rainha da Patagônia”. Gente boa de lidar. Desde que se saiba a fase da lua e bem que outros paralelepípedos.

Já escrevi alhures sobre a carência de hospícios no país, mormente no nordeste e adjacências. Praticamente só as capitais dispõem de algum e assim mesmo mambembe e anti-funcional. Geralmente as clínicas de repouso além de particulares são caríssimas e portanto inatingíveis pela maioria. Até que surgiu a salvação: as estações ou terminais rodoviários (inclusive em Caxias e que foi obra do ex-prefeito José Castro). Pois bem. Aí o pessoal meio lelé da cuca (!) achou lugar para ficar à vontade. Restos de comida grátis. Dormida inteira idem. Mictório. Esmolas. Possibilidades de roubos e fornicações. Proteção da polícia. Movimentação constante e pan-pan-pan. Aliás às vezes um outro vai preso mas logo que retoma a liberdade retorna ao ponto e se consegue uma carona via procurar outro terminal de rodovia. Por isso às vezes encontramos deles ora em Castanhal ora em Caruaru. Aqui com um nome e ali com outro. Talqualmente aquela doida que anda mais ou menos tanto quanto eu que se chamava de Pimenta (no Recife), Coisa Boa (em Campina Grande), Bananada (em Maceió). A última vez que nos vimos faz poucas noites no terminal rodoviário de Santa Inês saindo do Maranhão para alcançar o Pará. Só que agora se chamava de Taí e quando lhe perguntei admirado “Taí”?! Ela simplesmente lavantou a sais. Pegou na conturbância. Cheirou os dedos. E me respondeu categórica e contundente: Tá!!

(1982)"

Vitor Gonçalves Neto
In: Crônicas das Andanças: dos vivos e dos mortos, dos bichos e das fêmeas e de outras coisas que tais. Imperatriz: Ética, 1995.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

LÁ ONDE O VENTO FAZ A CURVA

Au Bout du Monde (1998), curta de animação do francês Konstantin Bronzit.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

SALIMP - UM SONHO

A notícia da mudança da data do Salão do Livro de Imperatriz me quebrou as pernas. Com a antecipação do evento (de 25 para 17 de outubro), pegarei no máximo os dois primeiros dias, sábado e domingo, porque na segunda já estarei longe daqui, dali, dacolá, trabalhando. Fiquei tão abalado com tal notícia que sonhei, noite passada, com o dito evento literário. Sonho maneiro, louco, ótimo. Quando acordei, fiz questão de passar um pincelzinho verde-cana nas partes que ainda estavam borbulhando na minha memória. Alguns pontos são dignos de nota.


*No sonho, o Salimp não acontecia (como está previsto para acontecer) no Centro de Convenções. A bagaça parecia rolar na Ufma. Mas não, não era naquela Ufma que fica ao lado da Câmara dos Vereadores. Era outra essa mesma universidade: multicolorida, térrea e subtérrea, labiríntica, insular e de arquitera gaudiniana.


*Zeca Tocantins aparecia cantando dentro de uma canoa (ou antes berrando): "Canoooa! Canoooa!" Utilizando o próprio violão, ele remava, remava, remava mas a embarcação não saía de baixo de um cajueiro onde parecia estar ancorada.


*Um amigo que eu não via há muito tempo, e que um dia me disse que é mais fácil soar piegas quando se escreve poesia, por ironia do sonho aparecia no hall do Salimp com uma mostra de poemas. Ele estava preocupado diante dos "rebentos" ampliados e fixados nas paredes. Caneta em punho, percorria a mostra fazendo correções nos poemas: ora riscava determinados versos de uns, ora acrescentava palavras em outros. Segundo ele, os organizadores da mostra transcreveram vários de seus poemas de forma equivocada. "Talvez por isso", afirmou, "eles estejam soando tão piegas".

*Na porta do auditório em que o jornalista Caco Barcelos ministraria uma palestra, estudantes ansiosas disputavam um ingresso. Quando uma delas era contemplada com a entrada, lia para si mesma, entre incrédula e desejosa, a inscrição em itálico no verso do ingresso, abaixo da foto do repórter: "Ingresso pessoal e intransferível. Preencha corretamente os campos referentes a nome e CPF. Ao final da palestra, sessão de beijos de língua e talvez uma orgia com o autor de Abusado".


*Em outro auditório, outras estudantes disputavam com unhas e dentes - e peitos e bundas - o título de Blogueira Mais Gostosa de Imperatriz. Eleição difícil em que o meu voto foi decisivo.


*Num cantinho menos concorrido, Ricardo Ramos ouvia o cotidiano das pessoas e ao final escrevia um Circuito Fechado para cada uma delas.

*Totalmente vestido de preto, o poeta Nauro Machado declamava os oitocentos sonetos do livro Nau de Urano e Frederico Machado, seu filho, projetava um curta sobre o pai (Infernos) na falange do dedo mindinho dos espectadores.


*Na Arena Subtérrea, outro poeta, Ademir Assunção, munido de rock’n roll e poesia, apresentava a prosódia inusitada da sua Rebelião na Zona Fantasma.

*Escolhido na hora pelos imortais da AIL, o blogueiro Carlos Hermes era o responsável por escrever um conto cujo tema era "51 motivos para a caravana da cidade de Balsas permanecer no Salão do Livro de Imperatriz". Como sugere o tema, a caravana de Balsas estava partindo antes do término do evento. Munido de caneta e caixas de papelão, Carlos Hermes suou mas conseguiu tecer uma trama para garantir a permanência dos balsenses no Salimp. Meses depois, conta o sonho, ele foi agraciado com o título de cidadão balsense e a chave da cidade. Diz também o sonho que em seguida ele abandonou a família em Imperatriz e casou-se com uma gaúcha filha de um grande produtor de soja da região.

*No final do evento, a paisagem era algo entre uma cidade de filme de faroeste e restos de uma festa regada a álcool e gastronomia em excesso, como A Comilança do Marco Ferreri. Folhas ao sabor do vento. Sobras de comida e livros pelo chão. Balões de festa. Poemas escritos em notas de cem e dois reais. Um boneco despejando baldes de água fria na cara de um ventríloquo bêbado. Músicas lentas e tristes tocando num radinho de pilha abandonado num canto. Poetas mortos. Palestrantes mortos. Romancistas mortos. E eu andando no meio de tudo isso. Eu e mais ninguém. Até que, ao abrir determinada porta, me vi deitado em cima de um amontoado de livros usados. Cheguei mais perto de mim, sem medo. Pensei em acordar-me, dizer "vamos, você precisa trabalhar", mas desisti. Fui pro outro canto, acomodei-me sobre outra pilha de livros, e, antes de finalmente acordar, dormi mais um pouquinho.

CINEMA NO TEATRO

O projeto Cinema no Teatro passou um tempo sumido, parado, longe do Ferreira Gullar. Mas agora voltou, voltou para ficar, porque ali, ali é o seu lugar.

Lembro quando o projeto começou, lá pelos idos de mil novecentos e dois mil e dois. Lembro da trabalheira que deu pro Gilberto transportar a telona lá da casa dele até o teatro, empurrando a tralha dentro de um carrinho de mão. Lembro do Cláudio vestido de homem-sanduíche divulgando os filmes na Praça de Fátima. Lembro da Nice fantasiada de Rê Bordosa distribuindo folhetos com a programação do projeto nos semáforos do Centro. Lembro do Chico organizando a fila na portaria do teatro com uma latinha de Skol na mão. E do pipoqueiro vendendo suas pipocas alucinógenas multicoloridas para aqueles que chegavam pontualmente às 19h no Ferreira Gullar.

Pro retorno do Cinema no Teatro, dois filmes do documentarista Eduardo Coutinho.

Dias 19/10: Jogo de Cena - Documentário - Classificação Livre


Sinopse: Atendendo a um anúncio de jornal, 83 mulheres contaram sua história de vida em um estúdio. 23 delas foram selecionadas, em junho de 2006, sendo filmadas no Teatro Glauce Rocha. Em setembro do mesmo ano várias atrizes interpretaram, a seu modo, as histórias contadas por estas mulheres.





Dia 26/10: O Fim e o Princípio - Documentário - Classificação livre


Sinopse: Um filme nascido do zero. Sem pesquisa prévia, sem personagens, locações nem temas definidos, uma equipe de cinema chega ao sertão da Paraíba em busca de pessoas que tenham histórias pra contar. No município de São João do Rio do Peixe, o filme descobre o Sítio Araçás, uma comunidade rural onde vivem 86 famílias, a maioria ligada por laços de parentesco.


A entrada é franca. Todas as segundas, às 19h, no Teatro Ferreira Gullar.

domingo, 4 de outubro de 2009

LEMINSKI DENTRO DE 18 CAIXAS PLÁSTICAS AZUIS



rio do mistério

rio do mistério
que seria de mim
se me levassem a sério?

