sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

FAITH NO MORE

I STARTED A JOKE



In: faixa do disco WHO CARES A LOT (1998)

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

INSTANTES

Sir William Burrougs e sua pistola.
É Dostoievski encarando o pelotão de fuzilamento. Na África, entre mercadores e camêlos, Rimbaud traficando armas. É Kafka caminhando burocraticamente pelas ruas de Praga. Borges caindo vertiginosamente no abismo de seus pesadelos indecifráveis. Ligia Fagundes Telles pressentindo o exato momento da morte de Clarice Lispector. Poe urinando e soluçando sem parar numa esquina de Boston. São Graciliano Ramos e Oscar Wilde na cadeia. Hemingway se suicidando com uma arma de caça. Kerouac chapado num programa de entrevistas de uma TV italiana: "Você é linda, garota. Você é Fernanda Pivano?". Baudelaire fumando ópio sob uma noite estrelada. Raduam Nassar abandonando a literatura para criar galinhas num sítio em São Paulo. É o exímio atirador William Burrougs mirando o copo de whisky em cima da cabeça de sua namorada e vagarosamente apertando o gatilho até atirar e acertá-la na testa. Lima Barreto dormindo bêbado num bar do Rio. Jack London cruzando o Pacífico Sul num veleiro. Claudio Willer navegando o Pindaré-Mirim, numa canoa, em 1964. Sousândrade imaginando uma Nova York em Alcântara. É Hunter Thompson cheirando a última fileira de cocaína. Camus no banco detrás de um Facel-Véga, pensando no título de um livro minutos antes do carro capotar na rodovia entre Marcelha e Paris.  Armado, colérico, é Euclides da Cunha entrando na casa do amante de sua mulher e berrando "Vim pra matar ou morrer!". É Bukowsk, de ressaca, trabalhando no U.S. Postal Service. Lautreàmont ejaculando no banheiro de uma escola francesa. Ana Cristina César acariciando um gatinho na palma da mão, na Baixada Maranhense. Haroldo de Campos no banheiro gritando para a sua mãe trazer a toalha de banho bordada com o seu nome. Maiakovski, numa faísca de pensamento, cunhando o verso É melhor morrer de vodka que de tédio. É o vagabundo iluminado Neal Cassady roubando seu trigésimo carro décadas antes do poeta Ferreira Gullar interromper uma conferência sobre o Poema Sujo para atender uma ligação telefônica.  É José Sarney telefonando para Ferreira Gullar.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

TOM WAITS

DOWNTOWN TRAIN



In: faixa do disco RAIN DOGS (1985)

terça-feira, 23 de novembro de 2010

SHOW DJALMA LÚCIO

NICE REJANE PRODUÇÕES PRESENT

domingo, 21 de novembro de 2010

VANUSA BABAÇU E MARCELO CRUZ




NA SEMANA H DE HISTÓRIA - UEMA/CESI

terça-feira, 9 de novembro de 2010

AO CABO LIMA NETO COM CARINHO


Éramos bonitos e não sabíamos naquela tarde do dia 25 do mês de dezembro do ano de 2004 do nosso Senhor Jesus Cristo. Não que hoje, seis anos depois, sejamos mocreias intragáveis, carne de segunda cheia de varejeiras pendurada no açougue à espera do consumidor menos capitalizado. Mas vendo-nos assim, esbeltos porém fortes, é impossível não dizer que se naquela tarde estivéssemos vadiando pelas areias de Copacabana - "dragão tatuado no braço / calção corpo aberto no espaço" - passaríamos facilmente por lindos Meninos do Rio. Nem que fossem do Rio Tocantins.

Comemorávamos, desde o meio dia, o aniversário do Geraldo, o velho mais sem vergonha que já apareceu na face da Terra desde a construção da Arca de Noé. Bistequinha boa assando no canto esquerdo da sacada e tampas de Skol e anéis de latinhas de Brahma caindo divinamente em slow motion ao nossos pés; a farofinha e o vinagrete deliciosos preparados pela Dona Gonzaga e pela menina Jordana - nem preciso dizer que respectivamente mãe e filha do aniversariante. Tarde amena, recém agoada, com o vento gostoso e saliente bolinando nossos corpos e assanhando as madeixas do Renan e do Carlin, os hoje dois ex-cabeludos da fotografia - a qual, notem, nem era da era digital ainda.

"Não vou tomar café / nem escovar os dentes", deve ter cantado o Geraldo, acompanhado pelo Alain - que na época até tinha cara de Delon - enquanto eu e Jonhy, apoiados no parapeito, disputávamos o nosso Campeonato de Cuspe ao Alvo na Calçada, tendo como parâmetro de pontaria o desvio que o vento dava à massa de saliva durante a queda. Dona Gonzaga bebericava um pouco de vodka ou caipirinha, ou talvez um pouco de cada, provocando estupefação no Augusto, colega de trabalho do Geraldo, ao que ela retrucava afirmando que gostava de tomar um pouquinho para dormir. Dormir com o tontinho da cachaça. Dona Gonzaga morreu faz uns três anos, com idade bem superior à média de expectativa de vida do brasileiro. Grande Dona Gonzaga!

À noite, já tarde, apareceu o Alcindo, que todos os anos faz aniversário um dia depois do aniversário do Geraldo. Se eu acreditasse nesse negócio de bad vibrations, olho gordo, praga de Exu Caveira, afirmaria categoricamente que o Alcindo trouxe a reboque - como um mal olhado - o Cabo Lima Neto. Sim, Alcindo, porque pouco depois da sua chegada, o Cabo Lima Neto apareceu embaixo da sacada, no meio-fio, bêbado, louco, gritando, botando fogo pelas fuças, e no momento em que nós, curiosos, fomos ao parapeito para ver o que estava acontecendo, ele apontou o cano de um 38 na nossa direção e disse: "Desce! Desce, cambada de vagabundo, pra levar chumbo na cara!"

Alguém desceu? Que eu me lembre, não. E juro até hoje que vi a Dona Gonzaga dando uma cambalhota que a levou, célere, até a sala de estar. O resto foi um amontoado de pernas e braços tentando passar ao mesmo tempo por uma porta que dava acesso a outro local protegido. Os gritos do Cabo Lima Neto repercutiram mais um pouco na madrugada, até a chegada de uma segunda pessoa, que o convenceu a entregar-lhe a arma e acompanhá-la para casa, ordeiro, chorando, sem falar coisa com coisa. Era um amigo do Cabo, que o vinha seguindo desde uma lanchonete, onde, disse, o Lima Neto já havia comido três X-Tudo, quebrado mesas e deixado um rastro assustador de ketchup pelo chão.

Não deu outra depois do incidente. Só Cabo Lima Neto na veia. Louco, marido traído, esquizofrênico, revolucionário, desertor - viajávamos, potencializados pelo álcool, na busca de uma definição para o homem e a obra limanetianos. Nunca mais o vimos, Cabo. Infelizmente. Mas há uns três meses, vindo de Amarante para Imperatriz, e dando carona a um sargento da briosa Polícia Militar do Maranhão, perguntei se ele conhecia o Cabo Lima. O Cabo Lima Neto. "Aquilo é doido, atira até em pensamento". Não mencionei o caso do aniversário do Geraldo. Aprendi com minha professora de Educação Moral e Cívica que, se queremos conservar um mito, não devemos tentar conhecê-lo demasiado. Então prefiro lembrar do Cabo Lima Neto como um tempero daquele dia. Uma coisa boa. O limão que fez a caipirinha da Dona Gonzaga ficar mais deliciosa. O acorde preciso do Geraldo numa música do Gonzaguinha. A gordurinha gostosa da bisteca. E a tampinha premiada de Coca-Cola que eu encontrei pela manhã no caminho de volta pra casa.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

25 TREPADAS

Joca Reiners Terron compilou - aqui - as 25 trepadas mais emblemáticas da literatura.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

EL PIBE D'ORO

Lembro como se fosse em 1993 e 1994: primeiro, antes da Copa, um documentário na Manchete o mostrava correndo sozinho na Patagônia, na tentativa de emagrecer, ou antes, atirando com espingarda de pressão em um grupo de jornalistas que o perturbava na porta de casa, ou antes ainda, obeso, cumprindo suspensaõ de dois anos por uso de cocaína e sorrindo da própria desgraça sentado sobre uma balança de frigorífico; depois, já na Copa de 94, magro, cabelo curto, na comemoração do quarto gol contra a Grécia (um golaço dele), correndo para o cinegrafista na lateral do campo, e com a bocarra aberta, cada vez maior, cada vez mais perto da câmera, parecendo dizer ao mundo não o Vocês vão ter que me engolir - como disse Zagalo em 97 - mas algo que, caso ele houvesse realmente dito, soaria mais como Mundo, eu te engolirei!

Maradona foi o Sex Pistols do futebol, ao contrario do Pelé, mais pra Padre Zezinho, com todo respeito ao padre - até porque o rei nunca me enganou com aquele papo de lobo em pele de cordeiro. "Cuidem das criancinhas do nosso Brasil", ele disse chorando após o milésimo gol, quando mais tarde ele próprio faria de tudo para não reconhecer a paternidade de uma filha. Engraçado que os dois comemoram aniversário no mesmo mês de outubro - Pelé fez 70 anos cuidando dos seus negócios e Maradona fez 50 fumando um bom charuto cubano.

Nem entro no mérito de quem foi melhor em campo. Falo de pessoa, gente. E nesse quesito o jeito bandido do Maradona sempre me agradou mais que o bom mocismo do Pelé. Aliás acho que é de jogadores com o temperamento de um Maradona ou de um Serginho Chulapa que tá faltando na Seleção. Gosto de jogador com alguma causa, tipo o Reinaldo ou o Sócrates lendo Furacão Sobre Cuba na concentração de uma Copa América ou os jogadores do Flamengo de 82 entrando em campo, na Argentina, pela Libertadores, segurando uma gigantesca bandeira do país de Carlos Gardel em plena Guerra das Malvinas. Outros tempos. Antes, muito antes da Sandy de Chuteiras, o jeitinho Kaká de ser.

Sábado passado o Sportv homenageou o Pibe D'Oro. Perdi o programa, mas vasculhando a internet, encontrei um documentário chamado Maradona por Kusturica, no Youtube, em dez partes. Muito bom. Um retrato comovente de um grande jogador e de uma grande pessoa - amável e louco, passional como o argentino sempre é. Encontrei também o gol antológico que ele fez no jogo da Agentina contra a Inglaterra na Copa de 86, e melhor, na narração desesperadamente linda do uruguaio Victor Hugo Morales. O gol do século. A narração do século. Um dos momentos mais lindos do futebol mundial. Algo como - caso eu pudesse fazer essa comparação inusitada - um Poema em Linha Reta com final feliz.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

NEI LISBOA



In: Execução da música Hein?!, do disco homônimo (1988).

