quarta-feira, 3 de junho de 2009

TE PEGO NOUTRO SONHO

Há mais ou menos um mês que sonho o mesmo sonho perturbador. Dia sim, dia não. Não raro acordo assustado, suado até, com a imagem de uma mulher loira acelerando um carro vermelho e tentando me atropelar. Noutras vezes, devido ao fato de ter despertado justamente no momento em que poderia surpreendê-la vacilando numa esquina, acordo insatisfeito e com raiva. E é sempre assim no sonho: se em determinado momento eu estou sendo encurralado, perseguido pela loira fatal, noutro momento eu estou no seu encalço, correndo atrás do Golf vermelho que some numa rodovia deserta similar àquelas do filme Mad Max.

Não é uma mulher velha a mulher do sonho, mas igualmente não é nova - deve ter entre 30 e 35 anos. Uma loira bem conservada, eu diria, e até bonita, a julgar pelo rosto de traços fortes e lábios carnudos (sua única parte visível, já que nunca sai do carro). Os olhos variam entre azuis, verdes, roxos ou lilases, dependendo dos desígnios oníricos. Os braços são bem torneados, levemente recobertos por uma penugem dourada, no que suponho que também o sejam as pernas e os glúteos.

Não diria que nossos encontros noturnos sejam um pesadelo borgeano, mas uma sucessão de sonhos extremamente hard. Ou talvez uma série de TV do gênero suspense, só que escrita por um louco para uma espécie de Canal dos Sonhos. Naturalmente o espaço em que se desenrola tal série é o mais onírico possível: desde movimentadas avenidas de grandes cidades, passando por infinitos desertos e parques de diversões abandonados, até florestas tropicais repletas de onças aquáticas, pássaros luminosos e cobras de fogo. Não há um enredo, um roteiro verossímil. Tudo é mutável e espontâneo, e tanto posso aparecer escondido da mulher debaixo da Torre Eiffel quanto armando uma emboscada pra ela no Bairro da Vilinha.

Embora estejamos a maioria das vezes um à caça do outro, não raro o sonho permite-me observá-la sem ser molestado. Lembro de uma noite em que pude distingui-la com mais apuro, ver seus lábios carnudos sugando um cigarro e sua mão vestida por uma luva negra deslizando sexualmente pelo volante do automóvel. Noutra noite sonhei que ela estava acompanhada por outra mulher, está mais jovem, na faixa dos 20 anos, mas também loira. Percebi que conversavam algo muito próximas uma da outra, de um modo excessivamente carinhoso. Estavam absortas dentro de uma jaula em um circo abandonado, esperando um semáforo mudar de cor, e embora não chovesse, o limpador do pára-brisa deslizava lentamente de um lado para o outro. Detrás da lona do circo eu as via, entre medroso e excitado, e cheguei mesmo a acreditar que suas bocas se tocariam quando a lente do sonho as enquadrou num close-up em câmera lenta.

Mas o sonho dá reviravoltas e retoma o seu curso mais angustiante, que é quando estou sendo perseguido pela loira. Não bastasse a desvantagem de eu estar a pé e ela motorizada, muitas vezes alguns elementos do sonho contribuem para que eu seja capturado. É o caso de algumas árvores que, à medida que empreendo fuga, esticam suas raízes para criarem obstáculos ao meu caminho, tentando parar-me ou derrubar-me. Nessas horas tenho que usar toda a minha habilidade de peladeiro para driblar os zagueiros vegetais. Noutros momentos, estou jantando numa ruela qualquer (não possuo um lar no sonho, durmo e acordo na sarjeta) quando sou surpreendido pela luz alta de um farol em meu rosto.Pra não ser capturado, abandono a comida pela metade e fujo. Como sempre acontece isso, há mais de um mês que não me alimento de forma regular e já devo ter emagrecido uns 10 quilos no sonho.

Por outro lado, há momentos em que sou o caçador e ela a caça. São momentos raros, em geral com desfechos frustrantes, mas a simples constatação de sabê-la acuada é o bastante para me reconfortar. Houve uma vez, por exemplo, em que me armei com um estilingue e a encurralei num beco sem saída. Quando enfim pensei que sairia vencedor, forçando-a a se render e explicar-me o motivo de pertubar-me o sono, ela acelerou o carro e conseguiu fugir derrubando paredes e traspassando casas. Na sequência seguinte, eu a mirava com um rifle. Ela estava sobre uma balsa no rio Tocantins e eu em ambas as margens do mesmo rio, esperando o momento certo para abatê-la. Quando apertei o gatilho, a surpresa: em vez do balaço disparado, uma flor pendeu do cano da arma. Uma rosa fedorenta.

Mas o clímax de tudo aconteceu no último sonho. Nos encontrávamos num cenário deserto, uma mata recém queimada. Ela no carro, vindo lentamente em minha direção (a contragosto, frise-se, porque seu semblante era de pavor), e eu na beira da estrada, entre tocos queimados, com um coco da praia seco na mão. À medida que ela se aproximava, eu apertava mais o coco e me preparava para o arremesso mortal. Quando emparelhou-se comigo e me viu de braço erguido, ela estancou o Golf, soltou o volante e cruzou os braços sobre o rosto, assustada. Arremessei o coco com toda a força, sem dó. Mas quando dei por mim – a realidade do sonho retrocedera uns dois segundos –, o coco havia se desintegrado entre meus dedos e a mulher acelerava o carro cor de fogo de forma tão desesperada que cheguei a acordar.

Às 4 da madrugada, acordei duas vezes assustado: primeiro pela altura do resto do meu ronco, que eu não sabia tão alto, e segundo pelo cantar de pneu de um carro na frente da minha casa, como que a fugir emitindo um grito assustador no breu da noite.

4 comentários:

Alda disse...

Fica a dica: reze antes de dormir!
hahaha

Iuri Petrus disse...

Não sei pq mas esta personagem me lembra aquela mulher de nosso amigo matador...talvez pq a aproximação a ela pode ser fatal.

Luís Diniz disse...

Alda, não sei mais nem como é que começa o padinosso, hehe E deputado Iuri, olha que eu digo o nome do cantor...

Anônimo disse...

Ei o cara é adepto de bruce lee.
Abafa! Abafa!