sábado, 18 de fevereiro de 2012

LIBERDADE PARA MATAR

por Helen Lopes de Sousa, via Ívila Cordeiro
 
Foi o ensaísta alemão Hans Magnus Enzensberger, quem forjou o termo “guerra civil molecular”, cujo propósito consiste em apontar o atual estado de violência desenfreada e sem controle que se espraiou pelo mundo afora. Tal estado de violência manifesta por todas as partes, em qualquer lugar e sem nenhum pretexto. O estado de brutalidade em que chafurdamos pode ser desencadeado por bandos, gangues ou simplesmente por um indivíduo qualquer. Ele é resultante de uma ação desmedida ou de uma intenção previamente pensada. Como diz o autor: “o homem é o único primata que planeja o extermínio dentro de sua própria espécie e o executa entusiasticamente e em grandes dimensões”.
 
O motivo para tal violência é o que menos importa, muitas vezes é resultante de coisas banais ou puro capricho para ferir ou matar. Seja como for, atualmente assistimos bestificados ao alastramento dos rastros de destruição, medo, morte e terror. O dia-a-dia das cidades, grandes e pequenas, vão se engendrando a esta nova forma de desencadear a guerra. Trata-se de uma guerra sem limites e sem exércitos. Diante deste quadro os Estados pouco ou nada têm conseguido fazer. Sobretudo no Brasil, um país rico em preconceito, sustentado pela hipocrisia, pelo falso-moralismo e pela corrupção desenfreada. As ações das autoridades dão o tom da truculência, da intolerância e da impunidade que impera a pretexto do desenvolvimento econômico. Nossas instituições estão cada vez mais carcomidas e têm contribuído enormemente para a expansão das mais variadas formas de crime: “não mudamos de país/ Mas mudamos de Estado/ Estado de violência/ Estado de pobreza/ Estado de hipocrisia/ E de demagogia.
 
Aos poucos a brutalidade do cotidiano foi nos encurralando. O medo e a insegurança se caracterizam como a nova ordem nesta razão sangrenta. Basta um passo em falso neste campo minado para tudo voar pelos ares. O que antes parecia notícias distantes, amplamente divulgadas pelos meios de comunicação, privilégio dos grandes centros urbanos, torna-se cada vez mais presentes em nossas vidas. Em cada esquina, entre amigos ou conhecidos, testemunhamos os horrores narrados por alguém, até o dia em que somos apanhados de supetão, atingidos em cheio. Não faz tanto tempo fiquei assustado com a notícia de que um segurança da Universidade (UFT-Tocantinópolis) fora brutalmente espancado a pauladas dentro do campus em pleno horário de trabalho. Os assassinos foram julgados e inocentados.  Espancamento este que resultou na morte do mesmo. Pouco tempo depois, a cidade foi despertada pela notícia de que uma jovem mãe de família fora estrangulada no centro da cidade e em plena luz do dia.
     
Diante deste quadro de horror, eis que chega o dia em que você é obrigado a olhar nos olhos da morte. No último dia 05 de janeiro me deparei diante da mais brutal e desprezível situação. Encontrava-me no interior do Maranhão, quando por volta das 06:00hs da manhã, fui acordado com estrondosas batidas na porta do quarto do hotel em que estava hospedado. Ao abrir a porta e deparar-me com dois amigos, tive a certeza que aquele barulho era do mundo despencando sobre minha cabeça. Fui golpeado na alma com a notícia que meu companheiro de 20 anos, Cleides Antonio Amorim, antropólogo, professor da Universidade Federal do Tocantins, fora assassinado com uma facada. Motivo? Intolerantes ofensas, desrespeito! Pura ignorância!
 
Por volta das 20:00hs do dia 04, ele havia saído de casa para buscar um amigo numa vizinha cidade (Aquiarnópolis). No caminho de volta, resolveram beber umas cervejas em um bar da cidade de Tocantinópolis.  Saíram deste para outro, onde Cleides pretendia comprar cigarros e, lá chegando, resolveram tomar mais uma cerveja antes de ir para casa. Eis que chega o emissário da morte. Sentados em mesas opostas, Cleides mais dois amigos, conversavam alegremente, como era de costume. Foi quando ao soltar uma alegre e deliciosa gargalhada, marca registrada da sua alegria contagiante foi insultado pelo criminoso: “nesta mesa só tem veados”. Arrogante e homofóbico, não se dando por satisfeito, o marginal deu prosseguimento aos insultos e ofensas: “vocês gostam mesmo é de dá o C...” Diante de tamanho desrespeito, Cleides e amigos partiram para cima do agressor e o imobilizaram. Após ser dominado, o covarde pediu pelo amor de Deus para que eles o soltassem, pois iria apenas pegar sua moto e ir embora. A menos de um metro do assassino, todos esperavam que o mesmo seguisse seu caminho. Ao ser solto, o covarde teve a opção de tomar seu rumo.  Intencionalmente ele retirou uma faca que se encontrava debaixo do banco da moto e friamente desferiu o golpe fatal que ceifou a vida de Cleides. O golpe desferido demonstra a intenção de quem sabia o que estava fazendo, ou seja, matando alguém. A faca penetrou no lado esquerdo, atingindo o coração.
 