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

DEURIVAL E O DISCO


"É como dizer que comeu a Carla Perez. Por que mais que seja verdade, ninguém daqui vai acretiar numa historia dessas. Não tem graça, já que a graça é contar pros outros. Então se o cara comeu, nem abra o bico senão vira piada. Imagina eu falando isso. Eu, gordinho de óculos fundo de garrafa. Quem vai acreditar se eu disser que comi a Carla Perez?"

Tenha ou não segurado o tchan da Carla Perez, a introdução do Deurival citando o exemplo da dançarina tornou a sua outra história - talvez tenha sido essa sua intenção - mais factível. Na verdade, acho que todos que estavam conosco no Bar do Gil, naquele ano de 2001, acreditaram piamente quando o Deurival afirmou ter visto um Disco Voador em uma chácara, tarde da noite, no momento em que ele e mais uns três heróis da resistência pegavam mais uma Antarctica dentro de uma caixa de isopor.

"E foi bem na hora que eu tava abrindo a cerveja no dente. Bem naquele chiadinho. Foi a tampa caindo e eu olhando, besta, aquele troço parado detrás da palmeira de coco babaçu, lá longe, perto do açude da chácara."

A princípio o Deurival não disse nada pros outros bebuns, mas o seu comportamento - o braço petrificado horizontalmente segurando a cerveja, o rosto também parado mirando o açude - chamou a atenção do dono da chácara.

"Que foi, Deuriva? Tá passando mal? Rapaz, se tu num guenta, bebe leite. Passa a cerva aí."

Deurival se levantou sem tirar o olho do Disco Voador e falou pros três homens que estavam com ele:

"Tão vendo ali, lá perto do açude? Tão vendo aquilo lá piscando detrás das palha da palmeira?"

Todos olharam pro local indicado pelo Deurival, menos o caseiro da chácara, o mais bêbado deles, que olhando pra outro rumo, perguntou:

"Caraio, que porra é aquilo mermo?"

Na época , por volta do ano 2000, não havia tefone celular com câmera embutida. O dono da chácara ainda correu pra dentro de casa à procura da Yashica da sua esposa. Não encontrou nada que pudesse registrar o fenômeno, nem caderno de desenho. Voltou pra varanda e chamou o Deurival e os outros para verificarem de perto o estrano objeto piscante.

"Vô nada", disse o caseiro.

Então foram o Deurival, o dono da chácara e um outro homem, pisando no capim alto e envergando os galhos de outras vegetações rasteiras. Aqui e acolá alguém tropeçava em algum buraco e ficava sem a cerveja do copinho descartável.

"Quando a gente tava chegando mais perto, vi melhor Disco Voador. Era parecido com uma bola de futebol americano, só que achatado e circular, quase do diâmetro de um LP.

"E o tamanho, qual era o tamanho?"

Deurival olhou ao redor do Bar do Gil sem encontrar nada compatível com o tamanho do OVNI. Até que viu, na frente da FAMA, algo que pudesse servir de exemplo.

"Tá vendo aquele ônibus ali que carrega estudante da FAMA? Pois era mais ou menos daquele tamanho."

Nessas horas sempre aparece um chato querendo fazer graça:

"E qual intinerário que tava escrito nele? Júpiter/Marte, via Ribeirãozinho?"

Deurival não se abalou, nem a gente sorriu do comentário idiota.

"Aí, quando a gente tava chegando bem pertinho dele, ele se movimentou lentamente e saiu detrás da palmeira e depois ficou parado em cima da gente. Cara, a coisa mais linda do mundo. Luz de toda cor saindo do fundo do bicho, parecia iluminação de boate. Acho que tinha algum ET querendo fazer contato com a gente, mas o idiota do caseiro apareceu correndo e gritando e rebolou uma manga no disco. Aí, meu amigo, foi que nem nos filmes. O disco se movimentou devagarzinho de novo e depois sumiu que nem um raio, sem deixar rastro."

Nesse momento apareceu o presidente da turma na esquina da UEMA e disse que a professora de Introdução ao Pensamento Geográfico ia iniciar a chamada. No caminho da sala de aula perguntei:

"E a manga, Deurival, o cara acertou a manga no Disco Voador?"

"Acertou, o desgraçado. E impressionante é que de manhã, quando voltamos ao local em que o Disco estava, procuramos a manga que o doido jogou e encontramos só o caroço. E a palmeira tava com as palhas tudo murcha."

"E a Carla Perez, não apareceu voando por lá também não?", perguntou o chato.

"Não, viado, mas a tua mãe passou muntada numa vassoura."

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

CASO SERRA: NÃO HOUVE OVNI GLOBAL

Talvez antes de outro entrevero, a Globo transmita no Jornal Nacional, com exclusividade, um terceiro Objeto Voador Não Identificado atingindo a cabeça do candidato José Serra. Um tijolo de seis furos arremessado por um homem barbudo trajando uma camisa vermelha e que seja, preferencialmente - esse detalhe o repórter destacará repetidas vezes -, ateu e a favor do aborto. (Pegando carona nesse tedioso tema, uma vez vi uma estampa anarquista em que o papa João Paulo II aparecia grávido, olhar preocupado, uma mão acariciando o barrigão como a se certificar de que aquela protuberância era real, tendo embaixo a frase: Se homem engravidasse, o aborto já seria um direito.) Retomando o tema dos OVNIs, o Objeto Voador veiculado no Jornal Nacional (que o Serra afirmou pesar meio quilo em entrevista à Record) não houve, ou pelo menos não foi filmado pelo celular do jornalista da Folha. Pero a Globo o criou, através de fusão de imagens, edição, trucagem, o escambal. E ainda contratou o perito Ricardo Molina para dar fundamento à matéria. Mas o olhar cuidadoso e a paciência do Daniel Florencio, através do Blog do Azenha, perceberam a fraude televisiva.

VÍTOR GONÇALVES NETO (IV)

INSTANTE DE INOCÊNCIA E DE REVOLTA

Uma das coisas mais lindas e dolorosas que já li na minha vida e também das mais certas e mais chocantes foi que não há coisa mais triste do que uma criança triste. E isso me vem à lembrança agora nesta manhã de Novo Hamburgo no Rio Grande do Sul onde as crianças parecem um botão de rosa. Faces rosadas como que coloridas com papel de rósea cor. Tão bonitas que a gente sente vontade de beijá-las e nelas colher mais um pouco de vida. E de inocente amor.

Mas o que aconteceu foi ontem em Porto Alegre para onde fugi sem conhecer ninguém e vice-versa. Comecei a deflorar a cidade nua com os olhos úmidos de emoção. E fui esbarrar numa praça tão florida quanto as outras e cujo nome nem quis saber. Era uma praça e pronto. Um vento frio cortava o tempo da tarde e casais se aninhavam numa bolinação mútua e quente nos demais bancos. Foi justamente quando o vi. Um garoto todo enrolado em trapos de lã, de calças compridas e pés descalços. Nas mãos uma caixa de engraxate e um sorriso de dentes alvos saindo dos lábios vermelhos que entoavam uma canção. Vinha no meu rumo com sua carga de tintas e de alegria. E foi se abaixando nos meus pés já assoviando e abrindo uma lata de graxa marrom. Pois justamente neste mesmo instante um casal se senta ao lado com um garoto da mesma idade com trajes ricos e sapatos lustrosos como sua face também. E dirigiu um olhar e um sorriso talvez de mofa ou compreensão ao engraxatezinho que se levantou derrepentemente transtornado e num instante desapareceu entre as ávores agora carregando sua carga de inúteis tintas. E de imensa tristeza também.

Nesta manhã enevoada do dia seguinte a esse acontecimento já distante de Porto Alegre alguns quilômetros, fico olhando as fachadas alemãs das casas de Novo Hamburgo. Ali se aninham nada menos que 500 fábricas de calçados trabalhando diuturnamente. São milhares de sapatos (muito milhares mesmo) que ficam no Brasil e que são exportados para as estranjas. Só que não sobrou de todos eles nenhum par para o pequenino engraxate de Porto Alegre todo enrolado de trapos de lã. As calças compridas. Os pés no frio chão. Relembro de quando ele vinha saltitante no meu rumo cantando uma canção. De quando seu assovio se chocou com o sorriso de mofa ou de compreensão de outro menininho rico. De quando ele derrepentemente desapareceu entre as árvores da praça tão triste quanto um palhaço na hora da viuvez. Carregando sua caixa de tintas. Sua capa de inocência. Sua carga de revolta.
(23.11.1980)


Vítor Gonçalves Neto
In: Crônicas das Andanças: dos vivos e dos mortos, dos bichos e das fêmeas e de outras coisas que tais. Imperatriz: Ética, 1995.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

MARILENA CHAUI

Serra X Dilma:
A tal informação e os interesses da informação da propalada liberdade de expressão.

INSÔNIA


Liga e desliga a TV. Calça o chinelo. Abre e fecha a geladeira. O olho no olho mágico flagra a motoqueiro vigilante urinando no poste. O cachorro late para não perder o costume de latir. O vizinho ronca alto.

O olho mágico flagra o olho olhando-o. O vizinho roncando é alto. Fecha a TV. O poste urina no motoqueiro vigilante. Liga a geladeira. Descalça o chinelo. O latido acorda o cachorro acostumado a latir.

O vizinho ronca no olho mágico. O motoqueiro vigilante abre a geladeira. O latido do cachorro liga e desliga a TV. O poste alto calça o chinelo. O costume fecha o olho.

Liga e desliga a TV deitado numa cama de rãs. Abre e fecha a geladeira com a cabeça apoiada num travesseiro de gafanhotos. Embrulhado num lençol de espinhos olha no olho mágico e flagra o motoqueiro vigilante urinando no poste.

Ao amanhecer- o cachorro late acostumado, o vizinho ronca alto - vê a professora jovem passando para o colégio com óculos escuros e pensa que a insônia é uma Medusa de Rayban

sábado, 16 de outubro de 2010

DAS PROIBIÇÕES


No Amarante, numa mesa de bar, conversávamos sobre os avisos impressos em papel A4 e pendurados em algumas repartições púbicas. Além da corriqueira frase Desacatar funcionário público - seguida das respectivas sanções penais: detenção, de seis meses a dois anos -, a sentença É proibido entrar trajando bermuda também é um aviso típico nesses recintos, principalmente naqueles onde o trânsito de certas autoridades é frequente. O engraçado é que a norma não vale para as mulheres que andam de saia, de bicicletinha, uma mão no guidon e a outra tampando a calcinha. Enquanto elas, lindas e loiras, transitam sem ser molestadas por fóruns e prefeituras, os homens são barrados pela simples falta de tecido nas canelas. Em alguma cidade do Brasil, um juiz recusou-se a atender um homem que calçava um chinelo e não um sapato novo e engraxado. Um sujeito sem sorte: além de pobre, humilhado. E pensar que o problema aí não foi a falta de tecido nos cambitos sertanejos - o homem trajava uma calça melindrosamente engomada -, mas falta de couro.