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Creio que o Leminski foi um daqueles caras - poucos caras - que ousaram despentear o penteado sisudo da poesia. Um daqueles brothers que deram uma palmadinha sacana no respeitadíssimo bumbum da prosa. Meu primeiro contato com o cabra foi através de um livro de gramática do Ensino Médio. (Aliás, os livros de gramática só me interessavam porque dentro deles eu sempre encontrava tirinhas do Quino e trechos de contos e romances - além de poeminhas inteirios como esse aí de cima.) O segundo contato se deu nas estantes do Farol da Educação, atrás do colégio Nascimento de Moraes, ao encontrar, na pratreleira de Ciências Políticas, o volume dOs Melhores Poemas do Polaco Loco. Por último, na Uema. Estampado em umas das camisas que o Alexandre vendia no pátio daquele colejão, um minúsculo poema do Leminski sempre sorria pra mim, irônico: "não discuto com o destino, o que pintar eu assino".

Por esses dias rolaria a oportunidade de outro contato, se eu morasse em São Paulo. Dessa vez vez através da exposição Paulo Leminski: 20 anos em outras esferas, no Itaú Cultural, de 1 de outubro a 8 de novembro, com curadoria do poeta Ademir Assunção, amigo e admirador do autor de Catatau. Participam também Alice Ruiz (esposa e poeta), Áurea Lemisnki (filha) Mário Bortolotto (dramaturgo) e Marcelo Montenegro (poeta), sem falar nos outros artistas que diariamente celebrarão a obra leminskiana, seja através da leitura de seus livros, seja em conversas acerca do poeta kamikaze. Diversas instalações compõem o acervo da mostra, além de poemas inéditos e preciosos manuscritos guardados pela filha do poeta em 18 caixas plásticas azuis. Apareçam por lá, marcianos. Quem for não se arrependerá. Ou como diria o funcionário da Setran responsável por pregar as placas de sinalizaçao nas ruas (ao referir-se a um evento de qualidade): "Ê, mas vai ser bom..."

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Algumas fotos da exposição no blogue do Ademir Assunção:
http://zonabranca.blog.uol.com.br/arch2009-09-27_2009-10-03.html

Matéria do Jotabê Medeiros (Estadão) sobre a mostra:
http://www.estadao.com.br/arteelazer/not_art440804,0.htm

terça-feira, 29 de setembro de 2009

CADA UM NO MESMO QUADRADO

Balance (1989), curta de animação dos alemães Wolfgang e Christoph Lauenstein.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

SÉRGIO SANT'ANNA E EDWARD HOPPER

Nighthawks - tela de Edward de Hopper (1942)


"Mas algo, agora, bem mais quieto e manso e, no entanto, de uma melancolia tão profunda, que porém não se afirma ou explica e é mesmo muito bonita e, entretanto, apenas isso: um balcão de lanchonete numa madrugada americana de 1942 entrevisto de fora, através de um vidro, e onde se percebe, em primeiro plano, um homem sentado de costas para a rua, vestido de terno e chapéu e que, silencioso, concentra-se na comida ou bebida que está diante de si e que não podemos ver, como vemos, por exemplo, à direita, no espaço interior do balcão, um homem de uns cinquenta anos vestido num uniforme branco de balconista, inclinado para lavar na pia algum copo ou prato que também não vemos, como podemos ver, por exemplo, um casal do outro lado, este sim, quase de frente, na parte esquerda do quadro, porque estamos é diante da reprodução de um quadro, e que apenas olha fixo, em frente, esse casal, tipicamente americano, um homem de trinta anos aparentes, também de chapéu e terno, e a mulher, loura naturalmente, e não se falam ou tocam, como se tudo já fora gasto nessa noite e apenas estão ali, eles quatro, madrugadores, boêmios (Nighthawks), vistos algum dia pelo pintor Edward Hopper, uma espécie de realista ortodoxo, e, entretanto, talvez por isso mesmo, o que acaba por saltar dessa realidade é uma matéria de sonho e um sentimento que se nos passa e temos quase vergonha de chamar pelo nome tão comum - solidão – e que vem principalmente desse silêncio visto num quadro e das pessoas imóveis e também das cores que o pintor num dia qualquer deve ter perguntado a si mesmo, misturando as tintas: qual seria a tonalidade justa para uma rua completamente deserta iluminada apenas pela luz de uma lanchonete onde quatro pessoas cumprem os ritos vagarosos de uma pequena refeição e dos pensamentos incomunicáveis, quase solenes, daqueles que, mesmo próximos uns dos outros, estão absolutamente consigo mesmos?"

Sérgio Sant’Anna - trecho do conto Cenários, do livro O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro (1982)


"Fórum Virtual: Como em Um Crime Delicado, as Artes Plásticas são, nesta última obra (O Voo da Madrugada), parceira fundamental. Você poderia falar um pouco sobre a relação da sua escrita com as Artes Plásticas?

Sérgio Sant’Anna: As artes plásticas, semItálico que eu possa precisar por quê, exatamente, sempre foram, como o teatro, uma provocação para eu escrever. Eu sempre considerei as artes plásticas as representações mais radicItálicoais entre todas as artes, principalmente no século vinte e mais ainda no princípio dele. E elas transmitem aos meus textos um clima de "representação", de plasticidade, de cenário, ao que escrevo. Aliás tenho um conto chamado Cenários, em O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro. O conto partiu da memória que eu tinha do quadro Nighthawks, de Edward Hopper, e aborda o tempo todo as impossibilidades da escrita. A impossibilidade, por exemplo, de descrever com perfeição aquele ambiente noturno de Hopper."

Entrevista de S.S. publicada no Fórum Virtual de Literatura e Teatro – por Beatriz Rezende (2004)

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

AMARANTES E DEPOIS

“Chora, alma minha, sangra por minhas veias o veneno desse adeus”
Banda 40 Graus ao vivo em Pio XII (em ritmo de Arrocha)


Antes

O que é que eu tô fazendo da minha vida? Embarquei na Nova Sião pensando nisso e escutando umas musiquinhas tristes do Nei Lisboa e do Edvaldo Santana que não paravam de tocar dentro da minha cachola. O quê? Não abotoei o cinto de segurança, acomodei minha perna esquerda dolorida no vão das poltronas e lembrei do que o Darcy Ribeiro escreveu no prefácio dO Povo Brasileiro. "Não foi assim. Desencadeou-se sobre mim o vendaval da vida". Então não foi assim comigo também. E um vendaval similar ao que quase comeu de uma só vez o pulmão do Darcy me carregou de mala e cuia pro Amarante do Maranhão.


*


Em Amarante, mulheres jovens que têm pelo menos três filhos é coisa normal. Outra normalidade é o grande número de sendeiras, menos por opção e mais por não suportarem a violência doméstica. E o normal mais anormal dentre as amarantinas: aquelas que apesar de tudo isso - olho roxo, filhos aos quilos - ainda são extremamente conservadas de corpo, de rosto e de bunda. São tantas e tão corriqueiras que quando saímos à noite, ciceroneados pelo Zé Bocão, funcionaio ad-hoc da delegacia, a primeira coisa que perguntamos ao olhar uma mulher bonita é: "Zé, essa daí tem quantos meninos?" Ou: "Faz quanto tempo que essa daí tá sendeira?"

Mas há quem diga que tais amarantinas apanham todos os dias, tem pencas de filhos e desquitam rápido porque chifram muito os namorados, os maridos e os amantes, indiscriminadamente. Contaram-me dois casos exemplares envolvendo conhecidos moradores do município. O primeiro: fulano trabalhava a noite inteira e quando voltava pra casa, pela manhã, encontrava o lar doce lar todo desarrumado - sala, quarto, cozinha. Ao perguntar pra mulher o porquê da desarrumação, a resposta era que ela passara a noite com insônia, assistindo TV e comendo. Certa madrugada, abandonou o serviço e chegou de surpresa em casa. Mas a surpresa, na verdade, não foi ele chegar naquele horário. A surpresa foi encontrar um negão de dois metros de altura e dois palmos de pica dentro do seu quarto, mais precisamente em cima da sua mulher. O segundo: ciclano estava em casa assistindo a uma partida de futebol. Bateram na porta. Ele atendeu e o informaram que sua mulher estava praticamente desacordada em cima de uma carroça, bêbada e pelada, após ser fodida por cinco adolescentes. Ele não deu trela, bateu a porta na cara dos fofoqueiros e retornou pra frente da TV. O primeiro, que viu, pediu a separação; o segundo, que preferiu não ver, continua morando junto.

