quarta-feira, 6 de outubro de 2010

O MESMO

O mesmo andava pela principal avenida da cidade quando viu, na frente de uma calçadeira, a Barra Circular vermelha estacionada. O mesmo ainda tentou resistir à tentação, mas não conseguiu. Chegou perto da magrela, passou a perna por cima e saiu pedalando como se ela fosse sua. Era Natal e a avenida estava movimentada. Alguém viu o mesmo furtando a bicicleta e avisou uma dupla de Cosme e Damião que estava próxima do local. Antes do mesmo dobrar a esquina, os policiais militares o agarraram e o conduziram para a delegacia, não sem antes darem muito na cara do mesmo, fazendo o mel descer da sua venta.

Na porta do Plantão Central, vários repórteres já esperam o mesmo, que chegou algemado e segurando a bicicleta pendurada pelo lado de fora do camburão. Na permanência, perguntado por um repórter – um repórter gordo – sobre o motivo de seu calção estar rasgado, o mesmo falou: “Num ti interessa”. O repórter gordo ficou alterado e gaguejou por uns instantes, mas logo posicionou-se olhando para câmera de modo que o mesmo, algemado, aparecesse em segundo plano atrás de si: “Um vagabundo desse ainda é saliente! Rouba e fica tirando graça. É muita cara de pau de mermo... Depois que a população mata um infeliz desse de paulada aí vem os direito zumano defender uma praga dessa.” Depois, recomposto, perguntou ao policial: "Cabo Deusimar, como se deu a prisão do mesmo?" O policial encostou o braço no balcão da permanência e disse: “A gente tava fazendo o patrulhamento de rotina no centro quando fomos avisado de que o mesmo tinha roubado uma bicicleta. Aí a gente caiu em campo e conseguiu capturar o mesmo. Na hora da prisão ele já tava dominado pela população que aliás já tinha batido muito no mesmo”. O repórter gordo então comentou, apontando para o mesmo: “Esse pode levantar as mão pro céu, minino!”. E depois, colocando uma mão no ombro do Cabo Deusimar: “Se num fosse o polícia aqui, a população tinha dado um jeito no mesmo”.

Outro repórter – esse baixinho e careca – chegou perto do mesmo e perguntou: “Rapais, por que tu robô essa bicicleta, a bicicleta de um trabalhadô?” O mesmo respondeu, cabisbaixo: “Num sei não, dotô. Parece que é uma doença que eu tenho, essa de robá”. O repórter se afastou do mesmo e, falando baixinho, bem próximo à câmera, como se falasse naquele momento somente com o telespectador: “Doença? Essa é nova! Isso é muito é um mão de carrapicho, meu amigo: onde bate, aprega”. Depois, retornando ao mesmo: “Rapais, sai dessa vida, tu é novo. Te entrega pra Jesus. Trabalha que tu consegue as coisa.” E enquanto o mesmo era conduzido pro gabinete do delegado, o repórter baixinho e careca posicionou-se na frente de um banner promocional e anunciou: “Tá pensando em construir? Tijolo? Cimento? Pia? Telha? Vaso sanitário? Não tem outro não, é Material de Construção do João.”

Quando o mesmo adentrou no gabinete, lá já estava a repórter bonita e cheirosa, em momento íntimo com a autoridade policial. Enquanto o delegado, desprevenido, tentava acertar o buraco do botão da calça, a repórter bonita e cheirosa, tentando se recompor, ajeitava o cabelo e segurava o microfone com força além do habitual. Comunicado por Cosme e Damião a respeito do delito, o delegado – um homem jovem e disposto – procedeu à autuação em flagrante delito do mesmo. Perguntado ao mesmo o por que do furto, o mesmo respondeu: “Sabe, dotô, eu só ia dá uma volta na biscleta, depois ia dechá ela lá no mermo lugar”. Terminado o flagrante e recolhido o mesmo para o presídio, a repórter bonita e cheirosa barganhou uma entrevista com o delegado. No jornal das sete, ela perguntou: “Delegado, o que o mesmo disse a respeito do furto da bicicleta”. “Ele, como todos os outros meliantes, a principio negou, mas no fim acabou reconhecendo a autoria do delito. Interessante é a motivação defendida pelo mesmo: um simples passeio. Segundo o mesmo, ele queria a bicicleta apenas para passear, devolvendo-a depois ao dono. Ora, é sabido que na França isso é possível. Lá o governo disponibiliza um serviço que possibilita a qualquer citadino apanhar uma bicicleta em determinados pontos da cidade e usá-la por determinado período, desde que pague uma taxa para tanto e devolva a bicicleta onde a apanhou ou em outro ponto credenciado. O que não é o caso do Brasil e muito menos do mesmo, evidentemente. Então temos quase certeza de que o mesmo iria trocar a bicicleta por pedras de crack, já que manchas nos dedos do mesmo denotam o uso regular do entorpecente.”

Terminada a entrevista, a repórter bonita e cheirosa enlaçou o delegado e sussurrou, quase enfiando a língua em seu ouvido: “Gosto muito desse teu cheiro de homem. Meu gostoso...” E o delegado, apertando-a pela cintura de modo a fazê-la sentir o volume de sua pistola e levantando-a um pouco acima do chão: “Hum... é mesmo?”

6 comentários:

Anônimo disse...

kkkkkkkkkkkkkkkkkk

Muito bom.Ótimo!

O mesmo da redação forense torna-se personagem principal.

Grande sacassão!

Retrato fiel do nosso brasilsilsil

prof.Magno

Anônimo disse...

Luís,

finalmente encontrei o endereço de seu hotel, que sempre me foi altamente recomendado por amigos insuspeitos. Não foi de me surpreender que o sono que estava insistindo em me derrubar fora derrubado pela leitura do mesmo.
Grande abraço,

Sérgio (Barroso)

P.S. havia feito um comentário minutos antes, mas por conta de algum bug, não apareceu.

Luís Diniz disse...

Pois é, prof. Magno, o batido mesmo de sempre, sempre o mesmo batido.

Sérgio Barroso, tô sabendo que vc agora está mais ao sul da linha do equador. Sei também que vc escreve, e muito bem.

Isso aqui são rabiscos, folhas dispersas de um caderno de desenho de quem não sabe desenhar.

Abração.

Iuri Petrus disse...

Demorou mas voltou, o mesmo Luis de sempre.

Luís Diniz disse...

É mesmo.

Jairo Sade disse...

Massa!
Conheço uma reportinha daqui que enlaçou a pistola de um delega da ilha. Ham ham... não tá mais aq quem falou.