Desde o prédio antigo, ali em frente ao colégio Dorgival, eu frequento a Biblioteca de Imperatriz. Quando desastrosamente a mudaram para o Bolsa Família, perto do Shopping Timbira, de quebra mudaram também o seu diretor: no lugar da velha gorda, simpática e fumante, colocaram um velho ranzinza e não fumante que andava com uma perna de madeira debaixo do ombro. Quando os frequentadores ouviam o toc toc da muleta martelando no pátio que dava acesso à sala de leitura, todos ficavam mais tensos que silenciosos. Uma vez me desentendi com o velho da muleta. Ao me ver numa salinha separada da sala principal com tres livros sobre a mesa, o velho disse que eu não podia ficar ali e muito menos poderia ter pego três livros ao mesmo tempo. Eu disse que não ia sair e ia continuar lendo os três livros. Ele me chamou para olhar uma cartolina onde continha as normas da biblioteca: "Proibido conversar, proibido riscar, proibido pôr os cotovelos sobre os livros, proibido mexer nas prateleiras." E embaixo disso tudo, destacado: "À diretoria". Eu disse que tava tudo errado. "Como assim tudo errado?", bodejou o velho. "Pra começar, aqui é um lugar público. Então no mínimo o público deveria ser consultado sobres essas normas antes delas serem criadas. E além do mais, essas proibições são apenas para a diretoria, né? Ou o senhor vai dizer que craseou "À diretoria" sem querer ?".

No Old Claudeci, era "proibido sentar na cinuca", mas não apenas isso. Falar alto, mexer no DVD, aumentar o volume - tudo era alvo da represália do vascaíno com cara de português de Montes Altos. Era tanta aporrinhação que começamos a fazer piada. "Daqui uns dias vair ser proibido sujar os copos de cerveja também", falávamos. Em 2006, no famoso Bar do Léo, em São Luís, eu, Sandra, Diana, Frederico e outra menina chegamos às sete da manhã pra beber. Quando o Léo levantou o portão do mercado onde funciona o seu bar, de cara percebeu que estávamos grogue (bebíamos desde as oito da noite do dia anterior), mas mesmo assim serviu uma Antártica pra gente naquelas simpáticas mesinhas quem têm um pedal de maquina de costura embaixo. Bebemos brocados: entre uma golada e outra, traçamos um suculento galeto assado e umas duas mangas de vez. Aí, pela tarde, todo mundo doido, começou a beijação. Me lembro que enquanto o Frederico atacava os lábios de alguém, me levantei e fui até a Sandra e a beijei com um gosto de língua, frango assado e manga de mesa. Não demorou uns trinta segundos pro Léo nos separar dizendo que ali não aceitava "uma sem vergonhice dessas". Na saída do bar, não vi nenhum aviso proibindo beijo, mas vi algumas placas proibindo tocar violão e dançar.

Enchi linguiça até agora para dizer que na semana passada, numa Quarta Rock da Texana, me desentendi com o segurança que fica na porta da boate. Havia acabado a show da Pilantropia e eu, Jonhy Animal e Fabinho Cara de Pombo decidimos mexer um pouco a bunda ao som de música eletrônica e sentindo aquela fumacinha cheirosa na cara. Na entrada, o segurança me barrou. Disse que eu não podia entrar com o capacete. Perguntei onde havia a norma proibindo a entrada de pessoas com capacete na boate. Ele disse simplesmente que era determinação do dono do estabelecimento. Retruquei novamente e disse que se houvesse tal norma, ela deveria estar visível para os frequentadores da Casa. Um aviso escrito em papel A4 era o bastante - e a publicidade, dever da Casa e direito do frequentador, evitaria maiores transtornos. Mas como não havia nada - o único aviso fixado ao lado da porta era proibida a entrada de menores de 18 anos - eu disse que iria entrar com capacete e tudo. Quando vou ultrapassar a porta, o segurança - do alto de sua estupidez e vaidade de Leão de Chácara - esticou o braço de 40 centímetros de largura na minha frente. Foi a gota de cerveja. Aí eu boçalizei. "Porra, caralho, agora eu vou é te prender por constrangimento ilegal, seu merda." E ia mesmo, mas o Fabinho Cara de Pombo entrou no meio, pegou meu capacete, me empurrou pra dentro da boate e disse que ia resolver a parada. Depois de uns dois minutos o Fabinho aparece bebendo uma Skol Beats no gargalo e descendo até o chão ao som do Black Eyed Peas. Grito no ouvido dele: "E o capacete?". E o Fabinho, dando um baforada num Free: "Convenci ele a guardar pra mim."

*

Na ilustração acima, desenho do argentino Leo Durañona narrando o conto Diante da Lei, de Franz Kafka, incluso na HQ Kafka em Quadrinhos.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

O MESMO

O mesmo andava pela principal avenida da cidade quando viu, na frente de uma calçadeira, a Barra Circular vermelha estacionada. O mesmo ainda tentou resistir à tentação, mas não conseguiu. Chegou perto da magrela, passou a perna por cima e saiu pedalando como se ela fosse sua. Era Natal e a avenida estava movimentada. Alguém viu o mesmo furtando a bicicleta e avisou uma dupla de Cosme e Damião que estava próxima do local. Antes do mesmo dobrar a esquina, os policiais militares o agarraram e o conduziram para a delegacia, não sem antes darem muito na cara do mesmo, fazendo o mel descer da sua venta.

Na porta do Plantão Central, vários repórteres já esperam o mesmo, que chegou algemado e segurando a bicicleta pendurada pelo lado de fora do camburão. Na permanência, perguntado por um repórter – um repórter gordo – sobre o motivo de seu calção estar rasgado, o mesmo falou: “Num ti interessa”. O repórter gordo ficou alterado e gaguejou por uns instantes, mas logo posicionou-se olhando para câmera de modo que o mesmo, algemado, aparecesse em segundo plano atrás de si: “Um vagabundo desse ainda é saliente! Rouba e fica tirando graça. É muita cara de pau de mermo... Depois que a população mata um infeliz desse de paulada aí vem os direito zumano defender uma praga dessa.” Depois, recomposto, perguntou ao policial: "Cabo Deusimar, como se deu a prisão do mesmo?" O policial encostou o braço no balcão da permanência e disse: “A gente tava fazendo o patrulhamento de rotina no centro quando fomos avisado de que o mesmo tinha roubado uma bicicleta. Aí a gente caiu em campo e conseguiu capturar o mesmo. Na hora da prisão ele já tava dominado pela população que aliás já tinha batido muito no mesmo”. O repórter gordo então comentou, apontando para o mesmo: “Esse pode levantar as mão pro céu, minino!”. E depois, colocando uma mão no ombro do Cabo Deusimar: “Se num fosse o polícia aqui, a população tinha dado um jeito no mesmo”.

Outro repórter – esse baixinho e careca – chegou perto do mesmo e perguntou: “Rapais, por que tu robô essa bicicleta, a bicicleta de um trabalhadô?” O mesmo respondeu, cabisbaixo: “Num sei não, dotô. Parece que é uma doença que eu tenho, essa de robá”. O repórter se afastou do mesmo e, falando baixinho, bem próximo à câmera, como se falasse naquele momento somente com o telespectador: “Doença? Essa é nova! Isso é muito é um mão de carrapicho, meu amigo: onde bate, aprega”. Depois, retornando ao mesmo: “Rapais, sai dessa vida, tu é novo. Te entrega pra Jesus. Trabalha que tu consegue as coisa.” E enquanto o mesmo era conduzido pro gabinete do delegado, o repórter baixinho e careca posicionou-se na frente de um banner promocional e anunciou: “Tá pensando em construir? Tijolo? Cimento? Pia? Telha? Vaso sanitário? Não tem outro não, é Material de Construção do João.”

Quando o mesmo adentrou no gabinete, lá já estava a repórter bonita e cheirosa, em momento íntimo com a autoridade policial. Enquanto o delegado, desprevenido, tentava acertar o buraco do botão da calça, a repórter bonita e cheirosa, tentando se recompor, ajeitava o cabelo e segurava o microfone com força além do habitual. Comunicado por Cosme e Damião a respeito do delito, o delegado – um homem jovem e disposto – procedeu à autuação em flagrante delito do mesmo. Perguntado ao mesmo o por que do furto, o mesmo respondeu: “Sabe, dotô, eu só ia dá uma volta na biscleta, depois ia dechá ela lá no mermo lugar”. Terminado o flagrante e recolhido o mesmo para o presídio, a repórter bonita e cheirosa barganhou uma entrevista com o delegado. No jornal das sete, ela perguntou: “Delegado, o que o mesmo disse a respeito do furto da bicicleta”. “Ele, como todos os outros meliantes, a principio negou, mas no fim acabou reconhecendo a autoria do delito. Interessante é a motivação defendida pelo mesmo: um simples passeio. Segundo o mesmo, ele queria a bicicleta apenas para passear, devolvendo-a depois ao dono. Ora, é sabido que na França isso é possível. Lá o governo disponibiliza um serviço que possibilita a qualquer citadino apanhar uma bicicleta em determinados pontos da cidade e usá-la por determinado período, desde que pague uma taxa para tanto e devolva a bicicleta onde a apanhou ou em outro ponto credenciado. O que não é o caso do Brasil e muito menos do mesmo, evidentemente. Então temos quase certeza de que o mesmo iria trocar a bicicleta por pedras de crack, já que manchas nos dedos do mesmo denotam o uso regular do entorpecente.”

Terminada a entrevista, a repórter bonita e cheirosa enlaçou o delegado e sussurrou, quase enfiando a língua em seu ouvido: “Gosto muito desse teu cheiro de homem. Meu gostoso...” E o delegado, apertando-a pela cintura de modo a fazê-la sentir o volume de sua pistola e levantando-a um pouco acima do chão: “Hum... é mesmo?”