Na avalanche de absurdo em que estamos atolados, o medo, a insegurança vão se impondo como a ordem do dia. Não importa se é dia ou noite, se o lugar é público ou privado, sempre haverá alguém mal intencionado que se acha no direito de constranger, insultar, desrespeitar, fazer o que bem lhe aprouver e resolver tudo tirando a vida de alguém. Trata-se do crime servindo como forma de imposição de sua vontade. Para o criminoso, a arma serve como instrumento necessário nas relações sociais. O covarde que assassinou Cleides compartilha dessa convicção. Ou seja, a de ser infrator, criar situações de conflito e resolvê-las com a eliminação do seu oponente. No caos vigente em que chafurda a segurança pública do país, este é mais um dos milhares de casos atrozes, em que um facínora qualquer se torna um agente da guerra, um emissário da morte. Este texto pode parecer fruto da indignação de alguém que foi duplamente ferido por um só golpe fatal. No entanto, esta é uma pergunta que a justiça do Estado do Tocantins terá que responder imediatamente: até quando este assassino ficará solto pelas ruas colocando em risco a vida de outras pessoas? Quem será próxima vítima da sua arrogância e intolerância?  O assassino, que já cumpria pena alternativa por ameaçar alguém de morte, desta vez consolidou seu desejo de matar. Portanto, cabe ao Estado, à Justiça e aos homens que fazem a lei responder estas perguntas, caso contrário, corre-se o risco da sociedade imaginar que seremos impulsionados a acreditar no mito primevo de Hobbes da luta de todos contra todos.   

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

SOUL SAMBA

Baixo, magro, gordo – a alma do samba tem diversos pesos e medidas na noite que engatinha nos botecos da vila, nos botecos da vida, no Boteco do Frei. É no afinar do violão que as pessoas chegam, salientes e sibilantes, e com suas cuícas imaginárias, entram sorrateiras, pisando na ponta dos pés como o malandro buarqueano. Sem demora os primeiros batuques do batera fazem as cinturas gingarem automaticamente, ao passo que de mesa em mesa o abridor de cerveja dos garçons vai caindo de boca, afoito, nos gargalos das garrafas. Deste estranho boquete papocam pequenos chiados, que com o tempo, dadas as repetições, são incorporados pela melodia dos sambas dos bambas. Já pela metade da noite alguns olhos se procuram, mãos se apertam, braços se roçam e se eriçam no contato excitante das gentes. O rapaz sai do banheiro, vai lavar as mãos mas a pia está ocupada por uma mina. Ele então espera batendo o pé no compasso do samba enquanto a desconhecida de cabelo encaracolado arruma a maquiagem. Ela olha mais profundamente dentro do espelho e o vê atrás de si. Os dois se admiram pela tela dessa invenção maravilhosa da humanidade. Depois, apresentados por amigos em comum, se conhecem – “oi”, “tudo bem”, “o prazer é meu” – e seguem conversando encostados no balcão. Por essa hora o vocalista da banda já percebeu que pode dar rock aquele samba. O rapaz aproveita o ponto alto da execução de alguma música do Jorge Bem Jor e fala algo sacana pertinho da orelha da menina, os seus lábios quase a tocando naquela parte que ela gosta tanto. Num cartaz fixado na parede o cantor Belchior pisca o olho pro baixista sério, arrancando-lhe, enfim, o primeiro sorriso da noite. No finzinho do show, sambinhas mais agoniados revigoram o combustível dos brincantes. O casal de desconhecidos vai embora um pouco antes da última música. Estão loucos pra dançarem embalados pelos passos deliciosos da carne, do sexo, do orgasmo. Mas começam pelas línguas, porque línguas também sambam.

