quinta-feira, 4 de novembro de 2010

EL PIBE D'ORO

Lembro como se fosse em 1993 e 1994: primeiro, antes da Copa, um documentário na Manchete o mostrava correndo sozinho na Patagônia, na tentativa de emagrecer, ou antes, atirando com espingarda de pressão em um grupo de jornalistas que o perturbava na porta de casa, ou antes ainda, obeso, cumprindo suspensaõ de dois anos por uso de cocaína e sorrindo da própria desgraça sentado sobre uma balança de frigorífico; depois, já na Copa de 94, magro, cabelo curto, na comemoração do quarto gol contra a Grécia (um golaço dele), correndo para o cinegrafista na lateral do campo, e com a bocarra aberta, cada vez maior, cada vez mais perto da câmera, parecendo dizer ao mundo não o Vocês vão ter que me engolir - como disse Zagalo em 97 - mas algo que, caso ele houvesse realmente dito, soaria mais como Mundo, eu te engolirei!

Maradona foi o Sex Pistols do futebol, ao contrario do Pelé, mais pra Padre Zezinho, com todo respeito ao padre - até porque o rei nunca me enganou com aquele papo de lobo em pele de cordeiro. "Cuidem das criancinhas do nosso Brasil", ele disse chorando após o milésimo gol, quando mais tarde ele próprio faria de tudo para não reconhecer a paternidade de uma filha. Engraçado que os dois comemoram aniversário no mesmo mês de outubro - Pelé fez 70 anos cuidando dos seus negócios e Maradona fez 50 fumando um bom charuto cubano.

Nem entro no mérito de quem foi melhor em campo. Falo de pessoa, gente. E nesse quesito o jeito bandido do Maradona sempre me agradou mais que o bom mocismo do Pelé. Aliás acho que é de jogadores com o temperamento de um Maradona ou de um Serginho Chulapa que tá faltando na Seleção. Gosto de jogador com alguma causa, tipo o Reinaldo ou o Sócrates lendo Furacão Sobre Cuba na concentração de uma Copa América ou os jogadores do Flamengo de 82 entrando em campo, na Argentina, pela Libertadores, segurando uma gigantesca bandeira do país de Carlos Gardel em plena Guerra das Malvinas. Outros tempos. Antes, muito antes da Sandy de Chuteiras, o jeitinho Kaká de ser.

Sábado passado o Sportv homenageou o Pibe D'Oro. Perdi o programa, mas vasculhando a internet, encontrei um documentário chamado Maradona por Kusturica, no Youtube, em dez partes. Muito bom. Um retrato comovente de um grande jogador e de uma grande pessoa - amável e louco, passional como o argentino sempre é. Encontrei também o gol antológico que ele fez no jogo da Agentina contra a Inglaterra na Copa de 86, e melhor, na narração desesperadamente linda do uruguaio Victor Hugo Morales. O gol do século. A narração do século. Um dos momentos mais lindos do futebol mundial. Algo como - caso eu pudesse fazer essa comparação inusitada - um Poema em Linha Reta com final feliz.

4 comentários:

Rômulo disse...

fala luis, quanto tempo cara... porra esse é um golaço do maradona, mas tu tá ligado que foi contra né quem chutou foi o zagueiro hehe.. abração mano, quando tu vai descer aqui em curitiba?

aqui é o rômulo

Luís Diniz disse...

Pô, Rômulo, tempasso heim? Cara quando der certo vou por aí fazer uma visita. É, o gol foi contra mermo, mas a jogada foi tão bonita que ninguém lembra disso... Abração.

Natal Marques disse...

Cara, futebol é futebol. Muita gente não entende o gostar da bola de assistir de torcer. Dieguito foi um gênio, Pelé também ainda mais talvez. O problema é que Pelé é um palhaço sem "envergadura moral" para nada - brinquedo da ditadura. Maradona falou e fez o que quis, marrento. Talvez falte isso mesmo hoje, é como você falou. Jogadores que botem o pé nas divididas e que não pensem nos holofotes como fez o "Cris" Ronaldo penteando o cabelo nos telõs da África do Sul.

Gonzo Sade disse...

Também prefiro o velho hermano e sua autenticidade. O futebol de hoje precisa de "jeitos bandidos", assim. Romário foi o último. Neymar foi um "aspira" sem um pingo de originalidade.
PELÉ É UM PELEGO!