quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

HAI DE TI TV


Tem gente que adora. Gente como o meu tio, que se regozija diante do Jornal Nacional. "Quantos? Cem mil? Aposto que esse número vai aumentar. Tem muito mais morto debaixo desses prédio aí"

Corta.

Observo com nojo a repórter da Globo forçando uma entrevista exclusiva com uma mulher soterrada. Pedindo pra ela dar um tchalzinho lá de dentro dos escombros. E se a câmera pifasse antes da captação das imagens? A repórter pediria para os bombeiros retardarem o resgate? Apertaria o pause para o cinegrafista concertar o aparelho e não perder o furo de reportagem?

Corta.

Outra repórter, essa da Record, embarca num helicóptero militar carregado de mantimentos. A aeronave não pousa, apenas plana sobre um grupo de desabrigados. Quando as caixas são jogadas pelos soldados no meio da multidão, a repórter entra em êxtase, muda de voz, e segurando o microfone com a mesma ânsia que segura um pau antes de chupá-lo, diz, em outras palavras, o que desejaria dizer com estas: "Vejam, telespectadores, quantos famélicos se digladiando por uma barrinha de cereal e uma garrafinha d'água.

Corta.

Liberdade de imprensa? Passo, repasso, não pago. E vivo muito bem sem tais jornais.

5 comentários:

Fontes disse...

Me dê imagens de Port-au-Prince, comandante Hamilton! Olha só que barbaridade, gente...

Anônimo disse...

Moço, depois de Luzia Souza (do difusora reporter escrito com fonte pigando sangue), josevan marques (com fundo sonoro do guerra das estrelhas quando grava os mortos), raimundo roma, e alberto souza, essa cobertura do haiti a qual voce se refere é filme da disney!

Paulo Gomes disse...

Essas reporteres me lembram muito "A Montanha dos Sete Abutres"...

Luís Diniz disse...

Às vezes eu acho a cobertura do Haiti pior do que Josevan e cia, porque, como bem lembrou o Paulo, a repórter da Globo agiu tal qual (guardadas as proporções) ao jornalista do filme do Billy Wilder.

Natal Marques disse...

É cara, como diria meu professor de filosofia, mestre Henrique, nossa sociedade é necromaníaca. Essas reportagens estilo show de horrores dão ibope. A exibição do pior momento do ser humano causa muita curiosidade. Prefiro contemplar a vida.

Abraço!