Mira, aqui, todas as imagens do ensaio fotógrafico do site Imperatriz Fotos, que inspirou este pequeno texto.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

MELANCHOLIA - LARS VON TRIER

 Três da manhã. Madrugada atípica, frio atípico. Às seis busco o chuveiro do quintal depois de assistir ao filme Melancholia. A água sempre quente do Conj. Vitória cai sobre a minha cabeça e faz o meu corpo fumaçar. No céu nenhum astro, nenhum pássaro. Apenas pequenos estratos de nuvens singram a tímida aurora, o que indica, segundo as mitologias sertanejas, que hoje morreu ou morrerá alguém que eu conheço. Terá sobrevivido a velha cachorra que fora atacada, antes de ontem, pelo pitbull do vizinho? Na casa ao lado, o feroz cachorro late e corre freneticamente arrastando a sua corrente pelo piso cimentado. Por um momento, eu penso na possibilidade dele pular o muro que separa as nossas vidas. Desligo o chuveiro para me ensaboar. A morte é uma torneira que seca ou um cano que estoura? Religo o chuveiro para escoar o Palmolive. Lembro do final do filme e meus pelos se eriçam. Vou pedir pra minha mãe fazer café com bolo frito. Depois, me perfumarei para comprar uma camisa nova.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

O REPUGNANTE CHIQUINHO ESCÓRCIO NA REVISTA PIAUI

Nem sou muito fã da revista piauí (na verdade, dificilmente a compro), mas a edição de janeiro de 2012 está no mínimo boa. Na matéria “Peixe no Aquário”, sobre os famosos “Jogos da Solidariedade” estrelados por Romário e Cia, o deputado Chiquinho Escórcio – idealizador dos tais jogos – aparece fuçando a sua lama política logo nos primeiros parágrafos:

"Um ônibus com 24 deputados federais e um senador deixou o hotel Holiday Inn, em Porto Alegre, às 10 horas de uma manhã de novembro e pegou a estrada para Canoas, nas imediações da capital gaúcha. O ônibus teve de fazer uma volta e passar primeiro pelo aeroporto para buscar um 25º parlamentar. O deputado federal Romário de Souza Faria não pôde chegar na véspera como os outros porque era a festa de aniversário de Rafinha, o quarto dos seus seis filhos, e a mãe do menino, da qual é separado, insistiu que ele comparecesse, apesar de o menino fazer anos só em fevereiro.

Romário cumprimentou seus colegas sem entusiasmo e logo se acomodou sozinho no fundo do ônibus. Fechou a cortina, pôs os óculos escuros e não largou o celular. Só tirou os olhos do aparelho quando o grupo começou a zombar de Francisco Escórcio, deputado federal pelo Maranhão, mais conhecido como Chiquinho, que discursava, de pé, perto do motorista. Um deles perguntou: “Seu Francisco, me diga uma coisa, esse seu traje é da Escolinha do Professor Raimundo, é?” Todos caíram na gargalhada, Chiquinho inclusive. Romário deu o primeiro sorriso do dia, levantou-se e puxou o coro: “Oida, oida, oida, Chiquinho hemorroida.”

“Olha a molecagem!”, disse o maranhense de volta. “Você mal chegou e já quer sentar na janela? Tem muita gente com calo na mão de tanto bater palmas para mim.” O ônibus parecia levar uma excursão escolar. O deputado Renan Filho sacou da mochila uma chuteira cor-de-rosa, um acessório da Barbie tamanho gigante, e de pronto foi chamado de maricas. Ele respondeu: “Foi o Jean Wyllys quem me deu. O Bolsonaro achou que é de viado.”

Ex-senador, ex-assessor especial de Renan Calheiros, Chiquinho foi demitido sob suspeita de espionar a oposição, é aliado histórico de Sarney e descobriu há pouco o apelo popular da pelada dos deputados, que ocorre às terças-feiras depois da sessão na Câmara. “Vi que podíamos tirar benefício político do cartaz de Romário, Popó e Tiririca”, contou.

Dito e feito: os Jogos da Solidariedade, que ele idealizou, são um sucesso. Neles, deputados federais e estaduais se enfrentam em partidas pelo Brasil afora e o dinheiro arrecadado é doado para instituições beneficentes. Agora, boa parte dos deputados quer levar o time para seus currais eleitorais. Já há mais de vinte solicitações de jogos. “Vamos ter que passar a sortear os lugares”, disse Chiquinho, que vislumbra uma carreira internacional para o time.