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

EL JUSTICIERO

"Justiça com as próprias mãos"

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

BUKOWSKI

In: Bukowski declamando poema em trecho do documentário Born into this (2003), de Jonh Dullaghan.

sábado, 11 de setembro de 2010

RENATA

Depois de 2001, aniversariar no dia 12 de setembro é aniversariar um dia após o 11 de setembro. É o que o Orkut me diz: Renatinha, a Renata Ingrata, aniversaria amanhã, domingo, 12. Há muito tempo que não a vejo. Acho que desde a invasão do Iraque. Que dois aviões carregados de Don Juans abram crateras no seu coração. Das garotas de língua azul na foto, a Renatinha é a lingua do meio.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

AS PONTES DA GAUTAMA DEPOIS DA CURVA DA MORTE

Alguns amigos sabem que morreu um policial que trabalhava comigo lá no Amarante. Num acidente de trânsito. Numa curva, na saída de uma cidade, contra uma mangueira. Se ele corria demais - e há quem diga que esse foi o motivo do acidente -, é porque, de fato, a velocidade era sua característica. Lembro que às vezes, quando vínhamos a trabalho para Imperatriz (e almoçávamos na minha casa), ele era o primeiro a concluir a refeição, o primeiro a palitar os dentes, o primeiro a agradecer o almoço e o primeiro a querer retornar para o Amarante. Dada essa correria, houve quem afirmasse: "se ele estivesse mais devagar, teria escapado". Mas, e se ele estivesse mais rápido, também não teria escapado? Causalidade por causalidade, passaria no local do acidente antes do acidente, noutro tempo e possivelmente com outro ânimo. Ou nem passaria por lá: a pressa poderia ter feito ele esbarrar num amor antigo na esquina, obrigando-o a permanecer na cidade (embora isso não tenha se concretizado porque, ao passar menos veloz na esquina, ele, o amor, já tinha ido embora). Há uma frase erroneamente atribuída a Borges que diz: "A vida é muito curta para ser pequena". Não o culpo. E considerando outra frase creditada ao escritor argentino (na verdade, versos muito pueris para serem borgeanos - "se pudesse voltar a viver,/ trataria de ter somente bons momentos"), creio que é melhor morrer desafiando a vida do que envelhecer, covarde, temendo a morte.

Quando retornávamos da visita ao túmulo do companheiro morto, decidimos passar por São Benedito do Rio Preto, a cidade onde ocorreu o acidente, mesmo sabendo que isso implicaria em muitos quilômetros a re-percorrer. Um tio do nosso amigo, dirigindo uma caminhonete prata na frente, foi o nosso guia. Vimos o local do acidente e depois o carro, que de tão amassado na parte traseira - era um Corolla preto -, mais parecia um Ford K. Conversando depois com o senhor da caminhonete, descobri ser ele pai de uma amiga minha (Niciane, contemporânea de Uema) e que a caminhonete que ele dirigia era a mesma que a Nice havia avisado, via Orkut, há cerca de um mês, que tinha sido roubada. Já estava escurecendo quando partimos. Aconselhados pelo pai da Nice, pegamos um atalho na viagem (que segundo ele nos economizaria uns 200 quilômetros) e encaramos a estrada vicinal que liga (ou antes desliga) Vargem Grande a Coroatá. Na partida fomos avisados dos desvios existentes ao lado de cada ponte de madeira. Logo no primeiro desvio, ao lado de uma ponte feita de estacas já podres, vimos uma outra ponte, ou antes os esqueletos dela, enorme, de concreto armado, esticada ao longo das cabeceiras de uma estrada que não existe. E assim, pontuando os buracos do caminho, elas foram aparecendo, imponentes e inúteis. Eram - não havia dúvida - as pontes da construtora Gautama.

P.S.: No meio do percurso, já pelas nove da noite, uma raposa atravessou o nosso caminho e prostou-se a passos lerdos na nossa frente. Talvez assustada, não ligou para as buzinas, as alternâncias de farol alto e baixo, as acelerações e desacelerações do carro, enfim os tiros para cima como sinal de que queríamos ultrapassá-la. A raposa pequena desafiando a vida e correndo o risco de ser atropelada. Talvez o que se sinta no momento da morte seja algo parecido com a vertigem que antecipa um salto. Um frio na barriga da vida. Uma vontade de urinar mesmo sabendo que não é mais possível. E ela, a vida, como nos finais dos filmes do Felline - o Anthony Quinn em La Strada; a Giulietta Masina em Noites de Cabíria - seja menos amarga se pensada com os créditos subindo a tela com o final em aberto.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

QOTSA

MONSTERS IN THE PARASOL



In: faixa do disco Rated R.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

ALEXANDRE RIBEIRO

O Alexandre me disse que escrevia. Numa dessas festas da Uema, às duas e pouco da madrugada, ele me disse que escrevia poemas. O dias se passaram. O dias se passaram belos e terríveis como um relâmpago, diria o poeta por engano - bêbado, orgulhoso, ostententando um punhal fincado no coração. Noutra ocasião, num bar dantes (o Bar do Claudeci), o Alexandre apareceu com uma coletânea do Dos Anjos. Lemos alguns versos - "O pergaminho singular da pele./ E o chocalho fatídico dos ossos!" -, bebemos, ouvimos Nirvana e conversamos muito sobre poesia e paraísos artificiais. Corte brusco. A câmera agora sai da mesa em que estamos, num travelling langoroso (a úlitma imagem capitada é minha mão pousando o copo de cerveja sobre o logotipo da Skol), até fixar-se num ponto escuro do bar (o interior do banheiro masculino), para daí, numa fusão de imagens, movimentar-se novamente noutro travelling, até novamente fixar-se noutro ponto, agora a tela do meu computador, na minha casa, no exato momento em que abro a caixa de entrada do meu e-mail e descubro os três pequenos textos abaixo enviados pelo amigo Alexandre Ribeiro. De verso em verso, o reverso.

*
I
Letras Letárgicas

Tua ausência leva minha presença a não-estar. O convívio comigo se torna quase insuportável, meu olhos se enchem d’água quando me percebo sozinho, estático, desolado. Meu sorriso já não faz tanto sentido sem a apreciação dos teus olhos. Degolado, como um rei distante, ligeira falta de ar oprimindo os olhos, a boca, arquejante se arrastando por entre este vale sombrio indizível, porém acordado, é só o que permanece. Pessoas passam, mas é como se fossem tão vazias de transparentes. As palavras me atravessam, ele se sente perdido diante delas, um corpo boiando em um rio profundo e raso cheio de pedras e flores murchas, um livro de não-páginas. Próximo e distante a um só tempo, ele busca saídas do labirinto que ele mesmo criou mas não lembrou de colocar pelo caminho as migalhas de alma. A vontade indômita e desprevenida de estar em lugar nenhum, ou algum lugar o mais distante possível de todos que só uma lágrima pode alcançar, pálida e magra e triste moça com uma rosa nas costas nuas cheia de devaneios. A palavra, calada, grita, geme minha dor imperdoável de ser, mas nunca permanecer. Permanecer respirando. Morrer constantemente. Por isso baixar a cabeça se torna a única fuga imóvel da imobilidade de tudo que passa ao redor turvo. Letras letárgicas mal feitas dizem que.

II

Vi de longe que ela escrevia um bilhete encurvado. Não sei se colocava ali toda a tristeza que sentia, ou se estou com poucos cigarros, guardarei para mais tarde. De repente ela deu com o punho fechado na mesa, talvez ali a dor acabasse de atingi-la em cheio. Apenas seus olhos não vi mexer, o corpo todo percebi os trêmulos. Não sei se ela ouvia todas as vozes que agora corroíam o silêncio da ampla sala. Parece que não. Senti-a invencível ali sentada, cabeça baixa e ar de quem conjectura tão inebriante quanto duramente. Para quem escreveria? Quem receberia aquela tempestade feita em letras tão juntas? Ousei pensar em ir até lá, receber o soco daqueles lábios crispados, o cuspe de ódio daqueles olhos contraídos. Então ela sorriu e me quebrou a espinha dorsal. Tudo era doce novamente, eu é que era o amargo. Vi as paredes me fechando e o vacilo descomunal de todas as coisas. Céus, como eu era absurdo.

III

Facas pontiagudas, odes do ofício,
Flores angulosas, dores permanentes...
E de mim não há resquício.

Seios rastejantes, quimera amarga,
Preço alto, este frio indecente...
E no braço o olhar que não me larga.

No vento a semente que não se espalha,
Minhas veias são raízes de uma mortalha,
O corpo inerte, nada que o valha,
Minh’alma queima como queima a palha.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

MEMORINHAS

A Gina estampada na caixinha de palitos com os dois olhos vazados. Eu não te amo mais. Eu não te amo. O urubu que eu matei quando tinha onze anos voa ao meu lado a 120 quilômetros por hora na estrada fantasma para Amarante. Meu pai guardava três revólveres na gaveta da cômoda. O gol do Caniggia em 90. Big Big de uva. Farinha de puba com café. A véia debaixo da cama. Fósforo riscado no meio da aula de português. Sin Dios, sin amo, sin patria. Tio Zezinho cultivava um de maconha no quintal. Assisti Lost Highway em VHS. Jabuti sabe ler, não sabe escrever. Em 1997 comprei a Caros Amigos Especial de 30 anos da morte de Che Guevara. O deputado chamava-se Hitler Mussolini. Zé Colméia fingiu que havia sido atropelado pelo guarda florestal. BMX foi um sonho de consumo. Isso de noite é uma tocha. Recortava o rosto da Xuxa na Contigo e colava em corpos compatíveis na Playboy. Por isso beija, me beija, beija que o tempo passa, eu sei. A loira do Forró do Corró. Meu irmão chorou pensando que estava com Aids quando a prostituta morreu. 100 balas não rastreáveis. Chupa. Chupa que é de menta. Mulheres em velórios ficam tesudas. Sonhei que matava e morria na beira da praia. J.J. Veiga. Pastel de carne bem sequinho. Alguém deve estar rindo. O outro Claudeci era melhor. Só a jaqueta do exército palestino depois da invasão da Faixa de Gaza. Venha comigo para o reino das Ondinas. Um lindo cruzamento de letra para a pequena área. É gol do Vasco. Um oferecimento, Tramontina. Onde tem Tramontina, tem homicídio. Noise Verm e Ameaça à Moral e Catarina Mina no TNT Cocktails. Sangue e porrada na madugada. Aliás ela implorava para levar cabeçadas no céu da boca. Vinho e vadiagem no DCE. Sente-se e sinta-se sentada. Leite de Magnésio. Viu a morte só de calcinha. Um velocípede laranja desceu a ladeira. Eu te amo. Compre Batom. Retroceder nunca, render-se jamais. O caderno de confidências perguntava "Quem você levaria para uma ilha deserta?" O pranto molhou o Conga novinho na volta para casa depois do primeiro dia na escola. Plunct Plact Zum. A calda do dinossauro que andava distraido derrubou a fileira de peças de dominó. É proibido adentrar no Fórum trajando calção, mas não é proibido adentrar sem cueca. O travesti bonito acendeu um cigarro na esquina. Pela primeira vez na televisão. O banco do S. A vida é doce. Febre de 40 graus. O som tropical do Brasil. Chantily nos teus seios bicudos. Isto não é uma confissão. Larga essa loló e vem comigo passar a tarde cheirando sabonetes em prateleiras de supermercado.

sábado, 17 de julho de 2010

MÃO MORTA

QUERO MORDER-TE AS MÃOS

In: faixa do disco O.D., Rainha do Rock e Craw (1991).

terça-feira, 13 de julho de 2010

POP-UP! - A FESTA (II) E ANIVERSÁRIO DE IMPERATRIZ

POP-UP! - AFESTA *

Dia 15 de julho, véspera do aniversário de Imperatriz, acontecerá na boate Usina a festa Pop-Up!, que irá reunir o que há de melhor no universo da música pop.