"Sim, mas e as histórias da delegacia?", devem estar se perguntando os meus cinco leitores. A verdade é que não há muito o que falar sobre a delegacia. O delegado viaja constantemente e as ocorrências são poucas. Quando muito, alguém denunciando o vizinho porque o jumento deste invadiu o quintal daquele. Gente reclamando da altura do som na residência de determinado aniversariante. Futricas de donas de casa porque seus filhinhos de seis anos brigaram no pátio da escola, próximo ao bebedouro central, mais precisamente a três metros do carrinho de pipoca do véi Antônio. Intimações em geral, enfim. Trabalhamos mesmo quando o delegado está por lá. Aí o bicho pega e o dia passa voando. Sem contar que o delega é uma figura. Quando não há ocorrência pra resolver, ele passa o tempo falando de boceta, cu e boquete. Ou então, no meio de uma conversa séria ao telefone, ele surpreende a interlocutora com uma dessas: “Olha, sacana, lava bem esse priquitin que hoje eu tô baixando por aí, viu?”.

No sábado ou domingo, chegaram uns amigos de Imperatriz -Iuri, Alcindo e Frabrício - com destino a uma aldeia das cercanias. Eles iam brincar de índio, mas antes passaram pela residência de moá. Convidei-os então para um programa de branco: comer carne assada numa churrasqueira elétrica, na cozinha da delegacia, um cômodo anexo à carceragem, na companhia dos PMs e de outros colegas da DP. Senti-me estranho: a gente se esbaldando com cada pedação de carne entre os dentes e os presos, coitados, só sentindo o cheiro. Terminado o churrasco, retornamos para a Casa Caju de Janeiro - é este o nome do nosso apê, inscrito em letras garrafais um pouco acima da porta - e tiramos aquela boa e velha soneca sob os 38 graus Celsius amarantinos. Mas os caras tinham que seguir pra aldeia. Na despedida, desejei boa viagem pra todos. Quando eles tavam saindo, entretanto, disse baixinho pra mim mesmo: “Vão simbora, bando de carniça”. E quando eles já tinham desaparecido, um PM me perguntou se o Fabrício tava com gripe suína. Eu disse que sim. Tava sim.


* Itálico

Depois
Itálico
O que é que eu to fazendo da minha vida? Embarquei pensando nisso no Pajero do Dr Eliesio – advogado conhecido vulgarmente por Pescoço Duro - enquanto ouvia umas musiquinhas alegres que tocavam sem parar na FM do meu músculo bombeador de sangue. O quê? Abotoei o cinto de segurança, minha perna esquerda não doía sobre o banco de couro confortável do carrão e eu nem lembrei de Darcy Ribeiro, de prefácio, dO Povo Brasileiro, de vendaval, de nada. É que eu tava voltando numa aconchegante carona pra Imperatriz do Maranhão.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

ENQUANTO A CHUVA DE GRANIZO NÃO VEM

Dentro do quarto, girando negativamente a cabeça em cima da cadeira, o ventilador é o sopro quente de um secador de cabelo. Tudo parece está pegando fogo: o travesseiro debaixo do pescoço, as roupas no varal, a impaciência do papagaio da vizinha. Se ao menos alguns aviões similares àqueles que combatem incêndio nos EUA sobrevoassem a minha casa despejando tempestades de quando em quando. Se ao menos as lojas de departamentos vendessem macacões de Fórmula 1 revestidos com cubos de gelo especialmente fabricados para esta época do ano. Se ao menos as noites não fossem tão quentes quanto os dias. Se ao menos se. Mas não. Não de não conseguir dormir ou permanecer acordado sossegado. Não de não ter tino para a leitura de um simples jornal. Não de não suportar o excesso de suor descendo pela testa, pelo pescoço, pelo peito. Talvez os teóricos do Determinismo Geográfico tenham lá alguma razão. E esse calor sem fim funda mesmo o nosso juízo. A ponto de forjar a possibilidade de mudar a cama do quarto para dentro da caixa d'água do quintal. Ou de querer entrar na HQ Arzach e só sair de lá quando estiver montado no pterodáctilo fossilizado de Moebius para sobrevoar este inferno. Ou - contrariando teorias e teóricos - ir descalço pro meio da BR 010 e ensaiar moomwalker entre o vai e vem dos caminhões até sentir-se apto para caminhar sobre brasas.

*

P.S.: A partir de hoje, este Hotel passará um tempo fechado. É que domingo viajo para Amarante (terra em que, graças a Deus, não há internet nem telefone celular). Se tudo der certo, trabalherei duas semanas por lá e no dia 22 estarei de volta. Aí reabro este estabelecimento. Então é. Deu pra mim. Vou pra Amarante. Tchal.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

NA DELEGACIA OU AMARANTE EXISTE

Pé na estrada

Eu e mais quatro marmanjos dentro de uma viatura caindo os pedaços na estrada de Imperatriz para Amarante. São pouco mais de 100 km e pouco menos de 60 quebra-molas. Pontuando o caminho, pequenos povoados, alguns riachos, cruzes tortas celebrando a morte, jumentos ao sol, muita poeira, uma Coca-Cola de quitanda, 150 no velocímetro - até que, pronto, Amarante desponta no horizonte das nossas vidas.


Nós que aqui estamos por vós esperamos

Na delegacia nos aguarda Menezes, o delegado. Na verdade, um investigador de polícia que, por conta do déficit na segurança pública do Estado, acumula também a função de delegado do município. Ele nos apresenta aos outros servidores da DP: um escrivão, um investigador e um carcereiro, todos ad-hoc (funcionários da prefeitura cedidos à delegacia) - outra prova da ausência estatal. Somos nós, portanto, os únicos - e novíssimos - representantes da Polícia Civil naquela cidade.


Então pega

Depois de uma pequena reunião e das frases de praxe - "Estamos aqui pra somar", disse alguém -, três dos novatos saem à procura de casa para alugar enquanto eu e o novo escrivão permanecemos na sala do delegado, conversando sobre a impossibilidade da Gripe A pousar por ali. Um homem baixinho empurra a porta, devagar, timidamente, até se encontrar mais dentro do que fora da sala. O delegado o reconhece. É a vítima de uma tentativa de homicídio. O Dr. Menezes manda o homem sentar e passa a ouvi-lo, inquiri-lo. Quando este termina, o delegado olha pro escrivão e diz pra ele reduzir a termo o que passará a ouvir. O delegado então se levanta e, andando lentamente de um lado para outro da sala, começa a ditar pro novo escrivão o par e passo da tentativa de homicídio relatada pelo homem. O conteúdo do depoimento é mais ou menos o que segue, com exceção dos nomes dos envolvidos, trocados por pseudônimos.

"(...)que no lugar denominado Clube dos Amigos, no dia 27 de Junho de 2009, por volta das 23h, Nô se encontrava na companhia de sua namorada quando avistou o homem identificado pelo nome de Jô; que, nesse momento, Nô dirigiu-se a Jô lhe cobrou R$ 15,00 (quinze reais), referente a um consumo de bebida alcoólica feito pelo acusado no seu estabelecimento comercial, o Bar do Nô; que Jô desconversou dizendo que no momento não tinha dinheiro e que pagaria quando pudesse; que Nô disse a Jô que ele não pagava porque não queria e que ele tinha dinheiro sim, uma vez que estava se divertindo no Clube dos Amigos; que Jô disse então que o dinheiro era dele e ele faria o que bem entendesse com ele; que Nô disse que Jô era um ladrão e um moleque e que talvez este só lhe pagaria mesmo quando Nô pegasse o step da sua cominhonete como garantia; que Jô disse “então pega” e afastou-se um seis metros, momento em que sacou um revólver e efetuou um disparo contra Jô; que Jô, ao perceber que seria atingido, tentou correr mas não conseguiu; que a partir daí só se lembra que foi atingindo na bochecha direita, perdeu as forças das pernas e caiu frontalmente e desmaiou; e que acordou 4 horas mais tarde, depois de submetido à cirurgia, na enfermaria do Hospital Municipal."


Maria, Maria

Conversando com Neto, o novo escrivão, nativo de Barão do Grajaú, a caminho do restaurante da Rosa. No visor do celular faltam doze minutos para as oito horas da noite. Dou um puxão na cueca que tá apertando o meu testículo direito e procuro me inteirar sobre a situação carcerária da DP.

Tem quantos presos aí na delegacia?

Rapaz, uns vinte e três.

Tem homicida?

Uns três. [Pausa] O resto é Maria da Penha. [Nova pausa] Aqui o povo bate em mulher é com gosto.


