quarta-feira, 26 de agosto de 2009

NA DELEGACIA OU AMARANTE EXISTE

Pé na estrada

Eu e mais quatro marmanjos dentro de uma viatura caindo os pedaços na estrada de Imperatriz para Amarante. São pouco mais de 100 km e pouco menos de 60 quebra-molas. Pontuando o caminho, pequenos povoados, alguns riachos, cruzes tortas celebrando a morte, jumentos ao sol, muita poeira, uma Coca-Cola de quitanda, 150 no velocímetro - até que, pronto, Amarante desponta no horizonte das nossas vidas.


Nós que aqui estamos por vós esperamos

Na delegacia nos aguarda Menezes, o delegado. Na verdade, um investigador de polícia que, por conta do déficit na segurança pública do Estado, acumula também a função de delegado do município. Ele nos apresenta aos outros servidores da DP: um escrivão, um investigador e um carcereiro, todos ad-hoc (funcionários da prefeitura cedidos à delegacia) - outra prova da ausência estatal. Somos nós, portanto, os únicos - e novíssimos - representantes da Polícia Civil naquela cidade.


Então pega

Depois de uma pequena reunião e das frases de praxe - "Estamos aqui pra somar", disse alguém -, três dos novatos saem à procura de casa para alugar enquanto eu e o novo escrivão permanecemos na sala do delegado, conversando sobre a impossibilidade da Gripe A pousar por ali. Um homem baixinho empurra a porta, devagar, timidamente, até se encontrar mais dentro do que fora da sala. O delegado o reconhece. É a vítima de uma tentativa de homicídio. O Dr. Menezes manda o homem sentar e passa a ouvi-lo, inquiri-lo. Quando este termina, o delegado olha pro escrivão e diz pra ele reduzir a termo o que passará a ouvir. O delegado então se levanta e, andando lentamente de um lado para outro da sala, começa a ditar pro novo escrivão o par e passo da tentativa de homicídio relatada pelo homem. O conteúdo do depoimento é mais ou menos o que segue, com exceção dos nomes dos envolvidos, trocados por pseudônimos.

"(...)que no lugar denominado Clube dos Amigos, no dia 27 de Junho de 2009, por volta das 23h, Nô se encontrava na companhia de sua namorada quando avistou o homem identificado pelo nome de Jô; que, nesse momento, Nô dirigiu-se a Jô lhe cobrou R$ 15,00 (quinze reais), referente a um consumo de bebida alcoólica feito pelo acusado no seu estabelecimento comercial, o Bar do Nô; que Jô desconversou dizendo que no momento não tinha dinheiro e que pagaria quando pudesse; que Nô disse a Jô que ele não pagava porque não queria e que ele tinha dinheiro sim, uma vez que estava se divertindo no Clube dos Amigos; que Jô disse então que o dinheiro era dele e ele faria o que bem entendesse com ele; que Nô disse que Jô era um ladrão e um moleque e que talvez este só lhe pagaria mesmo quando Nô pegasse o step da sua cominhonete como garantia; que Jô disse “então pega” e afastou-se um seis metros, momento em que sacou um revólver e efetuou um disparo contra Jô; que Jô, ao perceber que seria atingido, tentou correr mas não conseguiu; que a partir daí só se lembra que foi atingindo na bochecha direita, perdeu as forças das pernas e caiu frontalmente e desmaiou; e que acordou 4 horas mais tarde, depois de submetido à cirurgia, na enfermaria do Hospital Municipal."


Maria, Maria

Conversando com Neto, o novo escrivão, nativo de Barão do Grajaú, a caminho do restaurante da Rosa. No visor do celular faltam doze minutos para as oito horas da noite. Dou um puxão na cueca que tá apertando o meu testículo direito e procuro me inteirar sobre a situação carcerária da DP.

Tem quantos presos aí na delegacia?

Rapaz, uns vinte e três.

Tem homicida?

Uns três. [Pausa] O resto é Maria da Penha. [Nova pausa] Aqui o povo bate em mulher é com gosto.


