quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

INSTANTES

Sir William Burrougs e sua pistola.
É Dostoievski encarando o pelotão de fuzilamento. Na África, entre mercadores e camêlos, Rimbaud traficando armas. É Kafka caminhando burocraticamente pelas ruas de Praga. Borges caindo vertiginosamente no abismo de seus pesadelos indecifráveis. Ligia Fagundes Telles pressentindo o exato momento da morte de Clarice Lispector. Poe urinando e soluçando sem parar numa esquina de Boston. São Graciliano Ramos e Oscar Wilde na cadeia. Hemingway se suicidando com uma arma de caça. Kerouac chapado num programa de entrevistas de uma TV italiana: "Você é linda, garota. Você é Fernanda Pivano?". Baudelaire fumando ópio sob uma noite estrelada. Raduam Nassar abandonando a literatura para criar galinhas num sítio em São Paulo. É o exímio atirador William Burrougs mirando o copo de whisky em cima da cabeça de sua namorada e vagarosamente apertando o gatilho até atirar e acertá-la na testa. Lima Barreto dormindo bêbado num bar do Rio. Jack London cruzando o Pacífico Sul num veleiro. Claudio Willer navegando o Pindaré-Mirim, numa canoa, em 1964. Sousândrade imaginando uma Nova York em Alcântara. É Hunter Thompson cheirando a última fileira de cocaína. Camus no banco detrás de um Facel-Véga, pensando no título de um livro minutos antes do carro capotar na rodovia entre Marcelha e Paris.  Armado, colérico, é Euclides da Cunha entrando na casa do amante de sua mulher e berrando "Vim pra matar ou morrer!". É Bukowsk, de ressaca, trabalhando no U.S. Postal Service. Lautreàmont ejaculando no banheiro de uma escola francesa. Ana Cristina César acariciando um gatinho na palma da mão, na Baixada Maranhense. Haroldo de Campos no banheiro gritando para a sua mãe trazer a toalha de banho bordada com o seu nome. Maiakovski, numa faísca de pensamento, cunhando o verso É melhor morrer de vodka que de tédio. É o vagabundo iluminado Neal Cassady roubando seu trigésimo carro décadas antes do poeta Ferreira Gullar interromper uma conferência sobre o Poema Sujo para atender uma ligação telefônica.  É José Sarney telefonando para Ferreira Gullar.

7 comentários:

dragonlucius disse...

é... ferreira gullar hj nem de longe parece o autor das poesia engajadas

Ricardo Magno disse...

Fiquei com muita inveja desse texto. Sensacional mesmo!

Luís Diniz disse...

Pois é, brother, gosto de saber da vida dos escritores. Afinal escritor também vai na esquina comprar jornal, e muitos, como o Gullar ultimamente, escrevem baboseiras nos jornais que compramos nas esquinas.

Hugo Filipe disse...

Texto magnífico. Fiz uma nota em meu blog linkando com o teu a respeito desde post. Confere lá. Tô te seguindo já.

Luís Diniz disse...

Ôpa, valeu. Vou dar uma coferida sim. Abraços.

Carlos Hermes disse...

Porra Luís,parabéns novamente, vou jogar esse texto no meu tb.

valeu

Luís Diniz disse...

Valeu, Carlos. Abração.