Só a vítima mesmo

Jantamos frango frito e assado de panela na Rosa. O delegado aparece quando estamos palitando os dentes. Ele ainda tá de paletó, o cabo da pistola espremido entre a virilha e a barriga. Descontraídos, falamos bobagens, piadas. Lembro de um caso engraçado que de fato aconteceu. Em Minas, se não me engano. É a história do policial militar que prende um estuprador em flagrante e o conduz até a DP, para apresentá-lo à autoridade policial. Após ouvir o estuprador, o delegado se vira pro militar e perguntar: "Soldado, as testemunhas foram arroladas?" E o PM responde: "Não, dotô, só a vítima mesmo".


Tênis de muriçoca

Após beber cerveja quente a R$ 3,75, vamos todos dormir na delegacia, espremidos num cubículo próximo à carceragem. Muita muriçoca. Mesmo assim adormeço, grogue, escutanto um breguinha que toca no radinho dos presos. Acordo às seis da manhã, com o barulho do carcereiro matando muriçoca com uma raquete de tênis elétrica. O barulho das muriçocas mortas pelas raquetadas do carcereiro era tão alto, e eram tantas delas estourando no ar, mas tantas, que cheguei a pensar - enquanto atravessava a membrana do sono pra realidade - que se tratava de um tiroteio.

Rosa desabrochada

Pego um taxi clandestino na volta para Imperatriz. R$ 15 a passagem, o mesmo preço da Nova Sião, mas com direito a uma hora a menos de viagem. Durante o percurso, lembro de um fato que de certa forma me liga a Amarante. Há alguns anos, durante um assalto a banco naquela cidade, um PM morreu com um tiro de fuzil. Um tiro na cabeça disparado por um dos assaltantes, de estrago similar ao que matou Jonh Kennedy. Alguém fotografou a cena com um celular. Meses depois, de bluetooth em bluetooth, a fotografia acabou aparecendo no Nokia de um amigo meu, quando a vi. No ano passado, durante o Curso de Formação em São Luís, no prédio da DEIC, na Beira Mar, revi a foto do PM morto. Morreu sentado no banco da viatura, no centro de Amarante, sua cabeça praticamente virada ao avesso pelo poder do disparo. Não sei bem o porquê, mas depois, rememorando aquela imagem e tentando imaginar o dia daquele homem antes de se encontrar com a morte, me bateu uma vontade enorme de escrever um texto sobre o acontecido. Algo que misturasse ficção e realidade ou, mais ainda, um mix de conto e ensaio, nos moldes de alguns escritos do Sérgio Sant’Anna. Rabisquei algumas coisas, mas tudo me pareceu forçado, indigno. Por fim, apelei pra poesia. O poema também não saiu. Pelo menos não saiu completo. Somente os três últimos versos do que seria a mala suerte daquele homem -do acordar em casa até o morrer dentro da viatura - me convenceram de alguma coisa. Só o fim da história, a terrível imagem eternizada pela lente do celular. Sem início nem meio.

"Sendo sua farda um caule
E a cabeça uma rosa desabrochada
O policial jazia como uma flor fardada"

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

ALLEN


"Alguém me perguntou uma vez se eu sonhava em viver no coração das pessoas e eu disse que preferia viver no meu apartamento".

Woody Allen, nas páginas da Rolling Stone desse mês.

sábado, 8 de agosto de 2009

ESTILHAÇOS

I

“Coisa perdida é qualquer coisa que sabemos de sua existência mas não sabemos onde se encontra. É algo desaparecido. Por desaparecido consideramos aquilo que deixou de ser visto, que ocultou-se ou foi ocultado. É, em outras palavras – antípodas palavras - , o que antes ‘era’ ou ‘estava’, mas agora não ‘é’ nem ‘está’, embora, em algum lugar não sabido, continue ‘sendo’ ou ‘estando’, que é o mesmo que existir. Mas, o que é ‘existir’?”1


II

“[Aplausos] Boa noite. Gostaria de iniciar minha fala agradecendo o convite que me foi feito pela ilustríssima Universidade Imperatrizense de Ciências Agravantes para debater um tema tão caro em nossos dias, que é a questão da Insegurança Crônica Causada por Balaços Perdidos. Isso porque, como todos sabem, a nossa sociedade sofre o ataque desse câncer altamente destrutivo. Se fossemos um corpo, seríamos o de um doente em estado terminal. [Pausa para beber água] Mas, como ia dizendo, é impossível não reconhecer que as sementes do ódio proliferam nas diversas partes da cidade. Todos os dias dezenas de vidas são ceifadas por balas perdidas. Estamos vivendo, por assim dizer, um abominável período de barbárie urbana. [Nova pausa, agora para enxugar a testa] Entretanto, exageramos ao tentar dimensionar os contornos desse fenômeno. Na verdade, superestimamo-lo, vítimas que somos de um medo cada vez mais latente. Mas, garanto-lhes, não há motivo para tanto frenesi. Forçoso é examinar os fatos com a luz da razão. Afinal, como podemos temer tanto as balas perdidas se elas, na verdade, não existem? Se são inexoralvemente fabricadas por nós, e não por si próprias? [Alguém ri, baixinho, no fundo do auditório] Falo sério, senhores, não falo anedotas. Não há motivo para pilhérias. Sim [Ergue a mão, o dedo indicador em riste], balas perdidas não existem. Ora, se são perdidas, são inexistentes, e se não existem, como podem fazer mal a alguém? O que existem, de fato, são balas encontradas – pois o que é efetivamente perdido não se acha. E encontradas por quem? Por seres à toa, como essa jovem que, em vez de estar descansando no refúgio do seu lar, transitava arbitrariamente na selva da madrugada, pelos becos e ruelas de um bairro perigoso como o da Caema. E o que queria ela, às três da madrugada, caminhando em ambiente tão hostil? Queria encontrar Papai Noel? Queria encontrar Jesus Cristo? Não, senhores, o que essa garota queria encontrar, como encontrou, era um balaço na testa. A culpa de sua morte, portanto, é totalmente dela. [Ao mesmo tempo que alguém gritabravo, bravíssimo!’, alguém dizidiota, maluco, imbecil!’] Sim! Dela, que encontrou a bala, e não da bala, que foi brutal e inopinadamente encontrada e acabou perdendo a sua identidade, pois passou, em questão de centésimos, da condição de bala perdida para bala encontrada. É ela, senhores, a bala perdida, senhores, a grande vítima dessa história [Ouvem-se vaias, aplausos, e, antes do palestrante agradecer a presença de todos, as luzes se apagam e um disparo de arma de fogo ecoa no auditório].”2


III

“Morreu no último dia 10, vítima de disparo de arma de fogo, a jovem J.F.C., 16, residente à rua Rio Grande do Norte, s/n, Centro. O triste episódio ocorreu por volta das 3h da madrugada, nas imediações do Bairro da Caema, periferia de Imperatriz. Segundo o perito criminal Málio Amolin, presente no local, o projétil varou-lhe horizontalmente o crânio, causando morte instantânea. Ainda não se sabe o motivo do sinistro. Devido ao constante tiroteio entre os traficantes daquele bairro, a polícia trabalha com a hipótese de uma bala perdida como causa mortis, pois a motoneta que a adolescente pilotava amanheceu junto a seu corpo, intacta. Populares afirmam que a garota costumava perambular sozinha pelas ruelas do Bairro da Caema. Nessa época do ano, conforme apontamentos da Ong Maconha Nunca Mais, é comum jovens de classe média procurarem drogas na periferia da cidade. Segundo fontes extra-oficiais, foi encontrado um poema de temática lúgubre no bolso da calça que J.F.C. usava. Até o fechamento desta edição, entretanto, a polícia não havia confirmado ou divulgado o conteúdo do suposto poema. O sepultamento da jovem será hoje, no Cemitério Campo da Saudade, às 17 h.”3


IV

SABOROSO DROPE PRATEADO

a bala é disparada
e em disparada
rasga o tempo o espaço
o extenso-curto percurso
que a separa de meu corpo.

una, solitária, perdida.

mortífera bala sabor hortelã
a derreter-se sobre minha língua”4


NOTAS AOS ESTILHAÇOS

1.FRANCIS, Adiabético (Org.). Divagações Acerca do Nada. Imperatriz: Antiética Editora, 2018.
2.Discurso proferido pelo vereador e escritor Geremilson Santes, no dia 14/08/2018, no auditório central da IUICA, no encerramento do seminário sobre Insegurança Crônica Ocasionada por Balaços Perdidos.
3.JORNAL O REGRESSO. Mais uma Vítima de Bala Berdida na Madrugada. 12/07/2018.
4.Poema encontrado no bolso da calça da jovem J.F.C., vítima de bala perdida, no dia 10/07/2018, conforme amplamente noticiado pela imprensa imperatrizense.

sábado, 25 de julho de 2009

ALÉM DA TV OKAZAJO

Será tão enigmático quanto O Segredo do Labirinto?
Ou tão Gilberto Freire de Sant'Ana quanto Feliz Ano Novo?

sábado, 18 de julho de 2009

RECEITA

um bife temperado com amor e chumbinho pro cachorro do visinho



Na vontade desesperada de ganhar um abraço de alguém. Mas não indo atrás. Nem na frente. Saindo do meio.

