sábado, 16 de outubro de 2010

DAS PROIBIÇÕES


No Amarante, numa mesa de bar, conversávamos sobre os avisos impressos em papel A4 e pendurados em algumas repartições púbicas. Além da corriqueira frase Desacatar funcionário público - seguida das respectivas sanções penais: detenção, de seis meses a dois anos -, a sentença É proibido entrar trajando bermuda também é um aviso típico nesses recintos, principalmente naqueles onde o trânsito de certas autoridades é frequente. O engraçado é que a norma não vale para as mulheres que andam de saia, de bicicletinha, uma mão no guidon e a outra tampando a calcinha. Enquanto elas, lindas e loiras, transitam sem ser molestadas por fóruns e prefeituras, os homens são barrados pela simples falta de tecido nas canelas. Em alguma cidade do Brasil, um juiz recusou-se a atender um homem que calçava um chinelo e não um sapato novo e engraxado. Um sujeito sem sorte: além de pobre, humilhado. E pensar que o problema aí não foi a falta de tecido nos cambitos sertanejos - o homem trajava uma calça melindrosamente engomada -, mas falta de couro.

Desde o prédio antigo, ali em frente ao colégio Dorgival, eu frequento a Biblioteca de Imperatriz. Quando desastrosamente a mudaram para o Bolsa Família, perto do Shopping Timbira, de quebra mudaram também o seu diretor: no lugar da velha gorda, simpática e fumante, colocaram um velho ranzinza e não fumante que andava com uma perna de madeira debaixo do ombro. Quando os frequentadores ouviam o toc toc da muleta martelando no pátio que dava acesso à sala de leitura, todos ficavam mais tensos que silenciosos. Uma vez me desentendi com o velho da muleta. Ao me ver numa salinha separada da sala principal com tres livros sobre a mesa, o velho disse que eu não podia ficar ali e muito menos poderia ter pego três livros ao mesmo tempo. Eu disse que não ia sair e ia continuar lendo os três livros. Ele me chamou para olhar uma cartolina onde continha as normas da biblioteca: "Proibido conversar, proibido riscar, proibido pôr os cotovelos sobre os livros, proibido mexer nas prateleiras." E embaixo disso tudo, destacado: "À diretoria". Eu disse que tava tudo errado. "Como assim tudo errado?", bodejou o velho. "Pra começar, aqui é um lugar público. Então no mínimo o público deveria ser consultado sobres essas normas antes delas serem criadas. E além do mais, essas proibições são apenas para a diretoria, né? Ou o senhor vai dizer que craseou "À diretoria" sem querer ?".

No Old Claudeci, era "proibido sentar na cinuca", mas não apenas isso. Falar alto, mexer no DVD, aumentar o volume - tudo era alvo da represália do vascaíno com cara de português de Montes Altos. Era tanta aporrinhação que começamos a fazer piada. "Daqui uns dias vair ser proibido sujar os copos de cerveja também", falávamos. Em 2006, no famoso Bar do Léo, em São Luís, eu, Sandra, Diana, Frederico e outra menina chegamos às sete da manhã pra beber. Quando o Léo levantou o portão do mercado onde funciona o seu bar, de cara percebeu que estávamos grogue (bebíamos desde as oito da noite do dia anterior), mas mesmo assim serviu uma Antártica pra gente naquelas simpáticas mesinhas quem têm um pedal de maquina de costura embaixo. Bebemos brocados: entre uma golada e outra, traçamos um suculento galeto assado e umas duas mangas de vez. Aí, pela tarde, todo mundo doido, começou a beijação. Me lembro que enquanto o Frederico atacava os lábios de alguém, me levantei e fui até a Sandra e a beijei com um gosto de língua, frango assado e manga de mesa. Não demorou uns trinta segundos pro Léo nos separar dizendo que ali não aceitava "uma sem vergonhice dessas". Na saída do bar, não vi nenhum aviso proibindo beijo, mas vi algumas placas proibindo tocar violão e dançar.