Daquela vez, os parlamentares jogaram em Canoas e em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul. O anfitrião Marco Maia, presidente da Câmara, participou dos primeiros dez minutos de cada jogo. Apesar das ameaças (“Se não tocar a bola para o presidente, ele te tira da comissão! Tem que tocar pro presidente!”), ele estava fora de forma, simulou uma contusão e saiu de campo sem marcar gol.

Romário, o ex-pugilista Acelino “Popó” Freitas e os ex-jogadores Deley e Danrlei garantiram o público dos jogos. A partida seguinte, a convite do ministro Edison Lobão, de Minas e Energia, foi dali a duas semanas, em Imperatriz, no Maranhão. O ministro entregou o troféu aos vencedores."

Para ler a matéria completa, assinada por Clara Becker, clique aqui.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

PIQUENIQUE

Eles chegaram na hora marcada para o piquenique. Devagar, os três homens e as três mulheres escolheram o gramado abaixo da frondosa árvore e lá estenderam as suas toalhas de cores discretas. Estavam na beira do rio - um belo rio num fim de tarde. Dali a poucos minutos o dia começaria a acabar: sinal de que o horizonte ficaria um pouco amarelado e uma brisa saliente sopraria os cabelos das crianças que brincavam no parquinho infantil.

Depois de tudo bem disposto, cada coisa em seu lugar, eles se sentaram e começaram a esvaziar as cestas. Utilizando suas mãos pequeninas e delicadas, uma das mulheres acomodou uma cabeça de porco sobre as toalhas. Uma cabeça putrefata, cheia de vermes. "Uma cabeça de porco realmente horrenda", ela disse. "Horrenda certamente, porém aparenta estar deliciosa", comentou um dos homens, enquanto retirava da sua cesta um sacola repleta de peixes. Peixes podres e fedorentos. Vera, a viúva, depositou uma vasilha com alguns furúnculos sobre a toalha e perguntou ao Ari:

“O que você trouxe, Limpa Fossa? Não decepcione nosso paladar.”

“Trouxe cabecinhas de frango que recolhi na Apil. Sei que não é muita coisa, mas garanto a péssima qualidade da granja.”

“Eu ia trazer aquela perna amputada que prometi”, retorquiu Alfredo, ajeitando o seu guardanapo, “mas o zelador do hospital que iria desvia-la para mim, infelizmente está gosando férias trabalhistas. Mas do mês que vem não passa. Garanto.”

“Falando em Hospital”, interrompeu o office-boy, “lembrei do IML. Tenho um contato lá dentro que cobra baratinho pra descolar um presunto pra gente.”

“Um presunto? Nossa, faz um bom tempo que a gente não deglute uma vítima de acidente automobilístico ou um suicida de prédio de quinze andares.”

“Vai um pulmalzinho de fumante aí, gente?”, perguntou Lúcia, a professora, após desembrulhar o órgão do sistema respiratório. “Ainda tá fresquinho e bem esponjoso.”

O piquenique transcorreu tranquilo. As cabecinhas de frango foram aos poucos sendo trituradas pelos dentes afiados dos comensais. Alfredo preparava pequenas fatias de pulmão com furúnculo e as distribuía aos outros. Lúcia de imediato batizou a invenção de Alfredo de “Plus Pus Enfisema”. A cabeça de porco, mais cobiçada, foi disputada pedaço por pedaço.

“Essa cabeça está divina”, disse Cléia.

“Os olhinhos estão deliciosos.”

“Me passa um pedaço do focinho, Limpa Fossa, por favor.”

“Aliás, Ari, por que o apelido 'Limpa Fossa'?”

Ainda com fatias de pulmão cancerígeno fora da boca, Ari respondeu:

“É da época que eu trabalhava como zelador de banheiros públicos. Eu quebrava as descargas para as fezes não descerem. Então elas iam acumulando nos vasos, formando montanhas de tolete de cheiro maravilhoso. No final do dia, eu entrava no banheiro com meu material de limpeza (que não era vassoura nem sabão, lógico; era a língua!) e limpava tudo, quer dizer, comia tudo. Posso garantir que provei todo tipo de bosta!”

Todos riram da história do Ari. Ele, todo contente, ofereceu seus dedos diabéticos para serem chupados por Vera. Estavam cheios de feridas e repletos de pequenos mosquitos sugando o pus das erupções.

A viúva chupo-os todos com voracidade.