Estrelando um filme que se passa inteiro - com choro, trilha sonora, final quase feliz - na porta giratória de um banco que está sendo assaltado.

Beijando através da parede de vidro do aeroporto Antônio Carlos Jobim uma menina de saia rosa e olhos de fogo.

Trapaceando na brincadeira do Cai no Poço ao avisar ao meu melhor amigo com um toquinho nas costas o exato momento em que aponto para a bela garota da casa de portão elétrico.

É essa? É. E é mais.

É chegar sem aviso prévio com um AR15 ou uma pistolinha de água numa barraquinha de tiro ao alvo.

Furar a bola colorida de um menino esnobe com um cigarro Derby.

Não saber agir naturalmente - braços de mais, pernas de menos - diante daquela criatura com voz de aeromoça e um eterno jeito de menina lambuzada de Batom Garoto.

Esmurrar a parede do quarto - calmo no princípio, desesperado no final - até quebrar a mão direita - a esquerda já quebrada - em três lugares.

Tentar acessar um blogue que não existe mais e que se chamava Carro Bomba na Terra do Nunca.

Desejar a língua da lésbica, os alucinógenos da madrugada.

Apertar o play.

E singrar a cidade em plena segunda dirigindo um Trenzinho da Alegria dos Horrores cheio de loucos barbudos magricelas e anões da Ilha da Fantasia fugitivos de Bangu I.

Porque já disseram por aí que ouvir certas músicas do Tom Waits é como fazer carinho num arame farpado.

sábado, 11 de julho de 2009

VI O CACHORRO DE PERTO

Porra, na sexta leio um post nada agradável no blog do professor Carlos Hermes - VI A MORTE DE PERTO, em que o cara narra ter sofrido um acidente de carro - e no sábado eu mesmo me envolvo num acidente de moto. O acidente do Carlos foi numa rodovia do Tocantis. O carro que ele dirigia capotou diversas vezes, deu perda total, mas felismente o professor sofreu apenas algumas escoriações. O meu acidente foi nas proximidades do Mercadinho. Eu me deslocava às duas da madrugada do Bar do Claudeci para a Rodoviária (ia comprar cigarro pra galera) quando um cachorro louco saiu latindo detrás de uma árvore e se jogou debaixo do pneu da moto. Caí feio, fiquei todo ralado e ainda fraturei o punho esquerdo (Cê não sabe como é trabalhoso - e doloroso - digitar isso aqui só com uma mão.) Então fica assim: se o Carlos afirmou ter visto a morte de perto, eu posso muito bem afirmar que vi um cachorro de perto, muito perto, tão de perto que não consegui desviar.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

BRINCANDO DE FURAR O MUNDO

Brincávamos um jogo chamado Boi. Primeiro no chão batido, antes do advento do asfalto, e depois de tal advento, no asfalto mesmo, que se mostrou muito melhor do que poderíamos imaginar. Uns tinham pião Potinho. Outros tinham Catatau. Todos se conheciam e se respeitavam. Meninos que viravam tensos adultos pra não perder o jogo. Sabedores do perigo do vacilo - ter o pião partido ao meio, o riso dos outros ecoando por infinitas semanas. E sem saber que um dia poderiam ler um belo texto sobre parte desse ritual. Um texto de alguém chamado Cristovão Tezza. Essa pequena obra-prima aí embaixo.
***

DA ARTE DE JOGAR PIÃO
Segura-se o pião com a mão esquerda, enquanto a direita enlaça-lhe o pescoço, sem dar nó, puxando a fieira verticalmente até a base da ponta de ferro, de onde voltará a subir em anéis apertados e unidos, feitos com carinho e atenção - da qualidade desta amarração dependerá o destino do lance, a sua parte técnica. É importante que o pião seja velho e o verniz esteja gasto pelo uso - na pele brilhante a fieira escorrega e o resultado é o desastre.

Chegando a fieira ao trecho bojudo, em torno da maior circunferência prende-se o último anel com o polegar enquanto a mão direita prepara o golpe, dando voltas na outra ponta como quem firma na palma um chicote improvisado, até que os dedos, livres mas tensos, segurem o pião, que é indócil, com delicadeza - o indicador na cabeça, o polegar na base. Concentrando-se, deve-se sustentar o pião com uma breve inclinação à direita (para compensar a puxada do chicote quando a peça cair no mundo), e erguer o braço lento e suave até a altura da orelha, não mais, que é exagero, nem menos, que é fraqueza. Fixa-se um ponto no chão e lança-se o pião um palmo além dele, como quem arremessa uma pedra para saltitar na água. (Se o jogador for canhoto, faça-se tudo ao espelho, que será o mesmo.)

O pião desenrola-se furioso no ar, mas isso não se verá; a puxada da fieira, percebe-se no tato, deve acontecer só no último segundo, quando quase desnecessária. Livre enfim, o pião procurará em desespero o seu ponto de equilíbrio, contra todas as provas da lógica, sob o olho de um furacão mesquinho que o quer ver no chão, mas ele não cai, absurdo. Se o chão for liso, como deve ser, o pião, apenas respirando, dormirá, absolutamente imóvel sobre a terra, um espetáculo de silêncio e uma aula impossível de geometria. Podemos sentir, sob o eixo estático, como a agulha de um aparelho metafísico, o tremor sutil da rotação do mundo.

domingo, 5 de julho de 2009

quarta-feira, 1 de julho de 2009

AH, CAVALGADA

ou bosta verde sobre superfície negra


Fim de férias. Acabou a minha vidinha boa – sapo caiu na lagoa – de beber em plena segunda, acordar ao meio-dia e ficar assistindo ao Difusora Repórter com a Luzia Sousa e o seu "eu e você no SBT". Acabou-se. This is the end, beautiful friend. Já recebi até telefonema da Guarda Mirim me informando que estou escalado pra trabalhar na "nãoseiquegézima" Cavalgada de Imperatriz. O grande evento anual dos ruralistas, abertura da Expoimp, momento em que mauricinhos e patricinhas alugam carroças no Mercadinho pra encher a cara de Heineken enquanto são puxados por jumentos velhos de guerra do centro da cidade até o Parque de Exposições. A nata imperatrizense no seu dia glamouroso de Cheira-Peido, posando pra câmeras de 200 mega-pixels em cima das carroças enfeitadas pra depois criar álbuns no Orkut e esperar os comentários virtuais dos amiguinhos da Itz, da Texana, do Gatinhos.

É uma dor de cabeça essa Cavalgada. Não só pra nós, da Guarda Mirim, que temos que chegar cedinho pra interditar as ruas, mas para a própria cidade, que literalmente "trava" durante o evento. Se no próximo sábado pela manhã um sujeito comprar um frango no Braseiro do Gaúcho e quiser retornar para a sua casa, no Bacuri, ele não conseguirá, porque será impossível cruzar a cidade - a avenida Getúlio Vargas - de um lado para o outro. A hora do almoço vai passar, o frango vai esfriar, e o máximo que ele vai conseguir é ficar parado num cruzamento. Depois o saco dele vai encher – com razão – e ele vai buzinar feito um louco e mandar o guarda que tá interditando a rua – eu, o filho da puta – tomar no cu. Mas o problema não somos nós, os guardinhas. O problema é essa Cavalgada de merda.

Há cinco anos eu sinto isso na pele. Por morar no Conj. Vitória, tenho que fazer o mesmo percurso da Cavalgada pra chegar em casa. Apesar disso, os sacanas da Guarda sempre me escalam nas proximidades do entroncamento, um dos últimos pontos de interdição. Como só posso ir embora quando o último cavalo passa cagando, então é batata: mesmo que eu fure sinais, avance preferenciais, corte por dentro do Bacuri, quando eu chego perto da ponte do Cacau a maldita Cavalgada já está por lá, atravancando o meu caminho. Como não sou passarinho, tenho que reduzir a moto pra primeira marcha e seguir atrás dos animais durante uns quarenta minutos, até que, na entrada do Parque de Exposições, finalmente a BR é desobstruída e eu consigo acelerar pro caminho de casa. Nesses cinco anos, só houve uma vez que alguém se apiedou de mim. Sabendo que eu ficaria preso atrás de bípedes e quadrúpedes, um amigo - o Renan - me convidou pra matar esse tempo na casa dele, e almoçar por lá também. Almocei, conversamos, bebi café, fumei um cigarrinho e depois fui pra casa só no ponto de dormir.

