terça-feira, 12 de janeiro de 2010

NO BAR DO GIL COM AVATAR, MANDI, ATIVIDADE PARANORMAL, PESCADA, MORTE, TERROR ORIENTAL, MEDO E "NÃO JUSTIFICA, GERRÊRO"

Quem diria que numa noite um pouco chuvosa de segunda-feira eu encontraria o Davison e o Santos, velhos companheiros de um já distante movimento estudantil uemiano? Mas lá estavam eles, abancados no Bar do Gil, bebedendo a boa e velha cervejinha do recinto na companhia de outras figuras não menos ilustres egressas da Uema. Não podeira me furtar àquela celebração um tanto convidativa e desapeei para rever os amigos.

Conversa vai, conversa vem, acabamos por enveredar pelo cinema. O tal do Avatar. O Davison havia assisto ao filme em São Luis e disse que ficou embasbacado com o roteiro, a fotografia, os óculos 3D (que ele de vez em quando tirava e botava, incrédulo), enfim com a aula de direção do James Cameron. Outra fita que emergiu na mesa foi Atividade Paranormal. Dizem que é o novo A Bruxa de Blair. Muita gente não gostou, fuzilou o fime: plágio, oportunismo, superficialidade. Não sei. Estou na fissura para assisti-lo, pricipalmente depois de ter lido um texto do Jorge Coli - colunista do Caderno Mais da Folha de São Paulo - sobre a película. E já que o tema era filme que bota medo, pulamos logo pro terror oriental. Um terror que não nos assusta ao estilo hollywoodiano - o Jason nos perseguindo segurando uma cabeça decapitada numa mão e um facão na outra, ou trucidando um casal em pleno coito para satisfazer a moralidade do puritanismo americano -, mas um terror que explora o medo do desconhecido. O Chamado, por exemplo, na sua versão japonesa, original. Quando assisti ao filme, numa noite de domingo, tive, como Kafka, sonhos intranquilos: ao domir, sonhei que a silhueta da menina do filme aparecia na janeja do meu quarto. Acordei assustado, e mais assustado fiquei ao olhar para a janela e perceber - ou imaginar - um vulto como que a sumir atrás das vidraças. Peguei pregos, martelo, uma velha rede no guarda-roupa e dei um jeito de tampar a janela. Nos finalmentes, o Davison confessou que tem medo de meninas cabeludas que ficam em cima de uma mesa balaçando os pezinhos e pedindo alguma coisa com a mãozinha estendida. Isso é realmente assustador, mas eu e o Santos concluimos que temos medo do escuro, do breu absoluto.

Para mudar de assunto, revisitamos a velha e idiota rivalidade entre Imperatriz e São Luís. Essa dicotomia forçada que gera desde brigas de internautas em comunidades do Orkut até comparações das mais absurdas, como a que afirma que as mulheres de cá são infinitas vezes mais bonitas que as de lá. Sem falar que o termo "interior" sempre é tomado na acepção de "matuto", e nunca com o significado do que está dentro, e não na beirada, no litoral. Em dado momento, ouço do Santos ou do Davison a história de um jornalista da cidade que, em viagem à ilha, na praia, se recusou peremptoriamente a comer uma pescada. Diversas vezes convidado, deu pra trás afirmando que o mandi do Tocantins é muito melhor do qualquer pescada de São Luis. Eu mesmo tenho de medo de radicais.

Outro tema que nos tomou uns goles de cerveja foi a morte. Não a morte dos compêndios filosóficos, dissecada por intelectuais, mas a morte nossa de cada dia, como a recente morte do Junior da River, um cara que até pouco tempo esteve conosco no Gil dividindo uma mesma mesa de bar. É muito estranho saber que nunca mais o veremos sentado próximo ao balcão na companhia do Márcio Papel, bebendo cerveja, gargalhando e vez em quando mordiscando um queijo com salame, orégano e azeite de oliva. Mas assim é, e no momento em que estamos mais esquecidos dela, a Miss Death nos dá um tapa na cara – geralmente materializado na partida de um amigo - como a nos lembrar que um dia, um dia - bom, o melhor é mudar de assunto.