“Sabem aquele cara que foi achado morto numa chácara um dia desses?”, perguntou o jovem aspirante a escritor. “Um que levou um tiro no meio na cara e que depois foi esquartejado. Aquele que a polícia prendeu os assassinos ainda sujos de sangue na Pousada Embiral”.

“Um que a polícia ainda não achou o corpo?”, perguntou Ari.

“Sim, esse mesmo.”

“Quê que tem?”, perguntou a Viúva, ainda lambedo os dedos diabéticos do Limpa Fossa.

“Então. Eu vi a desova dele. Vi quando uns caras chegaram com os pedaços do corpo num fusca. Tem uns três dias isso. Foi quando eu procurava carniças de bois na beira da Estrada do Arroz. O carro dos caras passou por mim e depois parou a cerca de uns trezentos metros de onde eu estava. Acho que eles não me viram, pois saíram com os pedaços do corpo e uma enxada para enterra-los. Demoraram um tempão pra dentro do mato, cavando e rindo, e depois foram embora como se nada tivesse acontecido. Eu vi tudo detrás duma moita. Eu sei onde ele foi enterrado!”

“Jura, menino?”

“Juro por esses teus olhos que eu hei de comer!”

“Mas o presunto ainda tá lá ou tua já caiu de boca nele?”

“Ainda está lá. Embora não acreditem, não sou tão egoísta assim. Decidi dividi-lo com vocês. É o nosso próximo piquenique! Só faço uma exigência: a cabeça. A cabeça é minha.” 

“Hum, ela deve está bem decomposta!”

“Nem me fale. Adoro cabeças assim. Cabeças bem podres. Cabeças cheias de vermes.”

“Tal qual esta do porco, suponho, afirmou Vera, a viúva.”

“Sim, se bem que prefiro as humanas. Órbitas oculares cheias de vermes me lembram uns versos de um poeta que admiro."

Ele então levantou-se, e com os lábios ainda escorrendo o pus dos furúnculos deglutidos, declamou enquanto era envolto pelo negrume avassalador do crepúsculo:

“Já o verme — este operário das ruínas —
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há-de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!”

“Bravo, Amadeo!”, disseram todos, aplaudindo a declamação eloquente do aspirante a escritor e recolhendo as toalhas e as cestas.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

SOBRE QUADRINHOS DE BUZZATI E CARTEIROS MORDIDOS

Na UEMA eu estudei com um carteiro. Um dia ele chegou pra assistir aula com uma mordida na bunda. Ele era um magrinho de bundinha pequenininha e mesmo assim um cachorro o perseguiu e o derrubou e o mordeu. Na bunda. Na bundinha pequenininha dele. Ele esparramado no chão com dezenas de missivas, boletos bancários e cobranças do SPC/SERASA.

Eu lembrei do meu amigo carteiro porque há pouco o meu sobrinho bateu na pota do meu quarto. "Quié?", perguntei acordando do meu sono intranquilo. "Incumenda do correi!". Quando eu tava desembrulhando o meu Poema em Quadrinhos, encostado no peitoril da janela (Constatação 1: Mutarelli saiu dos quadrinhos para a prosa, ao passo que Buzzati saiu da prosa para os quadrinhos. Contatação 2: As edições da CosacNaif são lindas, mas é muito feio que no Brasil os livros em geral ainda sejam um objeto quase voador não identificado.), o carteiro ainda tava na porta de casa, abduzido pelas conversas do meu irmão mais velho, que fala mais do que lavadeiras de roupa em brejo.

P.S.1: Os carteiros são sagrados.
P.S.2: "O inferno são os cães!" (frase proferida por Manuel, meu amigo carteiro).
P.S.3: Mário amava os carteiros, mas os carteiros detestavam o de Andrade.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

TRINCHEIRA

Entrincheirado dentro de casa sem água e sem energia
empurro os sofás e o armário e o corpo da menina contra a porta
Chutes tentam arrombá-la, mãos delizam pelas folhas das janelas
O pânico me faz recarregar as armas já carregadas
Sei que equipes da swat rondam pelo lado de fora
Ouço o megafone da xerife exigindo minha rendição incondicional
e atiro a esmo até descarregar minha pistola - tec! tec! tec!
De fora respondem com rajadas de metralhadora
Chutes de coturno forçam a porta, aviões cruzam o céu cor de chumbo
Olhando pelo buraco da janela, recarrego meu rifle enquanto
dezenas de pitt bulls pousam de paraquedas nos meus sonhos