No caminho, perto da entrada do Parque, no acostamento da BR, entre bostas de jumento e latas de cervejas, vejo a cena que sempre me vem à mente nessa época de Cavalgada. À deriva no meio-feio, calçada com apenas umas de suas botas (perdera a outra?), tentando se levantar da sarjeta e principalmente do porre, vejo uma patricinha regurgitando debaixo do sol das três horas da tarde. Ao seu lado, algumas pessoas, não sei se rindo da situação ou tentando ajudá-la.

Só me lembro mesmo de uma coisa. A de que mandei todos tomarem no cu. Claramente. Com o mega-fone do meu pensamento.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

OBAMA BOYS

Depois de não sei quantas vitórias seguidas, não sei quantos jogos sem perder, a Fúria Espanhola "se quedô" ante a seleção americana de futebol - ou melhor, de "sóquer" - nas semi-finais da Copinha disputada na Africa do Sul.

Os Obama Boys ganharam dos calientes latinos pelo escore de 2 a 0. Não assisti ao jogo inteiro - quando acordei, aos 38 do segundo, o placar já estava definido -, mas confesso que não acreditava, nem eu nem a torcida do Flamerda, que os USA ganhariam a partida.

Mas o futebol é uma caixinha de surpresas, e logo eles mandaram a Espanha mais cedo pro chuveiro. Eles, que nos dois primeiros jogos da Copa das Conferderações levaram 6 gols e só se classificaram pra segunda fase porque os Amarelos eliminaram os Azuis.

Quando vejo os americanos batendo bola só me lembro da Copa de 94. A seleção estilosa deles. O goleiro cabeludo-gordinho que lembrava muito o Jonh Travolta do Pulp Fiction. O zagueirão Lalas, rockeiro de barbicha ruiva que nas horas vagas jogava futebol.

E claro, o jogo das quarta-de-final em que o Brezil pegou os caras em pleno 4 de julho. Um a zero sofrido. E o Leonardo sendo expulso depois de quase sacar fora a cabeça dum americano com uma cotovelada.

(Noutra ocasião, durante um amistoso contra o mesmo Brezil, o juiz marca escanteio a favor dos americanos. O lateral vai cobrar. E cobra. Só que em vez de cruzar na área pros companheiros, o animal dá um toquinho pra ele mesmo numas de sair jogando naturalmente. Ninguém entendeu nada. Nem ele.)

É, os Estados Unidos estão na final do domingo.

"Eu desconfio que foi o Bush".

domingo, 21 de junho de 2009

O PORCO DO MANEL

Além de televisão colorida, na casa da minha avó e do meu tio também tinha uma biblioteca na estante da sala de estar. Uma biblioteca comprada pronta, típica dos anos oitenta. Uns 40 livros, creio, todos com capa dura. Tinha uma coleção de Psicologia e Saúde Corporal, uma de Inglês/Português, outra de assuntos gerais - em que se destacava o volume Os Cem Maiores Vultos da Humanidade - e um livrão que abarcava gramática e literatura portuguesas, um calhamaço dumas 700 e tantas páginas. Lembro que na apresentação de uma das coleções, havia um aviso do tipo "uma biblioteca somente na estante de uma casa dá um verniz de cultura que o seu dono talvez não possua". Ainda hoje lembro quando li isso. Era um sábado depois do almoço, e o meu tio, dono da biblioteca, roncava deitado na rede armada na sala. Óbvio que ele não tava nem aí pra verniz, cultura ou biblioteca.

Pois bem, de vez em quando eu abria um desses livros que mocavam na estante. Tempos bons e distantes aqueles. Tempo em que a sigla dos Estados Unidos era grafada como EE.UU., e não USA ou EUA, como é agora. Tempo das sandálias Rider, do vídeo game Atari e dos álbuns de figurinha de desenho animado em que a gente concorria a muita coisa e geralmente não ganhava quase nada. Tempo em que o nome "Bocage" não me reportava a um poeta português, mas a um personagem folclórico que se dava bem em tudo, sempre tirando vantagem dos outros, conforme os relatos jocosos do matuto Expedito, nosso contador de causos particular e agregado da família. Tempo das tardes amorosas em que o meu maior crime era comer Leite Ninho e Nescau escondido da minha avó.

Sucede que, certo dia, numa dessas abriduras de livro, li um troço que me deixou com uma pulga atrás da orelha. Ainda lembro. Eram umas quatro da tarde e como minha avó estava de marcação cerrada na cozinha (devia ter percebido a abrupta baixa nas caixas de leite em pó e Nescau), desisti do furto das guloseimas e fui pro quintal com o livrão de 700 páginas debaixo do braço. Parece que tô vendo o menino descalço de calção azul se deslocando da sala pro fundo do quintal, pelo lado de fora da casa, sentindo na sola dos pés a variação de temperatura do piso cimentado, que ora era quente, nas partes expostas ao sol, e ora era frio, no trecho úmido e cheio de musgos rente à lavanderia. O menino que senta na cadeira de macarrão debaixo do maracujazeiro e abre o livro numa página qualquer, em busca de ilustrações. E que de repente se espanta com uma imagem. Mas não uma imagem feita de imagens. Uma imagem de palavras, que só muito mais tarde ele compreenderia que se tratava de um poema.


"Porquinho-da-Índia

Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele pra sala,
Pra os lugares mais bonitos, mais limpinhos,
Ele não gostava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas . . .

— O meu porquinho-da-índia foi minha primeira namorada."


Li de novo o texto. E mais uma vez. Outra. E acabei me encabulando com o último verso: "O meu porquinho-da-índia foi minha primeira namorada". Com o resto do texto tudo bem, nada de extraordinário. Brincar com pequenos animais - porcos ou não - toda criança brinca. Mas o último verso, esse negócio de "primeira namorada" é que não entrava na minha cabeça - ou entrava, tortamente, e por isso mesmo eu me impressionava. E muito, porque naquela época eu não sabia o que era poesia (nem o que ela phodia) e tampouco tinha informação suficiente pra entender que Manuel Bandeira era um escritor, um desses seres que tem carta branca pra inventar com as palavras. Naquela época, mirando o mundo do alto dos meus dez anos, aquilo se resumia a um relato pra lá de sem-vergonha de um menino que poderia ser meu amigo, meu visinho. Um menino que no final das contas poderia ser eu. E namorar um porco? Ah, não. Fiquei com vontade de chamar a minha avó e mostrar aquele negócio pra ela. Pedi uma explicação, uma luz, afinal ela lecionara durante anos. Mas não. Resolvi fechar o livro e devolvê-lo à estante para não mais abri-lo. O diabo é que nos dias seguintes eu não conseguia assistir TV sem ter a impressão de que o tal porquinho-da-índia zombava de mim lá de dentro da Gramática.

Meses depois, passando férias na casa de meus pais, não mais uma pulga, mas um cachorro cheio delas atrás da orelha. Na casa de meus pais também funcionava um bar, num terreno enorme e cheio de mangueiras - uma paisagem bucólica às margens da Belém-Brasília, ao lado do Parque de Exposições, onde hoje funciona um posto de combustíveis. Um dia, aproveitando a ausência do meu irmão mais velho, peguei a Monareta dele e fui pedalar. Zanzei alegre da vida em volta da casa perseguindo as galinhas criadas soltas por minha mãe. Subi e desci uma "montanha" que era um morrinho de areia um pouco mais distante. Dei cavalo-de-pau, levantei pneu, apostei corrida com um adversário imaginário. Até que o cansaço me nocauteou, e então desci tonto numa banguela, aproveitando o vento pra secar o suor do corpo. No final da descida, perto do chiqueiro em que meu pai criava porcos que depois viravam tira-gosto pros clientes do bar, vejo umas peças de roupa penduradas numa estaca e ouço uns ruídos estranhos. Empurrado ainda pela banguela, resolvi fazer o retorno só quando passasse na frente do chiqueiro. Quando tô virando o guidom da bicicleta na frente do estabelecimento animal, quem eu vejo lá dentro? Ora, quem? O meu irmão, short arriado e melado de lama, atracado na traseira de uma porca. Tava tão concentrado no bumbum da "namoradinha-da-índia" que nem me viu passando ali na frente.