Dois Dj's comandarão a pista tocando muito dance, synthpop, electro, indie, rock etc.

A festa é organizada por alunos da UFMA, que pretendem trazer uma nova proposta de evento para a boate Usina e uma alternativa diferente de diversão para os jovens de imperatriz.

Através do site da festa você pode colocar seu nome na lista e pagar menos na entrada.

Não será permitida a entrada de menores de 18 anos.

No dia 15 de julho, a partir das 21 h, ninguém vai ficar parado na festa Pop-Up!

(*) Com informações (texto) de Flávia Novais.


ANIVERSÁRIO DE IMPERATRIZ **



A cidade de Imperatriz, a princesa do rio Tocantins, completa neste dia 16 de julho, 158 anos. Influenciada por diversas regiões, a música e a cultura urbana de nossa cidade apresenta vertentes de todas as tribos, seja no hip-hop, no reggae, no rock ou na música popular. Buscando valorizar e incentivar essas correntes, a Fundação Cultural de Imperatriz realiza no dia do aniversário da cidade o palco livre, Show das Tribos, dentro da programação oficial.

O Show das Tribos começara por volta das 17h, no mesmo local e estrutura que se apresentarão o ex-RPM Paulo Ricardo e as atrações regionais. “A nossa proposta é garantir a vez e a voz desses movimentos que tem o seu próprio público, democratizando cada vez mais nossos espaços públicos, uma vez que assim como a festa, Imperatriz é de todos nós”, explicou Lucena Filho, presidente da Fundação Cultural de Imperatriz.

O Hip-Hop será comandado pelo grupo Depoimento Pessoal, que junto com a organização de hip-hop, Imperafro levaram as 4 vertentes do movimento para a Avenida Beira-Rio. “Vamos fazer a apresentação de b-boy, intervenção de grafite, discotecagem do DJ Bronkcs e o nosso show de rap”, afirmou o MC Marcos Fly, componente do grupo que tem mais de 15 anos de estrada.

A massa regueira imperatrizense também terá a sua vez. O DJ Lepurinus apresentará a sua session em quatro etapas, com o melhor do reggae internacional, nacional, um especial de dub e um tributo especial a Bob Marley. Em outra vertente, mais diversificada ainda, o público presente terá a chance de conhecer um movimento que cresce cada vez mais em Imperatriz. Regida pelos colecionadores de vinil Jairo Sade e Loro da Matemática, a discotecagem com radiola rememorará os grandes clássicos do rock, da música popular e alternativa.

(**) Com informações (texto) de Antônio Fabrício

terça-feira, 6 de julho de 2010

ROBERTO PIVA (II)

2010 está sendo um ano esquecível. Muita gente que não deveria morrer está morrendo. Sábado passado foi a vez do Roberto Piva, o poeta que na década de 60, com cara de menino, rompeu o hímen da cidade de São Paulo. Morreu aos 78 anos, de falência múltipla dos órgãos. Agora deve estar com seus pivetes alucinados e uma coruja no ombro procurando Lautreàmont pelos caminhos mais luxuriosos do Além.


Praça da República dos meus Sonhos

A estátua de Álvares de Azevedo é devorada com paciência pela paisagem
de morfina
a praça leva pontes aplicadas no centro de seu corpo e crianças brincando
na tarde de esterco
Praça da República dos meus sonhos
onde tudo se faz febre e pombas crucificadas
onde beatificados vêm agitar as massas
onde Garcia Lorca espera seu dentista
onde conquistamos a imensa desolação dos dias mais doces
os meninos tiveram seus testículos espetados pela multidão
lábios coagulam sem estardalhaço
os mictórios tomam um lugar na luz
e os coqueiros se fixam onde o vento desarruma os cabelos
Delirium Tremens diante do Paraíso bundas glabras sexos de papel
anjos deitados nos canteiros cobertos de cal água fumegante nas
privadas cérebros sulcados de acenos
os veterinários passam lentos lendo Dom Casmurro
há jovens pederastas embebidos em lilás
e putas com a noite passeando em torno de suas unhas
há uma gota de chuva na cabeleira abandonada
enquanto o sangue faz naufragar as corolas
Oh minhas visões lembranças de Rimbaud praça da República dos meus
Sonhos última sabedoria debruçada numa porta santa

In: Paranoia. São Paulo: Massao Ohno, 1963.


Interminável-Esterminável
(ouvindo Barney Kessel)

anjos com botas vermelhas
(dez aparições de leopardos na
janela do apartamento)
Mickey Mouse deve ser agente da CIA
câncer-policial do mundo e seus velhos
Totens
durmam durmam como rocamboles mijados
Giorgio de Chirico & suas
paisagens feitas de sombras
garoto triste a orgia te espera
com cactos de veludo
antes que a noite se esborrache
eu quero ver tuas
coxas na
televisão estrelada
intestinos lunares sob a luz-neon
acariciando teus cabelos jabuticabas
encaracoladas

In: Abra os olhos e diga ah! São Paulo: Massao Ohno, 1975.


APAVORAMENTO N° 1

dezoito garotos & dezoito garotas foram emparedados vivos
em caixas construídas com chicletes que só Adams fabrica &
tostados dentro de um porão de arsênico & cascavéis.

APAVORAMENTO N° 2

quinze adolescentes de ambos os sexos foram chicoteados na
bunda por batalhões da TFP que os insultavam enquanto
trezentos rapazes & moças de seita imperialista Igreja Católica
cortavam rodelas de cebola & colavam em seus olhos.

In: Coxas. São Paulo: Feira de Poesia, 1979.


XIV

vou moer teu cérebro. vou retalhar tuas
coxas imberbes e brancas.
vou dilapidar a riqueza de tua
adolescência. vou queimar teus
olhos com ferro em brasa.
vou incinerar teu coração de carne &
de tuas cinzas vou fabricar a
substância enlouquecida das
cartas de amor.

In: 20 poemas com brócoli. São Paulo: Massao Ohno/Roswitha Kempf, 1981.


5. Viking 1

Queria reler Vico mas não posso / queria ler fico mas não fossa /
queria tomar pico mas na roça / queria virar mico sem a coça / queria ouvir Chico lá na choça / queria ficar rico sem a joça / queria ver o Angico na palhoça / queria ser Cristo mas na nossa / queria ser lírico na poça / queria mais um tico dessa troça

In: Quizumba. São Paulo: Global, 1983.


Bules, bílis e bolas

Nós convidamos todos a se entregarem à dissolução e ao desregramento. A Vida não pode sucumbir no torniquete da Consciência. A Vida explode sempre no mais além. Abaixo as Faculdades e que triunfem os maconheiros. É preciso não ter medo de deixar irromper a nossa Alma Fecal. Metodistas, psicólogos, advogados, engenheiros, estudantes, patrões, operários, químicos, cientistas, contra vós deve estar o espírito da juventude. Abaixo a Segurança Pública, quem precisa disso? Somos deliciosamente desorganizados e usualmente nos associamos com a Liberdade.

In: manifesto Os que viram a carcaça.

POP-UP! - A FESTA


terça-feira, 29 de junho de 2010

IURI PETRUS

Devaneios diários, quem não os tem? O amigo Iuri Petrus que o diga. A alguns dias, mandou-me via emeio o texto abaixo (sem título) para apreciação. De pronto, a minha primeira ideia foi publicá-lo, mesmo sem pedir autorização. Mas - como que descobrindo a minha intenção - o autor antecipou-se positivamente ao meu pedido e aí está (dentre outras coisas) o resultado de ser humano.

*

Era um desses domingos em que acordo só porque o estômago começa a doer, mesmo depois de passar quase três horas esperando que num passe de mágica aquela sensação fina e aguda desapareça para continuar sem encarar aquele dia. É, não deu...O corredor do apartamento tá um mormaço purgatorial (o corpo quente, mas sem suar) e sinto a sujeira da noite anterior de trabalho numa multidão que tenta ser carnavalesca com muitas mulheres pedindo para ser presas, massacradas e sodomisadas. Tomo banho. Então saio na minha missão de calar o corpo (talvez fosse melhor esquecê-lo) com um pouco de comida - quem sabe depois ele não se cansava e dormia me afastando daquele dia. Só que nada pior do que a sonolência leve com mistura e confusão de percepções trazendo uma feliz e fugaz sensação do ilimitado da imaginação repentinamente evaporada e doída... Sinto o meu pau pulsar e fico acariciando-o como quem pedi a um bichinho de estimação para ficar quietinho mas, ao mesmo tempo, fica atiçando o bichano como a fazer 8 grosando-o minhas pernas. Não tem jeito: vou ter que gozar. Como tô sem muito saco para encarar certas pessoas, apelo para a imaginação, achando que ainda sobrou um pouco, ao menos para resolver este probleminha! A merda é que nem isso me sobra e tenho que procurar os arquivos mortos e ocultos do meu computador. Até pensei em procurar asiáticas e indianas na web como que num devaneio antropológico e antropofágico de terceiro mundo, mas minha cabeça não tava muito aberta para novidades... Só queira gozar e jorrar. Vejo Bentinho, como que numa espécie de alter-ego do diretor do filme pornô autoreferenciando-se como leitor de Machado e Eça, um seminarista que não consegue se conter frente à tentação de sua priminha safada e a come no chão da sala. Fico vendo aquela mulher e ela me parece tão real, nada parecido como aquelas gostosonas de bundas e peitos enormes e suculentos que se esgoelam de tanto gritar e parece que não gozam nada. Ela tem uma beleza de poucas proporções, pernas finas e duras, seios pequenos e caídos, pentelhos aparados e um grelo tímido. Ela estava realmente sedenta para sentir-se preenchida, mesmo que fosse apenas sua atuação, mas atuava bem... Por essa hora já devia ter gozado há muito e, apesar da solidão e decadência sentidas, fiquei encantado com ela. Sei que ela gozou muito ali naquele chão, via na sua cara, em suas expressões de tesão e desejo cheias de uma alegria fugaz misturadas com a tristeza do pós-gozo. Apesar de todo encantamento já estava contentado e comecei a ler as últimas notícias em um site qualquer quando vi que uma tal atriz que já foi global mas que em seus tempos não áureos fez filmes pornográficos, havia sido encontrada morta em seu apartamento em alguma grande cidade que não me lembro o nome, ao lado de alguns anti-depressivos e talvez uma carta de despedida. Era uma tal Leila Lopes. Fiquei curioso e procurei alguma imagem... Era ela a moça real que me encantou no filme pornô. Gozamos, morremos e tédio. Mas no fundo fiquei feliz porque havia comido uma defunta... E me senti mais humano.

