quinta-feira, 14 de maio de 2009

POUCA GENTE CONHECE

Pensei que estava completamente atrasado, mas quando cheguei na Uema, por volta das 8 da noite, o evento acerca da obra do maranhense João do Vale tinha acabado de começar.

Um público bom, no pátio da Uema mesmo, se espremia para ouvir depoimentos sobre o João e assistir ao belo documentário Muita Gente Desconhece, um apanhado das várias fases da vida do cantor e compositor maranhense, compreendendo 1) a sua chegada ao sudeste do país, época em trabalhou como pedreiro, no Rio; 2) a peregrinação em torno das rádias e músicos daquela cidade, tentando mostrar suas composições; 3) os primeiros sucessos musicais, na voz de outros cantores ; 4) a participação no Show Opinião, ao lado da bela Nara Leão e Chico Buarque; 5) a composição de músicas para alguns filmes, coisa que eu desconhecia; 6) enfim o reconhecimento musical, e as parcerias com diversos medalhões da MPB; 8) o AVC que pouco a pouco o matou; e 9) os seus últimos dias de João na cidade de Pedreiras, rodeado dos antigos amigos.

Foi bom ver um dos filhos do João, presente no evento mas ausente nas falas. Uma mulher, que presumo ser sua esposa, foi quem falou a maior parte do tempo, enquanto o filho do João permanecia estático, olhando fixamente pra mulher ao microfone e parecendo confirmar o que ela dizia. Também ele, filho do pedreiro, acometido de um AVC: seu braço direito imóvel pendendo sobre a perna, e seu aspecto abstraído olhando o pai no telão, doente numa enfermaria de hospital, me fizeram lembrar um conto da Marina Colasanti, A nova dimensão do escritor Jeffrey Curtaim, matador logo em seu primeiro parágrafo: "Quando o coágulo de sangue explodiu na cabeça de Jeffrey Curtaim, algo nele foi cortado, como uma mangueira ou um caule. E o seu pensamento viu-se subitamente decepado do corpo". Terminado o documentário, tive a vontade de conversar com o filho do João, falar-lhe da minha admiração por seu pai, mas algo também cortou-se em mim, decepando-me do intento, no que desisti.

Terminei a noite no Bar do Claudeci, assistindo ao jogo entre Flamengo e Internacional, na companhia de alguns amigos. Foi bom torcer contra a Urubuzada enquanto recebia a notícia de que o Vascão metia quatro a zero no Vitória do Bahia. A cerveja estava geladíssima, típica canela de pedreiro. De quebra, bebi cinco deliciosas doses de uma pinga temperada que só o Claudete sabe fazer (fragrância de abacaxi), tirando o gosto com limão e Arisco. Mas como o trabalho me esperava no dia seguinte (e continua me esperando, porque não fui trabalhar), tão logo o jogo terminou eu me mandei pro Hotel Subterrâneo, ligeiramente bêbado, ligeiramente feliz, cantarolando "Meu samba é a voz do povo/Se alguém gostou/Eu posso cantar de novo".

4 comentários:

Carlos Hermes disse...

Valeu rei degolado, bom vê-lo na blogosfera. Veio pra dar uma qualificada nesse mundo da virtualização do debate. Escreves como poucos, sei disso desde os tempos de DCE-Uema, e até mesmo antes.

Parabéns por esse post camarada. João do Vale precisa ser conhecido por todos, até pra nos orgulharmos mais de sermos maranhense. Eu já me incluo aí há algum tempo.
abraço

Luís Diniz disse...

É issaí, cara. Lembro muito bem quando viajava pros congressos e invariavelmene cantávamos "peguei um trem em Teresina" dentro do buzu. E a Uema foi sim fundamental pra muita coisa. E tu também sabes muito bem disso. Abraço.

Alda disse...

Pôxa, Luís, eu perdi! Li a programação errada, acabei trocando as datas. Enfim ¬¬
Eu lembro que em 2002, uns pesquisadores da Ufma parareceram na Uema perguntando se os alunos sabiam quem era o maranhense do século? Vc acredita que boa parte dos alunos não sabia nem dizer quem era João do Vale? Eu, hein!
Adorei o post!
Beijo

Luís Diniz disse...

Pois é Alda, infelismente. E um pouco antes disso, creio, colocaram na Uema uma urna eletrônica justamente pra escolher o maranhense do século. Muitos letrados concorreram, mas o povo escolheu o João. O foda é que, tal e qual nas eleições de voto obrigatório, muita gente depois esquece em quem votou. Beijo.