Só a vítima mesmo

Jantamos frango frito e assado de panela na Rosa. O delegado aparece quando estamos palitando os dentes. Ele ainda tá de paletó, o cabo da pistola espremido entre a virilha e a barriga. Descontraídos, falamos bobagens, piadas. Lembro de um caso engraçado que de fato aconteceu. Em Minas, se não me engano. É a história do policial militar que prende um estuprador em flagrante e o conduz até a DP, para apresentá-lo à autoridade policial. Após ouvir o estuprador, o delegado se vira pro militar e perguntar: "Soldado, as testemunhas foram arroladas?" E o PM responde: "Não, dotô, só a vítima mesmo".


Tênis de muriçoca

Após beber cerveja quente a R$ 3,75, vamos todos dormir na delegacia, espremidos num cubículo próximo à carceragem. Muita muriçoca. Mesmo assim adormeço, grogue, escutanto um breguinha que toca no radinho dos presos. Acordo às seis da manhã, com o barulho do carcereiro matando muriçoca com uma raquete de tênis elétrica. O barulho das muriçocas mortas pelas raquetadas do carcereiro era tão alto, e eram tantas delas estourando no ar, mas tantas, que cheguei a pensar - enquanto atravessava a membrana do sono pra realidade - que se tratava de um tiroteio.

Rosa desabrochada

Pego um taxi clandestino na volta para Imperatriz. R$ 15 a passagem, o mesmo preço da Nova Sião, mas com direito a uma hora a menos de viagem. Durante o percurso, lembro de um fato que de certa forma me liga a Amarante. Há alguns anos, durante um assalto a banco naquela cidade, um PM morreu com um tiro de fuzil. Um tiro na cabeça disparado por um dos assaltantes, de estrago similar ao que matou Jonh Kennedy. Alguém fotografou a cena com um celular. Meses depois, de bluetooth em bluetooth, a fotografia acabou aparecendo no Nokia de um amigo meu, quando a vi. No ano passado, durante o Curso de Formação em São Luís, no prédio da DEIC, na Beira Mar, revi a foto do PM morto. Morreu sentado no banco da viatura, no centro de Amarante, sua cabeça praticamente virada ao avesso pelo poder do disparo. Não sei bem o porquê, mas depois, rememorando aquela imagem e tentando imaginar o dia daquele homem antes de se encontrar com a morte, me bateu uma vontade enorme de escrever um texto sobre o acontecido. Algo que misturasse ficção e realidade ou, mais ainda, um mix de conto e ensaio, nos moldes de alguns escritos do Sérgio Sant’Anna. Rabisquei algumas coisas, mas tudo me pareceu forçado, indigno. Por fim, apelei pra poesia. O poema também não saiu. Pelo menos não saiu completo. Somente os três últimos versos do que seria a mala suerte daquele homem -do acordar em casa até o morrer dentro da viatura - me convenceram de alguma coisa. Só o fim da história, a terrível imagem eternizada pela lente do celular. Sem início nem meio.

"Sendo sua farda um caule
E a cabeça uma rosa desabrochada
O policial jazia como uma flor fardada"

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

ALLEN


"Alguém me perguntou uma vez se eu sonhava em viver no coração das pessoas e eu disse que preferia viver no meu apartamento".

Woody Allen, nas páginas da Rolling Stone desse mês.

sábado, 8 de agosto de 2009

ESTILHAÇOS

I

“Coisa perdida é qualquer coisa que sabemos de sua existência mas não sabemos onde se encontra. É algo desaparecido. Por desaparecido consideramos aquilo que deixou de ser visto, que ocultou-se ou foi ocultado. É, em outras palavras – antípodas palavras - , o que antes ‘era’ ou ‘estava’, mas agora não ‘é’ nem ‘está’, embora, em algum lugar não sabido, continue ‘sendo’ ou ‘estando’, que é o mesmo que existir. Mas, o que é ‘existir’?”1