LAERTE (II)


quinta-feira, 24 de junho de 2010

ALÉM DA TV OKAZAJO (III)

TV OKAZAJO - EM RITMO DE CÓPULA

Dias 26 e 27 de junho (sábado e domingo, às 19h e 21h), no Teatro Ferreira Gullar.

sábado, 19 de junho de 2010

ROBERTO PIVA

A PIEDADE

Eu urrava nos poliedros da Justiça meu momento abatido na extrema paliçada
os professores falavam da vontade de dominar e da luta pela vida
as senhoras católicas são piedosas
os comunistas são piedosos
os comerciantes são piedosos
só eu não sou piedoso
se eu fosse piedoso meu sexo seria dócil e só se ergueria aos sábados à noite
eu seria um bom filho meus colegas me chamariam cu-de-ferro e me fariam perguntas por que navio bóia? Por que prego afunda?
eu deixaria proliferar uma úlcera e admiraria as estátuas
de fortes dentaduras
iria a bailes onde eu não poderia levar meus amigos pederastas ou barbudos
eu me universalizaria no senso comum e eles diriam que tenho
todas as virtudes
eu não sou piedoso
eu nunca poderei ser piedoso
meus olhos retinem e tingem-se de verde
Os arranha-céus de carniça decompõem nos pavimentos
Os adolescentes nas escolas bufam como cadelas asfixiadas
arcanjos de enxofre bombardeiam o horizonte através do meus sonhos

In:Paranoia. São Paulo: Massao Ohno, 1963.


A PIEDADE - COM ROBERTO PIVA E BEAT GENERATION


In: Filme produzido pelo grupo Interzona, a partir do poema Piedade, com vozes de Roberto Piva, Jim Morrinson, Willian Burroughs, Patti Smith, Jack Kerouac, Antonin Artaud. Músicas de Stockhausen, Lou Reed e Morfine.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

CÓPULAS DO MUNDO

No início dos anos oitenta o Pelé comia a Xuxa. Todo dia. Tempos depois (quando todo dia ele já não a comia), a Rainha dos Baixinhos disse que os pés do Rei do Futebol eram horrendos, pareciam garras. Garrincha, que o diga Elza Soares, nasceu em Pau Grande. Após um gol, Maradona e Caniggia comemoraram beijando-se na boca, o que provocou grande ojeriza na cúpula dos militares do Estado Maior do Exército Argentino. Em 1995, a manicure Cláudia Laudilene declarou ter sofrido assédio sexual do técnico Vanderley Luxemburgo. Segundo ela, ele a "agarrou, beijou e tirou o bráulio para fora num hotel". Corre na internet um vídeo em que Vagner Love faz "love" com a atriz pornô Pâmella Butt. Em 1999, durante a Festa da Uva, Romário não marcou gol, mas comeu vários cachos de uva – um deles, aliás, premiado com a rainha da festa, a gaúcha Fabiana Bressanelli Koch. Salvo engano, foi o Vampêta (mistura de vampiro com capeta) o primeiro jogador brasileiro a posar nu pra revista de corte e costura G Magazine. Em partidas decisivas, o espalhafatoso Valderrama jogava com uma fotografia da esposa dentro da cueca. Jonh Terry pode até ter perdido a braçadeira de capitão da seleção inglesa, mas não desperdiçou o relacionamento extraconjugal com a namorada de um companheiro de clube. No Youtube, há um vídeo em que o atacante sueco Ibrahimovic, antes de um jogo, no meio do campo, encara demoradamente - com cara de gata safada - o Ronaldo Fenônemo. Este, ao perceber, olha para trás, como a procurar o alvo do olhar desejoso. Suspeito que na época o Ibrahimovic já sabia – ah, se sabia – que o Ronaldo tava comendo de tudo. De X-Bacon às duas da tarde a Travestis às duas da madrugada.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

ALDA

Foto: Carlos Henrique Brandão
E nesta quinta, 17 de junho, quem aniversaria é a Aldinha, a garota que quebra o tucum mas não arrebenta a castanha do Pará. São vinte e poucos aninhos de muita simpatia a gostosura. Parabéns.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

PULANDO, PULANDO, PULANDO...

Jumping (1984), curta de animação do japonês Osamu Tezuka.

CINEMA NO TEATRO

PROGRAMAÇÃO DO MÊS DE JUNHO

07/06 - O BEIJO DA MULHER ARANHA, de Hector Babenco
Responsável pela Exibição: Fernando Ralfer

14/06 - RITUAL DOS SÁDICOS/DESPERTAR DA BESTA, de Zé do Caixão
Responsável pela Exibição: Iuri Petrus

21/06 - DONNIE DARKO, de Richard Kelly
Responsável pela Exibição: Marina Cardoso

28/06 - PRECIOUS, de Lee Daniels
Responsável pela Exibição: Marcelo Ricardo

Filme Suplente:

WAKING LIFE, de Richard Linklater
Responsável pela Exibição: Theylon

sábado, 5 de junho de 2010

O ROTEIRO DAS SETE PONTES

Não vi a exposição da Vanusa Babaçu, não bebi a Cerpa do Bar do Beco. Às cinco da manhã da terça, tentando ser amistoso diante de um frentista sonolento, abasteci a moto e rumei para Amarante. Às oito, conforme me dissera por telefone o delegado, já deveria estar a postos, porque meia hora depois partiríamos para a localidade denominada Sete Pontes, na zona rural da cidade. “Sete Pontes? Fazer o que?”, perguntei. “Uma missão. Apenas uma missão”, ele respondeu, deixando transparecer certo júbilo com o meu espanto.

No horário combinado embarcamos. Na frente (o veículo era uma L200 4x4) entraram o motorista, o delegado, um sargento e um cabo PMs – quase a metade do efetivo policial da cidade –, além do ar frio do ar-condicionado. Atrás, na carroceria, disputando pedaços de colchões improvisados como assentos, entramos eu, um soldado, um guarda municipal e mais dois policiais civis. Mesmo sabendo que uma chuvarada se agasalhava no céu amarantino, decidimos partir. E fomos. Todos juntos, fomos – pra frente, Brasil, Brasil, nossa seleção.

A estrada que leva ao Inferno não deve ser muito diferente da estrada que percorremos. Ladeiras íngremes, trechos esburacados, cortinas de poeira, crateras. Em ambos os lados, soberbas fazendas e a vegetação devastada, queimada, com muito gado aparentado mastigar capim sintético e pouquíssimos animais silvestres à vista. Durante a maior parte da viagem, apenas alguns urubus nos acompanharam em vôos panorâmicos. Em trechos menos devastados, um ou outro carcará no topo de alguma árvore chamuscada. Na ausência de mais animais, chegamos a imaginar, ao cruzar um baixio alagado, sucuris se arrastando imperceptíveis como as nuvens longínquas, espessas, pretas, aqui e acolá vazadas pelo sol.

Não tardou para que a chuva chegasse. Algum bonachão ainda sugeriu, de dentro da cabina, que o veículo estacionasse num local coberto para que nós, da carroceria, fôssemos poupados do aguaceiro. Recusamos, ostentando a típica dissimulação dos ofendidos, e deixamos a água nos purificar, lavando nossos corpos barrentos. Depois da chuva, novamente apareceu o sol, mas não tão quente quanto antes. Ao atravessar um vale, visualizamos um arco-íris imenso, majestoso. Lembrei dos meus tempos de menino. “Aquele arco-íris deve estar chupando a chuva”, pensou o menino.

Nossa primeira parada no tortuoso caminho das Sete Pontes foi o assentamento Alvoradinha, o maior e mais organizado do percurso, com energia elétrica, telefonia fixa e associação de moradores. Lá o delegado colheu depoimentos acerca de uma tentativa de homicídio. A vitima, um guarda municipal, havia sido “retalhada” a golpes de facão, após badernar e exibir seu revolver nos bares do centro da localidade. Mais adiante, a imagem mais dolorida, o retrato nu e cru – aqui cabe bem o clichê – da total ausência do Estado – a ocupação denominada Ouro Preto e seus casebres de bambu, mães adolescentes solteiras, energia elétrica ausente. Depois de outro depoimento colhido, seguimos. Na saída, um menino emparelhou-se à caminhonete, e, empurrando um aro enferrujado de bicicleta com um bastão deslizando pela calha, tentou nos acompanhar, disputar uma corrida. Ficaram para trás ele, seu aro enferrujado e o Ouro Preto.

Ápós oito horas de viagem, enfim avistamos a primeira das sete pequeninas pontes que dão nome à localidade (que termina num bar localizado na sétima ponte, na divisa entre Amarante e Açailandia). Fomos lá para caçar os assassinos de outro guarda municipal, morto durante uma bebedeira, com um tiro de espingarda. Chegando no bar onde o crime aconteceu, encontramos um dos suspeitos nas proximidades. Três dias depois, ele havia retornado. Fiquei pensando sobre aquela máxima que diz que o criminoso sempre retorna ao local do crime. Se verdade, se mentira, ali estava o homem, no mesmo local. Morbidez? Curiosidade? Raskolnikov, dias após assassinar a velha usuraria, também retornou ao quarteirão onde partira o crânio da idosa com um machado. Talvez o motivo seja um “chama”, uma “força gravitacional” muito forte que faz com que o homicida retorne. Ou, como se diz no Sertão, uma moeda colocada pelos populares debaixo da língua do morto.

Negando a princípio, o suspeito acabou confessando participação no crime. Negação e fuga são comportamentos naturais em um criminoso. Na verdade, um direito dele. Se um homem se sente acuado, perseguido (independente de quem o persegue, o Estado ou outro infrator), é seu direito fugir, se esconder. Direito pessoal, animalesco, não reconhecido pelo Estado. Aliás, reprimido, pois é para isso que existem mandado de prisão e agentes policiais para cumpri-lo. Mas, neste caso, as probabilidades de fuga do homem eram nulas. Em pouco tempo ele estava cercado, depois algemado, depois embarcado na carroceria da caminhonete que o levaria para a carceragem.