*

Disse para mim mesmo que não ia mais postar nada sobre o Amarante neste Hotel Subterrâneo. Primeiro porque uma pessoa insuspeita se travestiu de anônimo para escrever um comentário me chamando de fofoqueiro, de Tia de Calçada (mas eu sei quem foi: o meu blog tem bina), e segundo, porque não quero (não por medo, mas por falta de saco) responder a processo administrativo e/ou ser processado por alguém. Mas o caso em tela é muito pitoresco para não ser compartilhado aqui. Muito amarantino. Ei-lo: certo dia, a viatura da polícia quebrou e foi mandada para a oficina mecânica. O mecânico trabalhou obstindadmente, dia após dia, rebimboca da parafuseta após rebimboca da parafuseta, até concertá-la. Depois encheu-se até as orelhas de cachaça e foi acometido da excitante ideia de fazer umas blitzizinhas pela cidade. E se mandou para uma esquina, ele e mais dois índios também devidades bêbados, e começou a parar carros, motos, bicicletas. Vai que, certa hora, ele parou um policial mitilar que estava de folga, transitando numa motocicleta. O militar a princípio estranhou aquele novo tira, mas o mecânico impôs a sua autoridade policial de forma incisiva:

-Documento da moto e habilitação, por favor.

E depois de olhar os documentos:

-Tá vindo de donde?

-Tô vindo da casa de minha namorada. Sou policial aqui da cidade - o PM respondeu.

-Ah, é?

-É. Sou.

-E cadê a tua farda?

-Tá em casa, hoje eu tô de folga.

E o mecânico, com uma mão na cintura, a outra na viatura, pernas cruzadas, utilizando um timbre de voz de displicente superioridade hierárquica:

-Não justifica, guerrêro.

Foi quando o PM sentiu um potente bafo de cachaça na cara e percebeu os dois índios dentro da viatura. Aí deu voz de prisão pro homem, para ele largar de ser "doido" e voltar a ser mecânico.

8 comentários:

Samuel Souza disse...

Luís cara, parece que em Imperatriz o Avatar não terá direito a óculos 3D e nem projeção. :-(

Fontes disse...

Excelente, Luigi!

Carlos Hermes disse...

Poh Luís, saudades desses momentos, desses papos bons. Santos vejo todos os dias, já abusei dele,já Davison acho que não o vejo há meses. Perdi esse momento bacana e sei que temos perdido tantos outros.

Saudade dos tempos que passávamos a noite tomando aquele garrafão de cinco litros de vinho no gramado da Beira Rio. Víamos o sol nascer como os verdadeiros e únicos sóbrios.

A tal pós-modernidade, muito questionada mas real, nos distancia. Precisamos fazer o contrapor, viver mais os que amamos antes que a morte nos leve...

Valeu...
ah, essa de Amarante foi ótima...não parece verdade, mas se foi, foi hilária..

abraço

Luís Diniz disse...

Pois é, meu rey, o tempo passa e a gente vai envelhecendo e acabar tendo que se "institucionalizar" pra poder sobreviver nessa selva. E infelismente isso demanda tempo e ausência. Mas às vezes é bom encontrar uns amigos e "pular o muro da selva" e passear cladestinamente à margem da "civilização". Tamos aí.

Viviany Assunção disse...

Como eu te dizia ontem a noite na mesa de bar: " tu é um filho da mae luis", muito muito bom, tem coisas que so acontecem em mesa de bar ou em Amarante kkkkkkkkkkkkkkkkk

Luís Diniz disse...

Vivi, Vivi, não sou nenhum Pablo Neruda mas "Confesso que Vivi". E que "bibi" também. Beijo na testa e um abraço no suvaco.

mayflor disse...

hahahha...fui eu mesma quem te chamei de tia da calçada, não pra te desistimular, mas qnd o real sobrepõe exageradamente o ficcional a coisa fica fofoca de tia mesmo! e concordo com davison q avatar é um bom filme, ñ pelo sua parafernalia tecnológica, mas pelo seu dizer. Ahhh o 3d me incomodou bastante, tou louca pra ver o filme com o distanciamento necessario pra refleti-lo e questiona-lo... ahhh e muita, muita saudade desses encontros frutiferos de mesa de bar!

Anônimo disse...

ou luis eu discordo totalmente da mayara aí até pq desconheco que existe uma formula pra medir o grau exato de mistura entre o real e o ficcional? e não entendo pq ela escreveu primeiro no outro post como anonimo com um certo ranso até, até xingando, vixe... mas enfim nem vou me identificar pq teu blog tem bina né rsrs