II

“[Aplausos] Boa noite. Gostaria de iniciar minha fala agradecendo o convite que me foi feito pela ilustríssima Universidade Imperatrizense de Ciências Agravantes para debater um tema tão caro em nossos dias, que é a questão da Insegurança Crônica Causada por Balaços Perdidos. Isso porque, como todos sabem, a nossa sociedade sofre o ataque desse câncer altamente destrutivo. Se fossemos um corpo, seríamos o de um doente em estado terminal. [Pausa para beber água] Mas, como ia dizendo, é impossível não reconhecer que as sementes do ódio proliferam nas diversas partes da cidade. Todos os dias dezenas de vidas são ceifadas por balas perdidas. Estamos vivendo, por assim dizer, um abominável período de barbárie urbana. [Nova pausa, agora para enxugar a testa] Entretanto, exageramos ao tentar dimensionar os contornos desse fenômeno. Na verdade, superestimamo-lo, vítimas que somos de um medo cada vez mais latente. Mas, garanto-lhes, não há motivo para tanto frenesi. Forçoso é examinar os fatos com a luz da razão. Afinal, como podemos temer tanto as balas perdidas se elas, na verdade, não existem? Se são inexoralvemente fabricadas por nós, e não por si próprias? [Alguém ri, baixinho, no fundo do auditório] Falo sério, senhores, não falo anedotas. Não há motivo para pilhérias. Sim [Ergue a mão, o dedo indicador em riste], balas perdidas não existem. Ora, se são perdidas, são inexistentes, e se não existem, como podem fazer mal a alguém? O que existem, de fato, são balas encontradas – pois o que é efetivamente perdido não se acha. E encontradas por quem? Por seres à toa, como essa jovem que, em vez de estar descansando no refúgio do seu lar, transitava arbitrariamente na selva da madrugada, pelos becos e ruelas de um bairro perigoso como o da Caema. E o que queria ela, às três da madrugada, caminhando em ambiente tão hostil? Queria encontrar Papai Noel? Queria encontrar Jesus Cristo? Não, senhores, o que essa garota queria encontrar, como encontrou, era um balaço na testa. A culpa de sua morte, portanto, é totalmente dela. [Ao mesmo tempo que alguém gritabravo, bravíssimo!’, alguém dizidiota, maluco, imbecil!’] Sim! Dela, que encontrou a bala, e não da bala, que foi brutal e inopinadamente encontrada e acabou perdendo a sua identidade, pois passou, em questão de centésimos, da condição de bala perdida para bala encontrada. É ela, senhores, a bala perdida, senhores, a grande vítima dessa história [Ouvem-se vaias, aplausos, e, antes do palestrante agradecer a presença de todos, as luzes se apagam e um disparo de arma de fogo ecoa no auditório].”2


III

“Morreu no último dia 10, vítima de disparo de arma de fogo, a jovem J.F.C., 16, residente à rua Rio Grande do Norte, s/n, Centro. O triste episódio ocorreu por volta das 3h da madrugada, nas imediações do Bairro da Caema, periferia de Imperatriz. Segundo o perito criminal Málio Amolin, presente no local, o projétil varou-lhe horizontalmente o crânio, causando morte instantânea. Ainda não se sabe o motivo do sinistro. Devido ao constante tiroteio entre os traficantes daquele bairro, a polícia trabalha com a hipótese de uma bala perdida como causa mortis, pois a motoneta que a adolescente pilotava amanheceu junto a seu corpo, intacta. Populares afirmam que a garota costumava perambular sozinha pelas ruelas do Bairro da Caema. Nessa época do ano, conforme apontamentos da Ong Maconha Nunca Mais, é comum jovens de classe média procurarem drogas na periferia da cidade. Segundo fontes extra-oficiais, foi encontrado um poema de temática lúgubre no bolso da calça que J.F.C. usava. Até o fechamento desta edição, entretanto, a polícia não havia confirmado ou divulgado o conteúdo do suposto poema. O sepultamento da jovem será hoje, no Cemitério Campo da Saudade, às 17 h.”3


IV

SABOROSO DROPE PRATEADO

a bala é disparada
e em disparada
rasga o tempo o espaço
o extenso-curto percurso
que a separa de meu corpo.

una, solitária, perdida.

mortífera bala sabor hortelã
a derreter-se sobre minha língua”4


NOTAS AOS ESTILHAÇOS

1.FRANCIS, Adiabético (Org.). Divagações Acerca do Nada. Imperatriz: Antiética Editora, 2018.
2.Discurso proferido pelo vereador e escritor Geremilson Santes, no dia 14/08/2018, no auditório central da IUICA, no encerramento do seminário sobre Insegurança Crônica Ocasionada por Balaços Perdidos.
3.JORNAL O REGRESSO. Mais uma Vítima de Bala Berdida na Madrugada. 12/07/2018.
4.Poema encontrado no bolso da calça da jovem J.F.C., vítima de bala perdida, no dia 10/07/2018, conforme amplamente noticiado pela imprensa imperatrizense.