Na volta, ao anoitecer, paramos novamente no assentamento Alvoradinha, para jantar e colher mais depoimentos. Já era madrugada quando demos por encerrada a missão e retornamos para Amarante. Devido a estatura do preso – alto e magro –, o espaço de cada um diminuiu consideravelmente na carroceria da L200. Além do trabalho inútil de buscar conforto entre bolsas, garrafas térmicas e pernas, ainda tínhamos de carregar as armas – pistolas, metralhadoras, revolveres, dezenas de facões apreendidos durante o percurso. Depois de uma hora de viagem, estávamos todos doloridos. Para passar o tempo, alguém pediu para o preso contar uma piada. Após boas risadas por conta da falta de graça da estória, pedimos pra ele cantar uma música. Ele cantou Eu também vou reclamar, do Raul, errando frases e trocando versos.

O resto da viagem foi puro cansaço e silêncio. Eu estava sentado na frente do preso, meio zumbi, sentindo o pescoço ser chicoteado pelos galhos da vegetação da beira da estrada. Na minha diagonal, o soldado dormia profundamente entre um e outro buraco. "Incima daquele ipê tem um nin de arara azu", disse o preso, rompendo o silêncio às duas da madrugada. Ninguém respondeu. Ninguém queria dizer nada. Levantei a cabeça e olhei o ipê. Acima dele, por trás dos galhos, a lua, enorme, derramava a sua luz prateada sobre a copa das árvores. Estávamos percorrendo um trecho bom da estrada. O motorista pisava fundo contra o ar frio que entrava nas nossas roupas. Hipnotizado pelo barulho dos pneus do carro deslizando freneticamente sobre a piçarra, lembrei o personagem do Bruno Ganz galopando um cavalo na beira de uma praia no final do filme Nosferatu, O vampiro da noite. E – numa corrida não menos frenética – sumindo no meio de tudo, sumindo no meio de nada.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

WILSON BUENO (1949-2010)

Felizmente há os que preferem morrer de vodka a morrer de tédio.



coreografia

deitamos os mortos
nas mais distantes colinas
bem longe de casa

para daqui ver o quanto
se equilibram no horizonte

In: Pequeno Tradado de Animais. São Paulo: Iluminuras, 2003.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

ALÉM DA TV OKAZAJO (II)

Nos dias 11, 12 e 13 de junho, a peça Pai e Filho (a partir do livro Carta ao Pai, de Franz Kafka) - com direção de Marcelo Flecha e atuações de Cláudio Marconcine e Jorge Choary - estará em cartaz no Teatro Ferreira Gullar. A entrada é franca (de Francisco Franco Bahamonde, ditador espanhol): só receberá ingresso quem for seguidor do blog da Pequena Companhia de Teatro. Meses atrás, por ocasião do aniversário de Nice Rejane, o Cláudio me disse que não gosta da literatura kafkiana. Por achar o autor theco muito superficial, prefere obras como Vinte mil léguas submarinas e Viagem ao centro da terra. Abaixo, um pequeno bate-papo virtual com o supracitado ator.


Se você é um ator, o que é ser um ator?

sou ator porque tenho reconhecimento, através de um carimbo, da profissão, na minha carteira de trabalho, pelo ministério do trabalho. como se fosse um certificado, saca?! paralelo a isso, estou sempre em processo de representação, isto é, estou sempre atuando. ser ator é estar com o corpo preparado para a representação de alguma coisa, sempre ter algo a dizer com o teatro. defino minha atuação em teatro porque não me vejo em televisão ou cinema (não ainda em se tratando de cinema), pois sei que é um tipo de ator diferente, com preparação diferenciada.


Pra fazer teatro é preciso exercício, transpiração, estudo? Ou basta nascer com o cu virado pra lua?

foi-se o tempo que o cu importava ou a conjunção astral ou planetária. hoje, precisa-se ter técnica. entretanto, há outra questão, pois você pode ter vários atores com uma mesma técnica, mas um tem um bilho, digamos assim, diferente. talvez seja o processo criativo, o tesão, o vigor além da técnica, não sei bem ao certo. não acredito no ator que faz canto, sapateado, circo, balé... acredito naquele ator que determina seu caminhar e está sempre pronto - fisicamente falando.


Como é ser o pai? Como é não ser o filho?

acredito na santíssima trindade, ou no triângulo do desperdício. somos múltiplos, sempre. carregamos conosco referências de nossos pais, mães, filhos dos outros, sobrinhos, televisão, cinema, livros, e teatro. ser o pai é representar a repressão da sociedade sobre nossos ombros, mas sempre dando uma brecha, uma fresta para o ser se rebelar, acho que a sociedade força os incautos e liberta/rebela os marginais. gosto de ser marginal, mesmo uma parte minha querendo ser enquadrada. o pai também tem isso, ele é forjado e ao mesmo tempo forja. não ser o filho é perceber parte do pai nele. há uma necessidade de continuidade, de eternização da espécie. não ser o filho é querer ser um pouco ele no pai.


Você, um adarilho, já conheceu algum mar com Cine?

dizem que sou nômade. incorporo um pouco isso, mas não é proposital, o vento me leva, ainda não tenho relação de pertencimento com algum espaço geográfico, físico. sinto falta disso. encontro mares e cines em quase todas as pessoas que eu conheci. acho que é isso que me aproxima delas.

domingo, 23 de maio de 2010

TERÇA CULTURAL

BACO BACO BACO BACO BACO BACO BACO BACO BACO BACO BACO BACO BACO BACO BACO BAR DO BECO BACO BACO BACO BACO LAMBAU BACO BACO BACO BACO BACO BACO BACO BACO BACO BACO BACO BACO BACO BACO BACO BACO PIRA BACO BACO BACO BMX BACO BACO BACO BACO BACO BACO BACO BACO BACO B BACO BACO BACO BACO BACO 25 DE MAIO BACO BACO BACO BACO BACO CERPA BACO BACO BACO BACO BACO BACO BACO BACO BACO BACO BACO BACO BACO BACO REGINALDO PARENTE BACO BACOBACO BACO BACO BACO BACO BACO BACO BACO 21H BACO BACO BACO BACO BACO BACO BACO BACO BACO BACO BACO BACO BACO BACO

EXPOSIÇÃO FOTOGRÁFICA E VIOLÊNCIA NO CAMPO

Minha amiga Vanusa Babaçu, a "Chegante", realizará na próxima terça, 25 de maio, a partir das 15h, no CESI/UEMA, a exposição fotógráfica Andanças e Olhares. No mesmo dia e local, será relançado o já clássico livro Grilagem: corrupção e violência em terra dos Carajás (de autoria do Pe. Victor Asselim), um importante documento sobre o ápice da repressão estatal e ruralista contra o campesinato na nossa região. Dois eventos imperdíveis. Dois motivos para nos vermos por lá.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

JOTABÊ MEDEIROS E A VIRADA CULTURAL

Que olhar maravilhoso do jornalista Jotabê Medeiros (link do blog ao lado) sobre a "Virada Cultural" de São Paulo.
*
VIRE-SE


[palco de um homem só, por volta das 14 horas de domingo]

Na Virada, temos de encarar o bafo dos nossos bêbados chatos, nossa falta de educação, de modéstia, nosso egoísmo, a falta de cavalheirismo, o oportunismo.

A Virada escancara nossa feiura paulistana, a carência crônica, a fragilidade existencial. O ser humano cronicamente inviável mostra sua cara na Virada, mijando no poste, quebrando garrafas de vodca e espalhando cacos de vidro, jogando caixas de CDs velhos na calçada, empurrando grosseiramente os fãs que tentaram guardar lugar na primeira fila para ganhar no grito o lugar.

Na Virada, somos obrigados a concordar que o casal de idosos dançando juntinho é bacana, é emocionante, mesmo que a música seja Entre Tapas e Beijos, que a gente não gosta.

Na Virada, a gente se emociona com artistas que não têm mais plateia ganhando uma de “presente”, ao menos durante uma hora.

Na Virada, eu vi um mendigo furtando o algodão doce de um velho vendedor que não teve energia para persegui-lo.

Na Virada, os exibicionistas afetivos fazem carícias íntimas e se beijam com um olho aberto, olhando para ver se alguém está vendo, pois não é possível ser lascivo sem testemunhas.

A Virada revela nosso pior lado burguês, quando a gente dá graças a Deus por ter dinheiro suficiente para descansar no restaurante, enquanto o povaréu se espreme na Avenida São João; quando a gente dá graças a Deus pelo crachá que dá acesso à área reservada, sem precisar ser espremido nas grades.

Este ano eu vi um lado interessante na Virada.

Não, não mudei de ideia em relação à relevância artística, continuo achando que a Virada não é o melhor lugar para quem procura pelo novo, pela invenção. Claro, foi bacana rever o Arrigo no Largo do Arouche, os escudeiros de Frank Zappa na Avenida São João. Mas tem muita farofa e pouco peru nesse banquete.

Mas, nesse espelho fosco que é a Virada, consegui finalmente ver pelo menos um lado interessante: é nela que somos obrigados a uma forçosa convivência com o “vizinho” de São Paulo que evitamos cumprimentar o ano todo no elevador ou na saída da garagem. O vizinho motorista pelo qual desenvolvemos ódio mortal no trânsito por conta de uma fechada, ele está ali do lado na Virada, com o filho vestindo a camiseta do Corinthians.

Toda São Paulo está maciçamente representada nessa monstra, do bêbado ao crackeiro, do batedor de carteiras ao policial relapso, da adolescente sonhadora ao travesti bonito. É a noite em que não adianta usar álcool gel para não se contaminar. A cidade renegada está te pedindo uma ponta de cigarro.

LAERTE

segunda-feira, 17 de maio de 2010

TERÇA CULTURAL

BAR DO BECO

Sob os auspícios do mestre Lambau, acontecerá amanhã, 18/05, mais uma edição da Terça Cultural, no Bar do Beco, ao lado do Teatro Ferreira Gullar. Dizem que a ideia do evento nasceu quando o Lambau estava bêbado no Bar no Claudeci. Consta que ele dormia profundamente numas das mesas do referido ambiente, quando, ao pender a cabeça bêbada para o lado esquerdo do corpo, sonhou que reabriria o lendário bar. Sonhado e feito: na manhã seguinte, ao acordar, ele bebeu o resto de cerveja do copo sujo (com uma mosca dentro, ainda esperneando) e rumou para o Ferreirinha. À noite, sóbrio e bem vestido com trajes de Pai de Santo, lá estava ele na portaria recepcionando o público. Em conversa por telefone com este Tia de Calçada, o agitador cultural frisou que a atração desta terça ainda é segredo, mas deixou escapulir que será uma das melhores saladas musicais da última semana.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

CINEMA NO TEATRO

PROGRAMAÇÃO DO MÊS DE MAIO

03/O5 - O GRANDE DITADOR, de Charles Chaplin
Proponente responsável: Antônio Fabrício

10/05 - AS INVASÕES BÁRBARAS, de Dennys Arcand
Proponente responsável: Carlos Leen

17/05 - NÃO MATARÁS, de Krzysztof Kieślowski
Proponente responsável : Anderson Lima

24/05 - O MUNDO IMAGINÁRIO DO DR. PARNASSUS, de Terry Gillian
Proponente responsável : Nice Rejane

31/05 - MOON, de Duncan Jones
Proponente responsável: Gabriel Mendes

O Projeto Cinema no Teatro funciona no Teatro Ferreira Gullar, na Rua Simplício Moreira, centro de Imperatriz, sempre às segundas, sempre às 19h, sempre com entrada gratuita.

