quarta-feira, 27 de outubro de 2010

DEURIVAL E O DISCO


"É como dizer que comeu a Carla Perez. Por que mais que seja verdade, ninguém daqui vai acretiar numa historia dessas. Não tem graça, já que a graça é contar pros outros. Então se o cara comeu, nem abra o bico senão vira piada. Imagina eu falando isso. Eu, gordinho de óculos fundo de garrafa. Quem vai acreditar se eu disser que comi a Carla Perez?"

Tenha ou não segurado o tchan da Carla Perez, a introdução do Deurival citando o exemplo da dançarina tornou a sua outra história - talvez tenha sido essa sua intenção - mais factível. Na verdade, acho que todos que estavam conosco no Bar do Gil, naquele ano de 2001, acreditaram piamente quando o Deurival afirmou ter visto um Disco Voador em uma chácara, tarde da noite, no momento em que ele e mais uns três heróis da resistência pegavam mais uma Antarctica dentro de uma caixa de isopor.

"E foi bem na hora que eu tava abrindo a cerveja no dente. Bem naquele chiadinho. Foi a tampa caindo e eu olhando, besta, aquele troço parado detrás da palmeira de coco babaçu, lá longe, perto do açude da chácara."

A princípio o Deurival não disse nada pros outros bebuns, mas o seu comportamento - o braço petrificado horizontalmente segurando a cerveja, o rosto também parado mirando o açude - chamou a atenção do dono da chácara.

"Que foi, Deuriva? Tá passando mal? Rapaz, se tu num guenta, bebe leite. Passa a cerva aí."

Deurival se levantou sem tirar o olho do Disco Voador e falou pros três homens que estavam com ele:

"Tão vendo ali, lá perto do açude? Tão vendo aquilo lá piscando detrás das palha da palmeira?"

Todos olharam pro local indicado pelo Deurival, menos o caseiro da chácara, o mais bêbado deles, que olhando pra outro rumo, perguntou:

"Caraio, que porra é aquilo mermo?"

Na época , por volta do ano 2000, não havia tefone celular com câmera embutida. O dono da chácara ainda correu pra dentro de casa à procura da Yashica da sua esposa. Não encontrou nada que pudesse registrar o fenômeno, nem caderno de desenho. Voltou pra varanda e chamou o Deurival e os outros para verificarem de perto o estrano objeto piscante.

"Vô nada", disse o caseiro.

Então foram o Deurival, o dono da chácara e um outro homem, pisando no capim alto e envergando os galhos de outras vegetações rasteiras. Aqui e acolá alguém tropeçava em algum buraco e ficava sem a cerveja do copinho descartável.

"Quando a gente tava chegando mais perto, vi melhor Disco Voador. Era parecido com uma bola de futebol americano, só que achatado e circular, quase do diâmetro de um LP.

"E o tamanho, qual era o tamanho?"

Deurival olhou ao redor do Bar do Gil sem encontrar nada compatível com o tamanho do OVNI. Até que viu, na frente da FAMA, algo que pudesse servir de exemplo.

"Tá vendo aquele ônibus ali que carrega estudante da FAMA? Pois era mais ou menos daquele tamanho."

Nessas horas sempre aparece um chato querendo fazer graça:

"E qual intinerário que tava escrito nele? Júpiter/Marte, via Ribeirãozinho?"

Deurival não se abalou, nem a gente sorriu do comentário idiota.

"Aí, quando a gente tava chegando bem pertinho dele, ele se movimentou lentamente e saiu detrás da palmeira e depois ficou parado em cima da gente. Cara, a coisa mais linda do mundo. Luz de toda cor saindo do fundo do bicho, parecia iluminação de boate. Acho que tinha algum ET querendo fazer contato com a gente, mas o idiota do caseiro apareceu correndo e gritando e rebolou uma manga no disco. Aí, meu amigo, foi que nem nos filmes. O disco se movimentou devagarzinho de novo e depois sumiu que nem um raio, sem deixar rastro."

Nesse momento apareceu o presidente da turma na esquina da UEMA e disse que a professora de Introdução ao Pensamento Geográfico ia iniciar a chamada. No caminho da sala de aula perguntei:

"E a manga, Deurival, o cara acertou a manga no Disco Voador?"

"Acertou, o desgraçado. E impressionante é que de manhã, quando voltamos ao local em que o Disco estava, procuramos a manga que o doido jogou e encontramos só o caroço. E a palmeira tava com as palhas tudo murcha."

"E a Carla Perez, não apareceu voando por lá também não?", perguntou o chato.

"Não, viado, mas a tua mãe passou muntada numa vassoura."

10 comentários:

Carlos Leen Santiago disse...

Essa foi massa:
Compartilho de todas as angustias do companheiro Deurival.

Anônimo disse...

hahaha eu acredito no deurivel pô...
ass: alfredo

José María Souza Costa disse...

Mutamba em uma vassoura.Rsrs ...é divertido o seu blog.Achei legal, e estou lhe convidando a visitar o meu, e se possivel seguirmos juntos por eles Estarei grato lhe esperando lá
www.josemariacostaescreveu.blogspot.com

Iuri Petrus disse...

Não sei, não, mas o humor desse chato me pareceu muito com o do Alain!!!
hehe

Ívila disse...

Não conheço a peça, mas a peripécia me pareceu muito engraçada as vistas de longe (nao por nada, mas o zé maria quer mtos seguidores) e voce... você seria um otimo gigolô das palavras (ja dizia o Veríssimo - o filho) até!

Luís Diniz disse...

Deurival é grande figura, outdoor mesmo. E o Zé Maria, ah o Zé Maria quer trezenas de seguidores. rsrsrs

Carlos Hermes disse...

Cara, isso tudo é recordação tua ou imaginação literária Luís? Muito bacana, bar do gil como sempre marcando momentos. Quanto ao Zé...gostaria de saber quem é ele e qual sua meta..rs deve tá concorrendo em algum concurso de blogs desses aí...

Luís Diniz disse...

It's all true, meu caro. Agora o Zé deve ser imaginação.

Fernando Ralfer disse...

Quando eu era criança e morava no interior, eu era obcecado com a possibilidade de ver um disco voador. Infelizmente nunca vi nada nem parecido... Sorte do Deurival hehehe. Hoje, eu já não sei se acredito mais em ovnis, extra-terrestres...

Luís Diniz disse...

Nem sei se ele e eu somos sortudos...