É que o sacana tinha aproveitado o pretexto de levar lavagem pros animais para dar uma. Uma de Manuel Bandeira.

terça-feira, 9 de junho de 2009

VÍTOR, O MALDITO (I)

Tava procurando no Google, mas não encontrei quase nada sobre (e principalmente do) Vitor Gonçalves Neto. Mais Caxiense que Teresinense (cidade em que nasceu, no ano de 1925), Vitor era desses homens que não param quietos. Conheceu o Brasil e um pouco do mundo, sempre como passageiro, já que ele mesmo afirmava que qualquer lugar do mundo só serve para ficar no máximo três dias: "tempo suficiente para ficar conhecido pelas mulheres e pela polícia". Cronista dos mais irreverentes (e até "maldito", para alguns), Vítor ajudou a fundar diversos jornais e a afundar tantos outros, como o próprio fazia questão de observar. Escreveu muito e de tudo (romance, novela, poesia, crônica), mas publicou muito pouco. O próprio livro que tenho - Crônicas das Andanças: dos vivos e dos mortos, dos bichos e das fêmeas e de outras coisas que tais - só teve até agora uma edição, de 1995, e mesmo assim graças ao esforço conjunto de duas editoras: a Caburé, de Caxias, e a Ética, de Imperatriz. No intuito de preencher um pouco essa lacuna através do ciberespaço (e também porque suas crônicas são deliciosíssimas), me dou o direito de pouco a pouco ir transcrevendo alguns escritos do referido livro para este Hotel Subterrâneo. Espero que gostem. E espero também que herdeiros e editoras não me processem.

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O CEMITÉRIO DE SÃO MIGUEL DO GUAMÁ

Para reconhecimento integral de qualquer terra muito pouco é o suficiente. Mesmo não aconselho ninguém a se demorar em qualquer parte. Uns 3 dias no máximo. Antes que fique conhecido demais pelas mulheres e sendo observado pela polícia... Pombas! Basta o camarada chegar e se dirigir imediatamente para a zona do baixo concubínio passando na volta pela igreja a fim de se redimir de algum pecado. Depois é chegado o momento de tomar um trago no primeiro boteco que encontrar. O almoço é no mercado naturalmente. E para dormir o melhor local é o cemitério. Não que o distinto seja tarado ou ladrão ou carola e muito menos alcoólatra ou necrófilo ou outras coisas que tais. Nada disto. Mas isso é essencial.

Pelo menos é que o tenho feito pelaí e que sempre me dei bem. Em todas as terras por que tenho andado. Paraíba e Pernambuco. Pará e Rio de Janeiro. Rios Grandes do Norte e do Sul. “Oropa”, França e Bahia. Assim é que conheci mulheres brancas e pretas. Capelas e Catedrais. Muitas marcas de cachaça. Cemitérios mal e bem assombrados. Fui preso até que pouquíssimas vezes e sempre driblei o mundo de fêmeas que já quis me seqüestrar.

Dito o que ficou escrito recomendo aos meus discípulos e fãs que não exagerem nunca no cumprimento dos rituais. E explico. Um dia por exemplo em que estava hospedado aliás muito comodamente em uma canoa no rio Paraíba (no cais de Teresina) me deu na telha de conhecer a cidade de São Miguel do Guamá quando então se construía a estrada Belém-Brasília. E fui. Não me lembro mesmo é como lá cheguei e muito menos como saí embora tal pormenor não interesse tanto. Sei é que era tardezinha e aproveitei logo o tempo para fazer a “via-sacra”. Fui a 3 cabarés e uma igreja. 12 botecos e na feira. E por fim ao “campo santo” onde a chuva me pegou e pelo que fui levado a me hospedar mesmo por lá durante essa noite que durou mais ou menos cerca de 270 e tantos dias (uns 9 meses) conforme mais tarde assombrado conferi. É que a defuntagem parece que estava com calor debaixo da terra suja e saiu para refrescar e se lavar. Quando o relâmpago abria eu só via era pedaço de gente pelada por toda a extensão do cemitério de São Miguel do Guamá. Umas 3 vezes mais mulheres do que homens (as crianças se recolheram aos primeiros trovões). E eu sequei logo a garrafa de aguardente e caí no bacanal. Tudo acabado me encontrei cercado de fantasminhas já meus filhos. Dei uns 100. Vendi uns 300. Os outros desapareceram. Sei só do caçula que hoje é coveiro do cemitério de São Miguel do Guamá...

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Vítor teve suas andanças interrompidas em 1989, ano em que – a contragosto – morreu. Agora não sai mais da sua Caxias. Tá enterrado por lá.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

HARPYA

A primeira vez que vi uma medusa foi na Sessão da Tarde, num filme impróprio - As Sete Faces do Dr. Lao - praquele tipo de horário - às três e meia de uma quarta qualquer, tendo como companhia o vento tropical que esvoaçava a cortina da janela e a minha vó, que fazia croché no sofá atrás de mim. Eu era um menino assustado com um copo de Kisuke de uva na mão e umas bolachas de água e sal num pratinho ao lado.


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Não sei quando Raoul Servais viu uma harpya pela primeira vez. Nem importa. O importante, aqui, é que o cara soube projetar essa figura mitológica de forma esplendorosa e assustadora na tela do cinema. Tanto que faturou a Palme D'Or em Cannes na categouria curta-metragem de animação.



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Nem loira nem medusa. A bola da vez chama-se "Harpya", um filme de 1978.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

TE PEGO NOUTRO SONHO

Há mais ou menos um mês que sonho o mesmo sonho perturbador. Dia sim, dia não. Não raro acordo assustado, suado até, com a imagem de uma mulher loira acelerando um carro vermelho e tentando me atropelar. Noutras vezes, devido ao fato de ter despertado justamente no momento em que poderia surpreendê-la vacilando numa esquina, acordo insatisfeito e com raiva. E é sempre assim no sonho: se em determinado momento eu estou sendo encurralado, perseguido pela loira fatal, noutro momento eu estou no seu encalço, correndo atrás do Golf vermelho que some numa rodovia deserta similar àquelas do filme Mad Max.

Não é uma mulher velha a mulher do sonho, mas igualmente não é nova - deve ter entre 30 e 35 anos. Uma loira bem conservada, eu diria, e até bonita, a julgar pelo rosto de traços fortes e lábios carnudos (sua única parte visível, já que nunca sai do carro). Os olhos variam entre azuis, verdes, roxos ou lilases, dependendo dos desígnios oníricos. Os braços são bem torneados, levemente recobertos por uma penugem dourada, no que suponho que também o sejam as pernas e os glúteos.

Não diria que nossos encontros noturnos sejam um pesadelo borgeano, mas uma sucessão de sonhos extremamente hard. Ou talvez uma série de TV do gênero suspense, só que escrita por um louco para uma espécie de Canal dos Sonhos. Naturalmente o espaço em que se desenrola tal série é o mais onírico possível: desde movimentadas avenidas de grandes cidades, passando por infinitos desertos e parques de diversões abandonados, até florestas tropicais repletas de onças aquáticas, pássaros luminosos e cobras de fogo. Não há um enredo, um roteiro verossímil. Tudo é mutável e espontâneo, e tanto posso aparecer escondido da mulher debaixo da Torre Eiffel quanto armando uma emboscada pra ela no Bairro da Vilinha.

Embora estejamos a maioria das vezes um à caça do outro, não raro o sonho permite-me observá-la sem ser molestado. Lembro de uma noite em que pude distingui-la com mais apuro, ver seus lábios carnudos sugando um cigarro e sua mão vestida por uma luva negra deslizando sexualmente pelo volante do automóvel. Noutra noite sonhei que ela estava acompanhada por outra mulher, está mais jovem, na faixa dos 20 anos, mas também loira. Percebi que conversavam algo muito próximas uma da outra, de um modo excessivamente carinhoso. Estavam absortas dentro de uma jaula em um circo abandonado, esperando um semáforo mudar de cor, e embora não chovesse, o limpador do pára-brisa deslizava lentamente de um lado para o outro. Detrás da lona do circo eu as via, entre medroso e excitado, e cheguei mesmo a acreditar que suas bocas se tocariam quando a lente do sonho as enquadrou num close-up em câmera lenta.

Mas o sonho dá reviravoltas e retoma o seu curso mais angustiante, que é quando estou sendo perseguido pela loira. Não bastasse a desvantagem de eu estar a pé e ela motorizada, muitas vezes alguns elementos do sonho contribuem para que eu seja capturado. É o caso de algumas árvores que, à medida que empreendo fuga, esticam suas raízes para criarem obstáculos ao meu caminho, tentando parar-me ou derrubar-me. Nessas horas tenho que usar toda a minha habilidade de peladeiro para driblar os zagueiros vegetais. Noutros momentos, estou jantando numa ruela qualquer (não possuo um lar no sonho, durmo e acordo na sarjeta) quando sou surpreendido pela luz alta de um farol em meu rosto.Pra não ser capturado, abandono a comida pela metade e fujo. Como sempre acontece isso, há mais de um mês que não me alimento de forma regular e já devo ter emagrecido uns 10 quilos no sonho.