P.S.:A partir do mês de maio, a programação do Cinema no Teatro passou a ser definida por seus frequentadores. Cada pessoa, via comunidade no Orkut, pode indicar um filme. Cada indicação deve ser fundamentada através de um texto de até mil caracteres. Se o filme for selecionado, a exibição ficará a cargo do proponente, além do debate após a projeção do filme. Mais detalhes sobre a programação de maio no blog do Cinema no Teatro.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

DEPOIS DAQUELE FILME

pensando em estimadas pessoas que de repente sumiram da minha vida

“Alta noite jazia”, Arnaldo, e enquanto os justos dormiam, nós, guiados por Ginsberg, só pensávamos em percorrer a “madrugada em busca de uma dose violenta de qualquer coisa”. Indiferentes como Fernando –“tantas vezes reles”- e salientes como Piva –“os malandros jogam ioiô na porta Abismo”-, éramos Raskolnikovs sem culpa sussurrando Gullar na orelha da sociedade –“teu nome está inscrito na parte mais úmida dos meus testículos suados”-, urinando sobre os manjares dos deuses, quebrando pactos, desafiando vida e morte –“tanta violência”, Faustino, “mas tanta ternura!”- e ilesos no dia seguinte –“mostrando os dentes, rindo ao sol com insolência” (e haveria outro modo, Vladimir?)-, loucos videntes da felicidade, desconhecíamos que em poucos anos, como membros amputados, irreconhecíveis burocratas, saudosos covardes –“matamos o tempo”, Machado, “o tempo nos enterra”-, diante de um Drummond –“porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan”-, folhearíamos velhas fotografias num álbum da Tietri Color e depois dormiríamos o sono dos justos sobre nossos colchões ortopédicos.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

ROBERTO BOLAÑO

Lupe


Trabalhava na avenida Guerrero, a poucas quadras da casa de Julián/ E tinha 17 anos e havia perdido um filho./ A lembrança a fazia chorar naquele quarto do hotel Trevo,/ espaçoso e escuro, com chuveiro e bidê, o lugar ideal/ para se viver por alguns anos. O lugar ideal para escrever/ um livro de memórias apócrifas ou um ramalhete/ de poemas de terror. Lupe/ era magra e tinha as pernas compridas e manchadas/ como as dos leopardos./ A primeira vez nem sequer tive uma ereção:/ tampouco esperava ter uma ereção. Lupe falou de sua vida / e do que era a felicidade para ela./ Depois de uma semana voltamos a nos ver. Encontrei-a/ numa esquina junto com outras prostitutas adolescentes,/ apoiada no para-lamas de um velho Cadillac./ Acho que ficamos felizes de nos ver. A partir de então/ Lupe começou a me contar coisas de sua vida, às vezes chorando,/ às vezes trepando, quase sempre pelados na cama,/ olhando o céu raso de mãos dadas./ Seu filho nasceu doente e Lupe prometeu à Virgem/ que largaria sua profissão se seu bebê sarasse./ Manteve a promessa por um mês ou dois e logo teve que voltar./ Pouco depois, seu filho morreu e Lupe dizia que a culpa/ era dela por não cumprir o prometido à Virgem./ A virgem levou seu anjinho por sua promessa não cumprida./ Não sabia o que lhe dizer./ Eu gostava de crianças, claro,/ mas ainda faltavam muitos anos para que soubesse/ o que era ter um filho./ Por isso ficava quieto e pensava em como era estranho/ o silêncio daquele hotel./ Ou tinha as paredes muito grossas ou éramos os únicos ocupantes/ ou os demais não abriam a boca nem para gemer./ Era tão fácil lidar com a Lupe e sentir-se homem,/ e sentir-se um infeliz. Era fácil acompanhar seu/ ritmo e era fácil ouví-la se referir/ aos últimos filmes de terror que havia visto/ no cine Bucareli./ Suas pernas de leopardo enlaçavam meus quadris/ E afundava sua cabeça no meu peito procurando os meus mamilos/ ou o latido do meu corãção./ É isso o que eu quero chupar, me disse uma noite./ O que, Lupe? Seu coração.

Tradução: Rodrigo Garcial Lopes.

In: Revista Coyote n. 17. Outono de 2007. Londrina (PR).

sábado, 10 de abril de 2010

O VAZIO

Não lembrarei a data certa - se véspera ou noite de Natal -, nem o teor exato da conversação. Eu estava escovando os dentes quando o telefone tocou em cima da fruteira abandonada no quarto também abandonado - o primeiro compartimento da casa, na verdade um espaço amplo que fora originalmente projetado para ser usado como comércio, Mini Box, essas coisas. Ainda com a escova de dentes na mão e sentindo o gosto menta do Kolynos na boca, eu puxei o fone e sentei ao lado da fruteira, no piso vermelho um pouco empoeirado.

“Alô”.

Do outro lado da linha ninguém respondeu, a não ser o barulho de um cachorro latindo e de uma televisão ligada no Globo Repórter, exatamente o programa que meu irmão assistia na sala, não tão perto para poder ouvir-me ao telefone, nem tão longe que eu não pudesse escutar o Sérgio Chapelin anunciando o conteúdo do programa daquela sexta, algo do tipo Os Mistérios da Vida Submarina no Arquipélago de Fernando de Noronha.

“Alô”, eu disse novamente, enquanto o Chapelin chamava os comerciais, e já ia bater o fone, mas eis que, antes de tocar a musiquinha tema do Globo Repórter, uma língua meio embolada respondeu:

“Oi, alô, tudo bem?”

Uma voz feminina, madura, um pouco descoordenada. E antes que eu respondesse:

“Com quem eu falo?”

“Eu é que pergunto com quem eu falo”, respondi.

A voz disse que chamava-se Magnólia e estava tentando ligar para a casa de uma amiga. Teresa era o nome da tal amiga. Depois completou:

“Acho que tá dando linha cruzada. Mas... como é seu nome mesmo?”

“Ricardo”.

Não, eu não ia dizer meu nome verdadeiro. Podia muito bem ser um trote. Uma amiga de colégio se passando por uma mulher bêbada para me pregar uma peça.

“Então, Ricardo. Não é aí que mora a minha amiga Teresa não, não é? Ou será que é?”

“Não, não é não”.

Me pediu desculpas. Não queria incomodar. Mas é que a Teresa tinha dado aquele número para ela.

“Deve ter dado errado então.”

“Pois é”.

“Então tudo bem, dona Magnólia, vou desliga o telefone.”

“Não, espera aí.”

Ouvi um barulho parecido com um dedo bolinando em cubos de gelo dentro de um copo de wisk.

“Cê tá bebendo?”, perguntei?

“Tô, bebê” - ela disse, enquanto eu imaginava ter ouvido um estalo de língua entre lábios -, “tô bebendo Passport com gelo de água de coco. Quer um pouquinho?”

“Não, minha senhora... Vou desligar.”

“Espera, rapaz, vamos conversar um pouco. Tô sozinha e triste aqui do outro lado da linha. Meus filhos estão viajando pra Salinas e eu fiquei em casa só com o cachorro e o papagaio...”

Depois de uma pausa, ou de um gole de Passport, ela disse que o marido também não estava em casa. Tinha ido pescar tambaqui no açude da Chácara Menina Mar Linda com um grupo de amigos. Segundo a mulher, havia cinco natais que era sempre assim: os filhos viajando, o marido pescando e ela sozinha em casa, bebendo e fumando sob o ar condicionado do quarto do casal. Por isso ligou pro primeiro número que lhe veio à mente. Queria falar com alguém, passar o tempo, espairecer. E principalmente preencher um tal de vazio.

“Que vazio é esse?”, perguntei.

“O vazio existencial, menino da voz bonita. O vazio que maltrata a gente, que impede a gente de viver bem. Mas você não deve saber o que é isso. Você parece jovem. Aliás, quantos anos você tem?”

Eu não menti: quatorze. Ela tossiu do outro lado e disse que era uma idade linda. Uma idade que não tinha vazio nenhum pra preencher.

“Você está na flor da idade, mocinho. Aposto que é um rapaz bonito. Você tá sozinho em casa?”

“Não, tô com meu irmão, mas minha mãe e meu pai tão viajando.”

Escutei um som abafado de campainha. Ela pediu um tempo, uns dois minutos. Depois voltou mastigando. Era uma pizza que havia encomendado. Perguntou se eu aceitava e eu disse que não. Então pôs-se a falar novamente sobre o tal vazio existencial. Os ciúmes do marido, os filhos problemáticos, a mesmice da vida de dona-de-casa, o desejo de largar tudo - família, emprego -, estalar os dedos e desaparecer. Por fim, perguntou se eu não estava disposto a preencher o tal vazio.

“Talvez”, eu disse, e perguntei de que modo poderia fazê-lo.

“É muito fácil. Você vem aqui em casa pra beber comigo. A gente conversa. Você me abraça bem forte, porém devagar. Isso fará com que eu fique bem molenga e me abra totalmente pra você preencher o meu vazio”.

“Mas o que eu boto dentro desse vazio?”

“Tua força, tua energia, tua raiva, bota tudo que você tiver, coração.”

“Tá bom então.”

“Você vem?”

 “Onde cê mora?”

“Na 15 de Novembro, perto da Assembléia de Deus”.

“Tô indo, viu. Me espera aí”.

Bati o telefone. Minha cabeça estava um pouco tonta. Fui até a sala e sentei no sofá olhando pra televisão. Meu irmão não estava mais: tinha saído pra escovar os dentes. Fiquei olhando as letrinhas subindo no encerramento do Globo Repórter. Tive a impressão de que elas saiam da tela e continuavam subindo até o telhado. Do telhado batiam na estante. Da estante batiam no sofá e depois em outros móveis. Algumas resvalavam na minha cabeça e seguiam procurando outras tabelas. Em pouco tempo a sala estava repleta de créditos finais do Globo Repórter. Foi quando o telefone tocou e o meu irmão, voltando da pia com a escova de dentes pendurada na boca, atendeu.

“Alô”, ele disse, ao tempo em que na TV a Lílian Witti Fibe chamava as notícias do Jornal da Globo. “Alô”, disse novamente, e eu, já meio zumbi, sentia agoniado uma sensação de vazio crescendo dentro de mim.