terça-feira, 9 de junho de 2009

VÍTOR, O MALDITO (I)

Tava procurando no Google, mas não encontrei quase nada sobre (e principalmente do) Vitor Gonçalves Neto. Mais Caxiense que Teresinense (cidade em que nasceu, no ano de 1925), Vitor era desses homens que não param quietos. Conheceu o Brasil e um pouco do mundo, sempre como passageiro, já que ele mesmo afirmava que qualquer lugar do mundo só serve para ficar no máximo três dias: "tempo suficiente para ficar conhecido pelas mulheres e pela polícia". Cronista dos mais irreverentes (e até "maldito", para alguns), Vítor ajudou a fundar diversos jornais e a afundar tantos outros, como o próprio fazia questão de observar. Escreveu muito e de tudo (romance, novela, poesia, crônica), mas publicou muito pouco. O próprio livro que tenho - Crônicas das Andanças: dos vivos e dos mortos, dos bichos e das fêmeas e de outras coisas que tais - só teve até agora uma edição, de 1995, e mesmo assim graças ao esforço conjunto de duas editoras: a Caburé, de Caxias, e a Ética, de Imperatriz. No intuito de preencher um pouco essa lacuna através do ciberespaço (e também porque suas crônicas são deliciosíssimas), me dou o direito de pouco a pouco ir transcrevendo alguns escritos do referido livro para este Hotel Subterrâneo. Espero que gostem. E espero também que herdeiros e editoras não me processem.

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O CEMITÉRIO DE SÃO MIGUEL DO GUAMÁ

Para reconhecimento integral de qualquer terra muito pouco é o suficiente. Mesmo não aconselho ninguém a se demorar em qualquer parte. Uns 3 dias no máximo. Antes que fique conhecido demais pelas mulheres e sendo observado pela polícia... Pombas! Basta o camarada chegar e se dirigir imediatamente para a zona do baixo concubínio passando na volta pela igreja a fim de se redimir de algum pecado. Depois é chegado o momento de tomar um trago no primeiro boteco que encontrar. O almoço é no mercado naturalmente. E para dormir o melhor local é o cemitério. Não que o distinto seja tarado ou ladrão ou carola e muito menos alcoólatra ou necrófilo ou outras coisas que tais. Nada disto. Mas isso é essencial.

Pelo menos é que o tenho feito pelaí e que sempre me dei bem. Em todas as terras por que tenho andado. Paraíba e Pernambuco. Pará e Rio de Janeiro. Rios Grandes do Norte e do Sul. “Oropa”, França e Bahia. Assim é que conheci mulheres brancas e pretas. Capelas e Catedrais. Muitas marcas de cachaça. Cemitérios mal e bem assombrados. Fui preso até que pouquíssimas vezes e sempre driblei o mundo de fêmeas que já quis me seqüestrar.

Dito o que ficou escrito recomendo aos meus discípulos e fãs que não exagerem nunca no cumprimento dos rituais. E explico. Um dia por exemplo em que estava hospedado aliás muito comodamente em uma canoa no rio Paraíba (no cais de Teresina) me deu na telha de conhecer a cidade de São Miguel do Guamá quando então se construía a estrada Belém-Brasília. E fui. Não me lembro mesmo é como lá cheguei e muito menos como saí embora tal pormenor não interesse tanto. Sei é que era tardezinha e aproveitei logo o tempo para fazer a “via-sacra”. Fui a 3 cabarés e uma igreja. 12 botecos e na feira. E por fim ao “campo santo” onde a chuva me pegou e pelo que fui levado a me hospedar mesmo por lá durante essa noite que durou mais ou menos cerca de 270 e tantos dias (uns 9 meses) conforme mais tarde assombrado conferi. É que a defuntagem parece que estava com calor debaixo da terra suja e saiu para refrescar e se lavar. Quando o relâmpago abria eu só via era pedaço de gente pelada por toda a extensão do cemitério de São Miguel do Guamá. Umas 3 vezes mais mulheres do que homens (as crianças se recolheram aos primeiros trovões). E eu sequei logo a garrafa de aguardente e caí no bacanal. Tudo acabado me encontrei cercado de fantasminhas já meus filhos. Dei uns 100. Vendi uns 300. Os outros desapareceram. Sei só do caçula que hoje é coveiro do cemitério de São Miguel do Guamá...

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Vítor teve suas andanças interrompidas em 1989, ano em que – a contragosto – morreu. Agora não sai mais da sua Caxias. Tá enterrado por lá.

3 comentários:

flavita. disse...

pow luís sensacional falar um pouco deste Bukowysky maranhense , eu tenho um cronica das andanças roubado em casa...espero que você também transcreva outros clássicos dele!

ahhh...aqui é mayara!

Carlos Leen Santiago disse...

E ai:
Gostaria de inteirar a blogosfera geral que eu numa bela noite numa dessas Feiras de Arte (ou era semana do livro?) aqui em Imperatriz estava com o Luis dando uma de alfarrabista, qando de subito resolvi mostrar a ele um conto de um certo Vitor Gonçalvez Neto, o titulo: Conto de Natal.
Vejo que Vitor a partir de então ganhou mais um fã.
rrsrsrsrsrssrssrs
Lembra dessa Luis?
abraçao!!

Luís Diniz disse...

Se lembro, cara! Aliás a Mayara também deve lembrar daquela tua (nossa) atitude Vítor Gonçalves Netoneana daquela noite... Distraimos o velhinho que tomava conta da banca de livros enquanto tu tomavas "emprestado" o Crônica das Andanças pra gente conhecer, hehe.