quarta-feira, 20 de maio de 2009

CADEIRA ETÍLICA

                                                           Tou aqui sentado. Fumo um, mas já fumei dois. Tou com as pernas estiradas, metade dentro e metade fora do bar. Tou olhando o movimento, brother, a vida passando na frente do meu copo de cerveja. E como tem carro, cachorro, homem e mulher pela rua. Tem uns manos que passam na frente do boteco e olham pra dentro e conseguem ver, pelo espaço da janela entreaberta (é um bar com portão e janela), o resto de uma jogada de sinuca - o bolão batendo na bola oito e suicidando no buraco do meio. Os que jogam sinuca também veem um pouco os que passam. E veem também o dono do bar perguntando se eles tão anotando direitinho as fichas. Claro que tão, os caras são gente boa. Tá tudo certo. Tudo no seu lugar. Prova disso é a menina mais bonita do condomínio que tá saindo no mesmo horário de sempre pra facul. E hoje ela tá mais linda usando um lenço vermelho no pescoço. O garçom sacana percebe esse pequeno detalhe emocional e me dá um toque de leve enquanto leva uma cerveja pro casal que tá sentado ao lado e que acabou de comprar um pacote de ovo codorna do menino de sempre. Aí chega um amigo e me pede um cigarro. Ele tá todo bobo com um exemplar novinho d'As Flores do Mal na mão. "Tem gente que compra livro só pra mostrar pros outros, né, brother?", eu penso em falar brincando, mas o bicho é mais rápido e começa a falar um bocado de coisa até chegar ao cúmulo de encontrar semelhança facial entre o dono do Bar e o Jack Nicholson do filme O Iluminado. Eu discordo e arremato dizendo que antes de chegar no bar eu descobri que nasci um século depois da morte do Dostoiévski. Não sei por que ele entende isso como uma senha pra pegar o beco e se manda com o livro debaixo do braço, fumando o cigarro que lhe dei. Peço a última cerveja pro garçom e enquanto ele vai buscá-la eu fico imaginando qual seria minha reação se ele morresse bem alí no caminho entre o freezer e a minha mesa. Sei lá, um curto circuito no coração ou uma bombinha atômica explodindo na cabeça do cara. Caralho, que mente a minha. Mas de uma coisa tenho certeza: seria foda ter que ir embora sem beber essa cerveja. Tou pensando nisso quando chega uma vizinha do bar pedindo pra alguém trocar uma lâmpada queimada na casa dela. "Mas como, minha senhora?", eu falo irritado. "Não tá vendo o garçom agonizando aí no chão não? Vá chamar uma ambulância, vá. Dona de casa sem coração".

3 comentários:

Carlos Hermes disse...

Cara, belíssimo texto. Visualizei cada momento como cenas cotidianas do bar do Valdeci..rs

abraço

Luís Diniz disse...

Carluzerme, só não te dou nota 10 bem aqui porque tu erraste o nome do dono do bar. Não é VALDECI, É VLALDECI, com "L", tá ligado? Hehehe. Valeu.

Iuri Petrus disse...

Mas será q as coisas vão continuar no lugar certo com o bar mudando de lugar?E o condomínio da frente, o q será ou o substituirá?E o civismo de cachaça mal ou bem aflorará?
Mulher, eu gosto é de frescar e grosar!!!