domingo, 21 de junho de 2009

O PORCO DO MANEL

Além de televisão colorida, na casa da minha avó e do meu tio também tinha uma biblioteca na estante da sala de estar. Uma biblioteca comprada pronta, típica dos anos oitenta. Uns 40 livros, creio, todos com capa dura. Tinha uma coleção de Psicologia e Saúde Corporal, uma de Inglês/Português, outra de assuntos gerais - em que se destacava o volume Os Cem Maiores Vultos da Humanidade - e um livrão que abarcava gramática e literatura portuguesas, um calhamaço dumas 700 e tantas páginas. Lembro que na apresentação de uma das coleções, havia um aviso do tipo "uma biblioteca somente na estante de uma casa dá um verniz de cultura que o seu dono talvez não possua". Ainda hoje lembro quando li isso. Era um sábado depois do almoço, e o meu tio, dono da biblioteca, roncava deitado na rede armada na sala. Óbvio que ele não tava nem aí pra verniz, cultura ou biblioteca.

Pois bem, de vez em quando eu abria um desses livros que mocavam na estante. Tempos bons e distantes aqueles. Tempo em que a sigla dos Estados Unidos era grafada como EE.UU., e não USA ou EUA, como é agora. Tempo das sandálias Rider, do vídeo game Atari e dos álbuns de figurinha de desenho animado em que a gente concorria a muita coisa e geralmente não ganhava quase nada. Tempo em que o nome "Bocage" não me reportava a um poeta português, mas a um personagem folclórico que se dava bem em tudo, sempre tirando vantagem dos outros, conforme os relatos jocosos do matuto Expedito, nosso contador de causos particular e agregado da família. Tempo das tardes amorosas em que o meu maior crime era comer Leite Ninho e Nescau escondido da minha avó.

Sucede que, certo dia, numa dessas abriduras de livro, li um troço que me deixou com uma pulga atrás da orelha. Ainda lembro. Eram umas quatro da tarde e como minha avó estava de marcação cerrada na cozinha (devia ter percebido a abrupta baixa nas caixas de leite em pó e Nescau), desisti do furto das guloseimas e fui pro quintal com o livrão de 700 páginas debaixo do braço. Parece que tô vendo o menino descalço de calção azul se deslocando da sala pro fundo do quintal, pelo lado de fora da casa, sentindo na sola dos pés a variação de temperatura do piso cimentado, que ora era quente, nas partes expostas ao sol, e ora era frio, no trecho úmido e cheio de musgos rente à lavanderia. O menino que senta na cadeira de macarrão debaixo do maracujazeiro e abre o livro numa página qualquer, em busca de ilustrações. E que de repente se espanta com uma imagem. Mas não uma imagem feita de imagens. Uma imagem de palavras, que só muito mais tarde ele compreenderia que se tratava de um poema.


"Porquinho-da-Índia

Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele pra sala,
Pra os lugares mais bonitos, mais limpinhos,
Ele não gostava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas . . .

— O meu porquinho-da-índia foi minha primeira namorada."


Li de novo o texto. E mais uma vez. Outra. E acabei me encabulando com o último verso: "O meu porquinho-da-índia foi minha primeira namorada". Com o resto do texto tudo bem, nada de extraordinário. Brincar com pequenos animais - porcos ou não - toda criança brinca. Mas o último verso, esse negócio de "primeira namorada" é que não entrava na minha cabeça - ou entrava, tortamente, e por isso mesmo eu me impressionava. E muito, porque naquela época eu não sabia o que era poesia (nem o que ela phodia) e tampouco tinha informação suficiente pra entender que Manuel Bandeira era um escritor, um desses seres que tem carta branca pra inventar com as palavras. Naquela época, mirando o mundo do alto dos meus dez anos, aquilo se resumia a um relato pra lá de sem-vergonha de um menino que poderia ser meu amigo, meu visinho. Um menino que no final das contas poderia ser eu. E namorar um porco? Ah, não. Fiquei com vontade de chamar a minha avó e mostrar aquele negócio pra ela. Pedi uma explicação, uma luz, afinal ela lecionara durante anos. Mas não. Resolvi fechar o livro e devolvê-lo à estante para não mais abri-lo. O diabo é que nos dias seguintes eu não conseguia assistir TV sem ter a impressão de que o tal porquinho-da-índia zombava de mim lá de dentro da Gramática.

Meses depois, passando férias na casa de meus pais, não mais uma pulga, mas um cachorro cheio delas atrás da orelha. Na casa de meus pais também funcionava um bar, num terreno enorme e cheio de mangueiras - uma paisagem bucólica às margens da Belém-Brasília, ao lado do Parque de Exposições, onde hoje funciona um posto de combustíveis. Um dia, aproveitando a ausência do meu irmão mais velho, peguei a Monareta dele e fui pedalar. Zanzei alegre da vida em volta da casa perseguindo as galinhas criadas soltas por minha mãe. Subi e desci uma "montanha" que era um morrinho de areia um pouco mais distante. Dei cavalo-de-pau, levantei pneu, apostei corrida com um adversário imaginário. Até que o cansaço me nocauteou, e então desci tonto numa banguela, aproveitando o vento pra secar o suor do corpo. No final da descida, perto do chiqueiro em que meu pai criava porcos que depois viravam tira-gosto pros clientes do bar, vejo umas peças de roupa penduradas numa estaca e ouço uns ruídos estranhos. Empurrado ainda pela banguela, resolvi fazer o retorno só quando passasse na frente do chiqueiro. Quando tô virando o guidom da bicicleta na frente do estabelecimento animal, quem eu vejo lá dentro? Ora, quem? O meu irmão, short arriado e melado de lama, atracado na traseira de uma porca. Tava tão concentrado no bumbum da "namoradinha-da-índia" que nem me viu passando ali na frente.

É que o sacana tinha aproveitado o pretexto de levar lavagem pros animais para dar uma. Uma de Manuel Bandeira.

Um comentário:

Davison disse...

Que lúdico!!! ha ha ha
Muito bom luis, não pare