terça-feira, 9 de novembro de 2010

AO CABO LIMA NETO COM CARINHO


Éramos bonitos e não sabíamos naquela tarde do dia 25 do mês de dezembro do ano de 2004 do nosso Senhor Jesus Cristo. Não que hoje, seis anos depois, sejamos mocreias intragáveis, carne de segunda cheia de varejeiras pendurada no açougue à espera do consumidor menos capitalizado. Mas vendo-nos assim, esbeltos porém fortes, é impossível não dizer que se naquela tarde estivéssemos vadiando pelas areias de Copacabana - "dragão tatuado no braço / calção corpo aberto no espaço" - passaríamos facilmente por lindos Meninos do Rio. Nem que fossem do Rio Tocantins.

Comemorávamos, desde o meio dia, o aniversário do Geraldo, o velho mais sem vergonha que já apareceu na face da Terra desde a construção da Arca de Noé. Bistequinha boa assando no canto esquerdo da sacada e tampas de Skol e anéis de latinhas de Brahma caindo divinamente em slow motion ao nossos pés; a farofinha e o vinagrete deliciosos preparados pela Dona Gonzaga e pela menina Jordana - nem preciso dizer que respectivamente mãe e filha do aniversariante. Tarde amena, recém agoada, com o vento gostoso e saliente bolinando nossos corpos e assanhando as madeixas do Renan e do Carlin, os hoje dois ex-cabeludos da fotografia - a qual, notem, nem era da era digital ainda.

"Não vou tomar café / nem escovar os dentes", deve ter cantado o Geraldo, acompanhado pelo Alain - que na época até tinha cara de Delon - enquanto eu e Jonhy, apoiados no parapeito, disputávamos o nosso Campeonato de Cuspe ao Alvo na Calçada, tendo como parâmetro de pontaria o desvio que o vento dava à massa de saliva durante a queda. Dona Gonzaga bebericava um pouco de vodka ou caipirinha, ou talvez um pouco de cada, provocando estupefação no Augusto, colega de trabalho do Geraldo, ao que ela retrucava afirmando que gostava de tomar um pouquinho para dormir. Dormir com o tontinho da cachaça. Dona Gonzaga morreu faz uns três anos, com idade bem superior à média de expectativa de vida do brasileiro. Grande Dona Gonzaga!

À noite, já tarde, apareceu o Alcindo, que todos os anos faz aniversário um dia depois do aniversário do Geraldo. Se eu acreditasse nesse negócio de bad vibrations, olho gordo, praga de Exu Caveira, afirmaria categoricamente que o Alcindo trouxe a reboque - como um mal olhado - o Cabo Lima Neto. Sim, Alcindo, porque pouco depois da sua chegada, o Cabo Lima Neto apareceu embaixo da sacada, no meio-fio, bêbado, louco, gritando, botando fogo pelas fuças, e no momento em que nós, curiosos, fomos ao parapeito para ver o que estava acontecendo, ele apontou o cano de um 38 na nossa direção e disse: "Desce! Desce, cambada de vagabundo, pra levar chumbo na cara!"

Alguém desceu? Que eu me lembre, não. E juro até hoje que vi a Dona Gonzaga dando uma cambalhota que a levou, célere, até a sala de estar. O resto foi um amontoado de pernas e braços tentando passar ao mesmo tempo por uma porta que dava acesso a outro local protegido. Os gritos do Cabo Lima Neto repercutiram mais um pouco na madrugada, até a chegada de uma segunda pessoa, que o convenceu a entregar-lhe a arma e acompanhá-la para casa, ordeiro, chorando, sem falar coisa com coisa. Era um amigo do Cabo, que o vinha seguindo desde uma lanchonete, onde, disse, o Lima Neto já havia comido três X-Tudo, quebrado mesas e deixado um rastro assustador de ketchup pelo chão.

Não deu outra depois do incidente. Só Cabo Lima Neto na veia. Louco, marido traído, esquizofrênico, revolucionário, desertor - viajávamos, potencializados pelo álcool, na busca de uma definição para o homem e a obra limanetianos. Nunca mais o vimos, Cabo. Infelizmente. Mas há uns três meses, vindo de Amarante para Imperatriz, e dando carona a um sargento da briosa Polícia Militar do Maranhão, perguntei se ele conhecia o Cabo Lima. O Cabo Lima Neto. "Aquilo é doido, atira até em pensamento". Não mencionei o caso do aniversário do Geraldo. Aprendi com minha professora de Educação Moral e Cívica que, se queremos conservar um mito, não devemos tentar conhecê-lo demasiado. Então prefiro lembrar do Cabo Lima Neto como um tempero daquele dia. Uma coisa boa. O limão que fez a caipirinha da Dona Gonzaga ficar mais deliciosa. O acorde preciso do Geraldo numa música do Gonzaguinha. A gordurinha gostosa da bisteca. E a tampinha premiada de Coca-Cola que eu encontrei pela manhã no caminho de volta pra casa.

5 comentários:

Gonzo Sade disse...

Puta merda! Onde eu tava nesse dia?
Carlin cabeludo, Alain com um rostinho de Delon, Gegê safado, Jonny... sempre feio.
Foi na época que conheci a Natália.
Eu devia tá ocupado tentando persuadí-la a ser minha eterna cúmplice.
Grande foto, Luídi.

Iuri Petrus disse...

PUTA QUE PARIU!!!
Lindo texto... lindo como a cena da mulher do cabo na cama com o Ricardo... lindo como a carambela ninja da mãe do Geraldo... lindo como os sonhos do cabo desesperado... lindo como meus amigos a cada dia mais e menos ficam!!!

Carlos Leen Santiago disse...

O cabo Lima Neto apontou a arma direto pro Alcindo. Ele me parecia não gostar de afro-indigenas (nem de ninguem). Me lembro que o nobre companheiro acima citado deu uma especie de võo "black cam mem reader" que consistia num duplo mortal sobre seu próprio eixo, utilizando dona Gonzaga como alavanca para que seu cotovelos fundissem com os proprios joelhos. a manobra fora batizado imediatanmente de "golpe matrix" em homenagem ao filme dos irmão "Whachonski". Simples asim!

Eri Santos Castro disse...

Caro Luís Diniz,
Parabéns pelo bom Blogue.
Estou lhe acompanhando.
Abraços, Eri Castro.
Visite-nos: www.erisantoscastro.blogspot.com

Carlos Hermes disse...

Rapaz, eu tive lá nesse dia, mas saí cedo e perdi essa cena...rss

fiquei sabendo depois da papagaiada..rs