Por outro lado, há momentos em que sou o caçador e ela a caça. São momentos raros, em geral com desfechos frustrantes, mas a simples constatação de sabê-la acuada é o bastante para me reconfortar. Houve uma vez, por exemplo, em que me armei com um estilingue e a encurralei num beco sem saída. Quando enfim pensei que sairia vencedor, forçando-a a se render e explicar-me o motivo de pertubar-me o sono, ela acelerou o carro e conseguiu fugir derrubando paredes e traspassando casas. Na sequência seguinte, eu a mirava com um rifle. Ela estava sobre uma balsa no rio Tocantins e eu em ambas as margens do mesmo rio, esperando o momento certo para abatê-la. Quando apertei o gatilho, a surpresa: em vez do balaço disparado, uma flor pendeu do cano da arma. Uma rosa fedorenta.

Mas o clímax de tudo aconteceu no último sonho. Nos encontrávamos num cenário deserto, uma mata recém queimada. Ela no carro, vindo lentamente em minha direção (a contragosto, frise-se, porque seu semblante era de pavor), e eu na beira da estrada, entre tocos queimados, com um coco da praia seco na mão. À medida que ela se aproximava, eu apertava mais o coco e me preparava para o arremesso mortal. Quando emparelhou-se comigo e me viu de braço erguido, ela estancou o Golf, soltou o volante e cruzou os braços sobre o rosto, assustada. Arremessei o coco com toda a força, sem dó. Mas quando dei por mim – a realidade do sonho retrocedera uns dois segundos –, o coco havia se desintegrado entre meus dedos e a mulher acelerava o carro cor de fogo de forma tão desesperada que cheguei a acordar.

Às 4 da madrugada, acordei duas vezes assustado: primeiro pela altura do resto do meu ronco, que eu não sabia tão alto, e segundo pelo cantar de pneu de um carro na frente da minha casa, como que a fugir emitindo um grito assustador no breu da noite.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

O OBITUÁRIO DO ZÉ

Um dia acontece. Você está andando distraídasso pela calçada e pisa numa casca de banana bem clichê. Como você nunca treinou educativo de queda – e nem sabe o que isso significa –, você cai tão de mau jeito que a sua cabeça é rachada como aquela melancia que um dia escapou da mão do estivador. Aí vem toda aquela história de velório, parentes chorando e enterro. Mas e daí, pra que perder o humor? Faça que nem o Zé Rodrix: peça caneta e papel e escreva um belo texto sobre o ocorrido. Ou – mais razoável – como você gostaria que tivesse ocorrido.

“Há alguns anos, gostaria de ter a causa-mortis preferida de meu pai: assassinado aos 98 anos de idade com um tiro dado por um marido ciumento que o tivesse pego em pleno ato… mas hoje não mais. Pode ser de fulminante ataque cardíaco, dentro da minha biblioteca, perto o suficiente da família e dos amigos mas afastado o bastante para que, alertados pelos cachorros da casa, já me encontrem morto, com um sorriso nos lábios.

Podem sepultar-me em pleno mar, sob a forma de cinzas, já que não poderei ser sepultado in totum no jardim da minha casa. Se conseguirem isso, no entanto, que não cobrem entradas para visitação, à moda do irmão da princesa: deixem que além das pessoas os passarinhos e os animais da casa se refestelem no lugar, renovando diariamente o eterno ciclo da Natureza.

Ao enterro devem, através de convite formal, comparecer todos que foram aos meus lançamentos de livro: nada mais parecido com um velório do que isso.

Peço parcimônia nos eflúvios emocionais: já as risadas devem ser francas e sem limite. Creio inclusive que prepararei com antecedência uma fita de piadas gravadas para animar o velório e manter o pessoal na boa. Como dizia o Bozo, “sempre rir, sempre rir….”

Lá só deixarei a mim mesmo: mesmo os inimigos que comparecerem para ter certeza de que estou realmente morto podem voltar para casa em paz. Não pretendo puxar a perna de ninguém à noite e nem assombrá-los depois de morto.
Já os amigos podem contar comigo: havendo vida após a morte, volto para avisar, da maneira mais prática e menos assustadora que me for possível. A cremação deve ser feita depois que todos forem embora cuidar de seus próprios afazeres: enfrentar as chamas do forno terrestre já será um grande intróito para a vida eterna.

Se conseguir, tentarei ser crooner da grande Orquestra de Jazz do Inferno, vulgarmente chamada de SATANAZZ ALL-STARS: como já vou chegar lá tenente ou capitão, dada a minha imensa taxa de maldades realizadas sobre a Terra, creio que não será difícil. Meu castigo certamente será cantar MPBdQ por toda a eternidade, mas mesmo com isso ainda se pode encontrar algum prazer, assim na terra como no inferno…. é o que veremos a seguir.

No enterro podem tocar de tudo, menos as músicas que eu tenha feito. Minha morte servirá certamente para que se livrem não apenas de mim mas também de minhas obras. Os herdeiros também não merecem ouvi-las, sabendo que nada herdarão de minha lavra, porque, sendo eu adepto da política do VAI TRABALHAR, VAGABUNDO, como meu pai fez comigo, já tomei providências para que essas músicas não lhes rendam nem um tostão furado. Sendo um velório moderno, recomendo músicas de carnaval antigo, as indiscutíveis, claro, com algumas discretas serpentinas e confetes jogadas sobre o caixão, fechado, naturalmente.

Morrer num Sábado à tarde, ser enterrado num Domingo antes do almoço, e estar completamente esquecido na manhã de Segunda, sem atrapalhar a vida profissional de ninguém: eis a perfeição que desejo na minha morte.

Muito grato.

beijos

Z”



Zé Rodrix morreu na semana passada. Valeu, Zé. Contiuamos ouvindo teu rock rural.

sábado, 23 de maio de 2009

ENCHENTE, CACHAÇA E PESCARIA

Recebi do Alain Dellon (o bancário, não o ator) um emeio contendo um vídeo sobre as enchentes no nosso estado. O vídeo foi produzido por Fernando Donasci, repórter fotográfico da Folha de São Paulo que esteve em Bacabal, uma das cidades mais atingidas. A foto que antecede o post também é de autoria do mesmo repórter. O vídeo é credor do texto.


Durante as enchentes no Maranhão, o modus operandi de alguns barqueiros de Bacabal me lembraram Caronte, o barqueiro mitológico responsável por transportar as almas do gregos mortos para o outro lado do - também mitológico - rio Aqueronte. Com uma diferença bem real, pra não dizer mortal: enquanto Caronte, sóbrio, se ocupava do transporte dos mortos, os barqueiros de Bacabal, bêbados, se ocupavam do transporte dos vivos. Explico melhor. Depois de passar algumas horas à deriva em suas embarcações bebendo pinga, à altura dos telhados das casas alagadas, os estranhos barqueiros de Bacabal eram acometidos de grande espírito solidário e iam "socorrer" os irmãos desabrigados, entre eles muitas crianças, idosos e mulheres grávidas. Ajudaram a salvar muitas vidas, é verdade, mas também contribuíram para algumas mortes.

Um dos motivos das pessoas relutarem em abandonar suas casas eram os saques. É que outros barqueiros, menos solidários e mais espertos, aproveitavam a ausência forçada dos moradores para saquear as residências. Panelas, botijões de gás, prateleiras, fogões, portas, mão de pilão - nada escapava ao apetite dos saqueadores. Também foram vítimas da ação dos piratas ribeirinhos alguns clubes, escolas, comércios e até igrejas - uma santa foi roubada do altar de uma paróquia alagada. Somente com a presença mais efetiva do Exército, da Defesa Civil e do Corpo de Bombeiros é que os saques diminuíram. Um caso curioso é o de um saqueador que, na manhã seguinte à ação meliante, descobriu ter saqueado a própria casa. Devia ser um dos barqueiros bêbados.

Um outro fato curioso diz respeito aos homens que passavam o dia nos telhados das casas alagadas. Estes também bebiam pinga, a exemplo dos barqueiros, mas não se aventuravam no transporte dos desabrigados, deixando tal empresa a cargo dos bombeiros. Também não saqueavam casas, nem comércios e tampouco roubavam imagens das igrejas. O passatempo deles resumia-se, além da manguaça, a pescar e falar mal da vida alheia. E os pequenos peixes que pescavam tinham destino certo. Não iam pra panela, não viravam refeição para os desabrigados - o destino dos pequenos carás era a pança dos gatinhos que se encontravam ilhados em cima das casas. Se não fosse a boa ação desses pescadores bebuns, muitos bichanos teriam morrido de fome.

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13 pessoas já morreram em função das enchentes no Maranhão. O Estado de São Paulo mandou militares do Corpo de Bombeiros especialistas em resgate de alto risco. O Estado de Santa Catarina mandou técnicos para assessorar o governo do Maranhão na captação de recursos federais.

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Pra quem puder ajudar, esses são os dados bancários da Defesa Civil do Estado:Caixa Econômica Federal, agência 0027, conta corrente 1000-2, operação 006.

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Pra ver o vídeo do repórter da Folha :