quarta-feira, 27 de maio de 2009

O OBITUÁRIO DO ZÉ

Um dia acontece. Você está andando distraídasso pela calçada e pisa numa casca de banana bem clichê. Como você nunca treinou educativo de queda – e nem sabe o que isso significa –, você cai tão de mau jeito que a sua cabeça é rachada como aquela melancia que um dia escapou da mão do estivador. Aí vem toda aquela história de velório, parentes chorando e enterro. Mas e daí, pra que perder o humor? Faça que nem o Zé Rodrix: peça caneta e papel e escreva um belo texto sobre o ocorrido. Ou – mais razoável – como você gostaria que tivesse ocorrido.

“Há alguns anos, gostaria de ter a causa-mortis preferida de meu pai: assassinado aos 98 anos de idade com um tiro dado por um marido ciumento que o tivesse pego em pleno ato… mas hoje não mais. Pode ser de fulminante ataque cardíaco, dentro da minha biblioteca, perto o suficiente da família e dos amigos mas afastado o bastante para que, alertados pelos cachorros da casa, já me encontrem morto, com um sorriso nos lábios.

Podem sepultar-me em pleno mar, sob a forma de cinzas, já que não poderei ser sepultado in totum no jardim da minha casa. Se conseguirem isso, no entanto, que não cobrem entradas para visitação, à moda do irmão da princesa: deixem que além das pessoas os passarinhos e os animais da casa se refestelem no lugar, renovando diariamente o eterno ciclo da Natureza.

Ao enterro devem, através de convite formal, comparecer todos que foram aos meus lançamentos de livro: nada mais parecido com um velório do que isso.

Peço parcimônia nos eflúvios emocionais: já as risadas devem ser francas e sem limite. Creio inclusive que prepararei com antecedência uma fita de piadas gravadas para animar o velório e manter o pessoal na boa. Como dizia o Bozo, “sempre rir, sempre rir….”

Lá só deixarei a mim mesmo: mesmo os inimigos que comparecerem para ter certeza de que estou realmente morto podem voltar para casa em paz. Não pretendo puxar a perna de ninguém à noite e nem assombrá-los depois de morto.
Já os amigos podem contar comigo: havendo vida após a morte, volto para avisar, da maneira mais prática e menos assustadora que me for possível. A cremação deve ser feita depois que todos forem embora cuidar de seus próprios afazeres: enfrentar as chamas do forno terrestre já será um grande intróito para a vida eterna.

Se conseguir, tentarei ser crooner da grande Orquestra de Jazz do Inferno, vulgarmente chamada de SATANAZZ ALL-STARS: como já vou chegar lá tenente ou capitão, dada a minha imensa taxa de maldades realizadas sobre a Terra, creio que não será difícil. Meu castigo certamente será cantar MPBdQ por toda a eternidade, mas mesmo com isso ainda se pode encontrar algum prazer, assim na terra como no inferno…. é o que veremos a seguir.

No enterro podem tocar de tudo, menos as músicas que eu tenha feito. Minha morte servirá certamente para que se livrem não apenas de mim mas também de minhas obras. Os herdeiros também não merecem ouvi-las, sabendo que nada herdarão de minha lavra, porque, sendo eu adepto da política do VAI TRABALHAR, VAGABUNDO, como meu pai fez comigo, já tomei providências para que essas músicas não lhes rendam nem um tostão furado. Sendo um velório moderno, recomendo músicas de carnaval antigo, as indiscutíveis, claro, com algumas discretas serpentinas e confetes jogadas sobre o caixão, fechado, naturalmente.

Morrer num Sábado à tarde, ser enterrado num Domingo antes do almoço, e estar completamente esquecido na manhã de Segunda, sem atrapalhar a vida profissional de ninguém: eis a perfeição que desejo na minha morte.

Muito grato.

beijos

Z”



Zé Rodrix morreu na semana passada. Valeu, Zé. Contiuamos ouvindo teu rock rural.

6 comentários:

Rosana Barros disse...

Muito interessante essa narrativa, acredito que muita gent deseja morrer desse modo.

carlosleen disse...

Muito bom o texto Luis, parabens!!

Carlos Leen Santiago disse...

Muito bom o texto Luis!!

Iuri Petrus disse...

Ou a reforma ortográfica dessignificou as aspas ou este texto não é do Luís!!!

Luís Diniz disse...

O "entreaspas" é do Zé Rodrix. O cara era tão "safo" que escreveu o próprio obituário.

agorabinhí disse...

haha, que interessante esse texto! Tem que ser muito louco mesmo pra narrar o proprio obituário. Na verdade acho que todos nós um dia imaginamos nosso velório, só não tivemos coragem de escrevê-lo!