Enchi linguiça até agora para dizer que na semana passada, numa Quarta Rock da Texana, me desentendi com o segurança que fica na porta da boate. Havia acabado a show da Pilantropia e eu, Jonhy Animal e Fabinho Cara de Pombo decidimos mexer um pouco a bunda ao som de música eletrônica e sentindo aquela fumacinha cheirosa na cara. Na entrada, o segurança me barrou. Disse que eu não podia entrar com o capacete. Perguntei onde havia a norma proibindo a entrada de pessoas com capacete na boate. Ele disse simplesmente que era determinação do dono do estabelecimento. Retruquei novamente e disse que se houvesse tal norma, ela deveria estar visível para os frequentadores da Casa. Um aviso escrito em papel A4 era o bastante - e a publicidade, dever da Casa e direito do frequentador, evitaria maiores transtornos. Mas como não havia nada - o único aviso fixado ao lado da porta era proibida a entrada de menores de 18 anos - eu disse que iria entrar com capacete e tudo. Quando vou ultrapassar a porta, o segurança - do alto de sua estupidez e vaidade de Leão de Chácara - esticou o braço de 40 centímetros de largura na minha frente. Foi a gota de cerveja. Aí eu boçalizei. "Porra, caralho, agora eu vou é te prender por constrangimento ilegal, seu merda." E ia mesmo, mas o Fabinho Cara de Pombo entrou no meio, pegou meu capacete, me empurrou pra dentro da boate e disse que ia resolver a parada. Depois de uns dois minutos o Fabinho aparece bebendo uma Skol Beats no gargalo e descendo até o chão ao som do Black Eyed Peas. Grito no ouvido dele: "E o capacete?". E o Fabinho, dando um baforada num Free: "Convenci ele a guardar pra mim."

*

Na ilustração acima, desenho do argentino Leo Durañona narrando o conto Diante da Lei, de Franz Kafka, incluso na HQ Kafka em Quadrinhos.

8 comentários:

Anônimo disse...

nesse momento, vc sabe onde eu estava?

jhonny

Luís Diniz disse...

Nesse momento tu já tava truano na buate com a Gê, caraio!

Anônimo disse...

e numa cidade tambem teve um desembargador que mandou prender uma agente de trânsito que o multou...

Iuri Petrus disse...

Você foi desacatado, Luís!

Luís Diniz disse...

Pois é, tio: uma vez guarda mirim, sempre guarda mirim...

Jairo Sade disse...

"Vai encarrar um 'puliça', porra?"

Luís Diniz disse...

Nem é isso, Jairo - essa de "encarar". Foi mais uma reação a uma proibição absurda, quando a boate estava cheia de adolescentes, menininhas de quinze anos dançando tão bêbadas que era evidente que só bastava pegar na mão e "carregar". E também porque semanas antes, eu e o Sintônio havíamos entrado na mesma boate com capacetes.

Mas sei onde quis chegar. Outro dia o Iuri estava argumentando comigo (com razão) se esse meu comportamento (no calor da hora) não refletiria algo que a gente sempre combateu, que é a imposição de ordem, de autoridade. Claro que sim. Refletiu, infelismente. Tanto que faço questão de publicar isso no texto e sublinhá-lo como um momento extremamente boçal, da forma como aconteceu - quando eu poderia simplesmente omití-lo.

Mas depois de tudo, pista vazia, adolescentes "carregadas", fui lá e conversei com o cara, o segurança, o João, e posso dizer que virei amigo dele. Numa boa mesmo, sem qualquer interesse de qualquer lado.

Em tempo: se houvesse um cartaz fixado na porta da boate proibindo adentrar de cueca de coraçãozinhos vermelhos, pode crê que eu faria questão de retornar a minha casa pra colocar uma cueca de coraçãozinhos de outra cor.

Gonzo Sade disse...

blz, bicho!