quarta-feira, 1 de julho de 2009

AH, CAVALGADA

ou bosta verde sobre superfície negra


Fim de férias. Acabou a minha vidinha boa – sapo caiu na lagoa – de beber em plena segunda, acordar ao meio-dia e ficar assistindo ao Difusora Repórter com a Luzia Sousa e o seu "eu e você no SBT". Acabou-se. This is the end, beautiful friend. Já recebi até telefonema da Guarda Mirim me informando que estou escalado pra trabalhar na "nãoseiquegézima" Cavalgada de Imperatriz. O grande evento anual dos ruralistas, abertura da Expoimp, momento em que mauricinhos e patricinhas alugam carroças no Mercadinho pra encher a cara de Heineken enquanto são puxados por jumentos velhos de guerra do centro da cidade até o Parque de Exposições. A nata imperatrizense no seu dia glamouroso de Cheira-Peido, posando pra câmeras de 200 mega-pixels em cima das carroças enfeitadas pra depois criar álbuns no Orkut e esperar os comentários virtuais dos amiguinhos da Itz, da Texana, do Gatinhos.

É uma dor de cabeça essa Cavalgada. Não só pra nós, da Guarda Mirim, que temos que chegar cedinho pra interditar as ruas, mas para a própria cidade, que literalmente "trava" durante o evento. Se no próximo sábado pela manhã um sujeito comprar um frango no Braseiro do Gaúcho e quiser retornar para a sua casa, no Bacuri, ele não conseguirá, porque será impossível cruzar a cidade - a avenida Getúlio Vargas - de um lado para o outro. A hora do almoço vai passar, o frango vai esfriar, e o máximo que ele vai conseguir é ficar parado num cruzamento. Depois o saco dele vai encher – com razão – e ele vai buzinar feito um louco e mandar o guarda que tá interditando a rua – eu, o filho da puta – tomar no cu. Mas o problema não somos nós, os guardinhas. O problema é essa Cavalgada de merda.

Há cinco anos eu sinto isso na pele. Por morar no Conj. Vitória, tenho que fazer o mesmo percurso da Cavalgada pra chegar em casa. Apesar disso, os sacanas da Guarda sempre me escalam nas proximidades do entroncamento, um dos últimos pontos de interdição. Como só posso ir embora quando o último cavalo passa cagando, então é batata: mesmo que eu fure sinais, avance preferenciais, corte por dentro do Bacuri, quando eu chego perto da ponte do Cacau a maldita Cavalgada já está por lá, atravancando o meu caminho. Como não sou passarinho, tenho que reduzir a moto pra primeira marcha e seguir atrás dos animais durante uns quarenta minutos, até que, na entrada do Parque de Exposições, finalmente a BR é desobstruída e eu consigo acelerar pro caminho de casa. Nesses cinco anos, só houve uma vez que alguém se apiedou de mim. Sabendo que eu ficaria preso atrás de bípedes e quadrúpedes, um amigo - o Renan - me convidou pra matar esse tempo na casa dele, e almoçar por lá também. Almocei, conversamos, bebi café, fumei um cigarrinho e depois fui pra casa só no ponto de dormir.

No caminho, perto da entrada do Parque, no acostamento da BR, entre bostas de jumento e latas de cervejas, vejo a cena que sempre me vem à mente nessa época de Cavalgada. À deriva no meio-feio, calçada com apenas umas de suas botas (perdera a outra?), tentando se levantar da sarjeta e principalmente do porre, vejo uma patricinha regurgitando debaixo do sol das três horas da tarde. Ao seu lado, algumas pessoas, não sei se rindo da situação ou tentando ajudá-la.

Só me lembro mesmo de uma coisa. A de que mandei todos tomarem no cu. Claramente. Com o mega-fone do meu pensamento.

10 comentários:

Anônimo disse...

Muito boa crönica, digna da coluna do Jonas Ribeiro!
Não sei se são jumentos que carregam ou jumentos que se deixam carregar. Mas é merda pra todo lado via burguesia do campesinato. Isso sem falar dos carrões com som ianque automerdífero, fazendo assim, Tum Tum, Tum, Tum
Eita massa ignara burguesa, cujo cérebro é uma imensa caixa de som e os ouvidos dois cifões!!!
Borduna Bolchevique

agorabinhí disse...

AGORA BINHI!
VOCE CONSEGUIU DESCREVER NOSSA IMPRESSÃO SOBRE O "EVENTO"

Iuri Petrus disse...

oh rapá...bendita a aranha que andou pelo meu pescoço e me salvou das bostas da cavalgada...pela primeira vez não tenho que trabalhar neste evento de merda...ah e se quiser eu e apiedo de vc...pode vir para minha casa, só não garanto o almoço...mas teremos alguns filmes, pode até ser um de zé do caixão...quem sabe sonhamos com cavalos encarnando-encarcando nos nossos cadáveres...só depois de morto pra aguentar mesmo

Isnande Barros disse...

Maravilha.
kkkkkkkkkkk.
Gosto de ver as carroças e os ricos em cima.
abraço.

Anônimo disse...

O quê uma pessoa com sua inteligencia faz na "guarda mirim"?

É masoquista ou o quê?

Aguardo uma resposta inteligente, coerente e convincente.

heheheh

Luís Diniz disse...

Na verdade eu queria ser Escoteiro da Assembléias de Deus. Infelismente não consegui: argumentaram que meu prazo de validade já estava muito avançado para a faixa etária média da corporação(ou será que se sentiram ameaçados por minha "inteligêntzia"?) .

Então fui aceito na Guarda Mirim e, para minha surpresa, descobri que os outros guardas também um dia desejaram participar da confraria dos "Sempre Alerta". Não espalhe por aí, mas saiba que nós, Guardas da Setran, somos todos escoteiros frustrados.

fotorealidade disse...

Meu querido,

Eu sabia que um dia eu gosaria contigo... da forma mais literal da palavra, e foi hoje ao degustar o meu almoço corrido, dividido com meu comparça Jhony que lia cada frase com todos os pontos e virgulas de seu maravilhoso escrito.
O que você disse nada mais é do que o retrato falado de uma Imperatriz sem identidade alguma, que de forma passiva aceita os costumes e culturas de quem quiser mandar!

Tive o grato prazer de estar em João Lisboa em um evento estadual de educadores populares, mesmo assim, ao voltar para Imperatriz por volta das 16:oo hs ainda encontrei vários carroçeiros andando a pé puxando seus cavalos estrupiados!!!

E a cidade? A princesa do Tocantins?
Tornou-se uma princesinha de bosta!

e assim caminha a humanidade (alguem já dizia!)

Renan Henrique disse...

olá amigo Diniz, não conhecia seu blog, derrepente fiquei sabendo que vc estava fazendo fama e fortuna com um artigo sobre os cavalinhos. sempre tive muita pena deles, mas ainda assim, desejava ver carroças quebrando e os bipedes morrendo, formando um formidavel espetáculo no meu sábado tedioso, diante daquele lojinha de pneumáticos que vc conhece. mas acho que só vc e o iuri, podem concetrar ódio suficiente para expressar nossos sentimetos acerca do evento. é sem duvidas, e em sentido amplo, uma cagada na cidade. abraço e avante...

Iuri Petrus disse...

badaladíssimo hein bodão!!!
hehehe!!!

Luís Diniz disse...

Tô começando a ficar com medo disso...