quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

OS CANTEIROS FLORIDOS DE BURITICUPU


Do ônibus, pela janela, olho a cidade de Buriticupu. Olho a cidade que nada me lembra a cidade dos protestos violentos - tiros contra a polícia, delegacia queimada, assassino assassinado e partido ao meio ao ser arrastado por duas motocicletas. Não. O clima é outro. A cidade dorme madrugada adentro e a rodovia antes empoeirada é agora uma bela avenida ilumidada com seus canteiros floridos quase prontos. A cidade dorme debaixo de uma chuva fina. A cidade é uma princesa dormindo e eu uma pequena mariposa apaixonada de Guadalupe de passagem pelo seu corpo. Mas não, não me iludo. E sei que a qualquer momento a delicada mão de princesa pode me golpear com um tapa de fera.

Desembarco em São Luis e resolvo pela manhã o que tinha de resolver envolvendo o trabalho - carimbo do Estado, assinatura, bom dia. Depois do almoço, rumo para o São Luis Shopping. Compro o ingresso para assistir ao filme Avatar e fico sentado observando as vitrines que observam as pessoas que observam as vitrines. Lembro sem querer de uma notícia lida no jornal O Progresso. Algo sobre o governo do Estado entregando uma viatura policial a uma pequena cidade. Como se fosse inauguração de uma grande obra, a viatura é entregue com pompa na porta da prefeitura. Executivo municial e vereadores presentes. População, flashes. Penso em escrever um texto sobre o assunto, dilatando um pouco os fatos. Do burburinho sobre a chegada da viatura até a sua entrega. A população exultante rebeirando o automóvel, cheirando os pneus, cochichando, posando pra fotos no capô, brincando de polícia e ladrão. No final do texto que ainda não escrevi, alguém comete um crime para poder ser o primeiro a ser transportado na gaiola da viatura. Rio muito da situação. Rio tanto que um segurança do shopping me olha desconfiado.

A sessão inicia no Box Cinemas. Ponho os óculos da fantasia na cara e seco um copo de Coca-Cola. Da tela do cinema objetos voam na minha direção. Desvio de um tiro de fuzil e tento em vão agarrar uma flor iluminada. Avatar é um grande filme de um diretor megalomaníaco. Certamente ganhará vários oscares, mais por seus recursos técnicos e menos por seu roteiro, que achei batido, nada extraórdinário. No meio do filme, minha garganta trava por conta de - perdoem-me, senhoras polidas - uma bola de catarro encalhada. A situação é insuportável. Tenho de cuspir de qualque de jeito, mas me envergonho porque logo atrás de mim estão duas belas adolescentes. Bolo um estratagema, então. Espero uma cena violenta e no meio de um combate entre humanos e alienígenas, entre mísseis e gritos de desespero, aproveito o grande barulho e abaixo a cabeça para enfim escarrar discretamente no copo vazio de Coca-Cola.

Chego por volta das 17h na rodoviária. Peço cerveja e começo a beber. Chapar a cuca é um método que sempre uso para poder dormir bem dentro dos ônibus. Bebo muitas cervejas e como um PF estranho: carne de sol descaradamente frita na mesma gordura que fritaram algum peixe. Não reclamo. Bebo mais cervejas e embarco faltando cinco minutos para o Aparecida partir. Durmo a viagem toda sonhando com uma negra forte e gostosa de cabelo loiro cortado à máquina regulada no pente número 2. Um sonho erótico que depois narrarei por aqui. Acordo excitado já perto de Imperatriz. No desembarque, traço um copo de café e um pastel na rodoviária, o que me reporta a um ótimo conto do professor Magno Urbano, que eu li há algum tempo e que se chama Moço, me dá um dinheiro. Como o pastel e volto para casa pensando em como ficarão bonitos os canteiros floridos de Buriticupu.

8 comentários:

André Santos disse...

Muito bom, camarada!

Natal Marques disse...

Quanto tempo heim cara?
Pensei que não mais escrevia meu caro. Já disse que você enxerga o mundo como se estivesse na lombra direto. Esse post não é diferente!

Saudações!

Luís Diniz disse...

Pois é, meu brother, é o Amargante que me toma 15 dias de vida por mês. E nos outros 15, quando tô na Imperosa, tenho muita pressa de viver, de beber, de rever os amigos, o que acaba atrapalhando as postagens. Mas sempre vou botar alguma coisa por aqui, sempre, e de preferêcia olhando o mundo com óculos 3D chilados. Abração.

Anônimo disse...

Meu velho, já postei aqui que prefiro tuas crônicas aos trabalhos de Braga e Veríssimo( que não me ouçam o pessoal da linguística da UEMA ou os imortalíssimos da AIL).

Teu grande cerne das palavras é o tragi-cômico lusoafrotupiniquim retratados nesses cantos do Brasilsilsil. Cantos estranhos que não deixam de ser o nosso mundo, embora a deusa colorida teime em mostrar no bigue broder brasiu.(mais grotesco do que o Serra (o Vampiro da Pauliceia)vestido de odalisca).

Pois é, ai que consiste a grande arte que nos adverte Fonseca!

Mas eu queria falar mesmo que tua veia crônica é ducaralho, turbinada com 100mg de viagra, e já é chegada a hora de fazer tranfusão para um livro!

fraterno abraço,
prof.magno

Vanusa Babaçu disse...

Delicia embarcar contigo num roteiro bem conhecido por meus olhos e visto diferente pela tua lente mágica.

Buriticupu, canteiros e CEFET (IFMA)

abraços de palmeira pra vc.

Luís Diniz disse...

Vanusinha, obrigado pelo ventilado abraço de palmeira babaçu.

Carlos Leen Santiago disse...

e ai Luis:
Cara reativei o blog. Como sou leitor assiduo do seu , solicito-lhe que disponibilize o link. Nele estão sendo tratados as questoes ambientais que se fazem urgentes em nossa região.
www.carlosleen.blogspot.com
Valeu companheiro!

Luís Diniz disse...

Opa, de boa! Podes crê que ele será linkado ao lado. Abração.