quinta-feira, 14 de julho de 2011

DOIS URUBUS NA PLACA

Embora fosse cedo da manhã, acordei com a quentura dos raios do sol lambendo o lado esquerdo do meu rosto. Tive dificuldade para abrir os olhos, como se eles estivessem impregnados de alguma substância grudenta. A cabeça doía e pesava. Uma dor fina. Só aos poucos fui distinguindo as coisas, tal um animal que sai abruptamente de uma caverna, e vi que estava deitado num terreno baldio, algo parecido com um pasto, ou um campo de juquira, ou qualquer outra vegetação rasteira de beira de estrada.

Beira de estrada: supus isso porque consegui distinguir, não muito longe, o som de carros, caminhões, motocicletas. Pareciam percorrer uma pista de trânsito rápido, uma rodovia. Apesar de tonto e da respiração ofegante, tentei me levantar. Nada. Não senti minhas pernas nem meus braços. Só consegui erguer um pouco a cabeça e ver, às margens da pista, uma placa de trânsito retangular onde repousavam dois urubus. Foi quando lembrei: a boate, a prostituta loira, a ponte, os tiros nas costas, nos braços, nas pernas, no rosto.

Cheiro do queijo. É isso. Os caras fizeram a minha casa direitinho, sem levantar suspeitas. Quanto pagaram pra loira me seduzir? Quanto tempo esperaram na beira da estrada até que eu estacionasse debaixo da ponte e a prostituta começasse a baixar o zíper da minha calça? Mundo cão, lei do cão. Duzentos gramas, o que são duzentos gramas pra quem movimenta milhões?

“Chupa por cinquenta?”

“Chupo sim, delícia, e ainda engulo o leitinho”.

Filha da puta! Mas que puta mais filha da puta! E eu, o único com curso superior no morro, caí direitinho.

“Mas aqui não, menino. Vamo pro teu carro. Tem uma ponte ali. Debaixo da ponte. Não passa ninguém lá.”

“Não confia em ninguém, chapa”, sempre me disse o Negão, que nem ensino fundamental tem. Nunca levei muito a sério os conselhos do Negão. Sou um babaca, sou um mané. Os caras ainda esperaram a Samanta – assim ela disse que se chamava – me fazer gozar. A última ejaculação. Depois, só senti a mão pesada do Queixo de Bode me agarrando pelo cabelo e me puxando pra fora do carro. Pela janela, como um moleque.

“Morreu, otário!”

Em seguida, o cano da 380 do Pezão pressionando a minha nuca, enquanto do meu pênis, já flácido, pingavam as últimas gotas da ejaculação precoce.

“Bora, levanta, caminha!”

Ao mesmo tempo em que me empurravam pra beira da pista, me davam tapas na cara e chutes na bunda. Calça arriada, enxotado como um cachorro, não tive tempo de falar nada. 

“Pega cinquenta conto na bolsa dele aí, Quexada.”

Nem senti o Queixo de Bode metendo a mão no meu bolso e pegando cinquenta reais pra pagar a prostituta. Naquela hora, na realidade, eu só sentia uma coisa: o Pezão arrebentando a minha cara de coronhada.

“Tá vendo essa placa aqui?”, gritava ele, enquanto me batia. “Grava bem ela, otário. Grava bem pra quando tu chegar no inferno e o capêta perguntar onde foi que tu morreu.”

“Não, cara, pelo amor de Deus, cara! Não faz isso comigo não, Pezão! Te pago na segunda!”, supliquei, com a boca borbulhando sangue.

“Que mané paga na segunda o quê, otário. Pagamento na segunda de cu é rola. Toma!”

Aí os dois primeiros tiros, na junta dos dois braços. Em seguida mais dois, nas bolas dos joelhos. Caí novamente e depois fui arrastado pra dentro do mato.

“Aqui tá bom”, ainda ouvi o Queixo de Bode dizer, e em seguida recebi mais uns três tiros, nas costas e na cara.

Depois foi só o breu crescendo e o som de passos e portas de carro batendo e pneus queimando longe, cada vez mais longe, até eu não ouvir mais nada e apagar por completo – pra acordar só agora, com a cara inchada e o corpo todo furado. Agora, por volta das oito da manhã. Só. No meio do mato. Aleijado. Vendo apenas uma placa de beira de estrada com uns urubus em cima dela com as asas abertas. Devem tá tomando banho de sol, os malditos. Urubus de BR. Urubus medonhos.

Por sorte ainda não comecei a feder. Certamente não. Quando começar, eles sairão de lá e virão aqui pro meu lado, pra me velar. Depois, quando verem que eu já tiver virado presunto, vão me cheirar e em seguida vão começar a me bicar. Vão me comer, esses filhos da puta. Vão provar o meu pulmão preto, mastigar o meu fígado cheirando a álcool. Se duvidar vão até sentir o gostinho dos restos da pizza de Catupiri que eu comi na boate com a prostituta.

Fazer o quê? Come quem tem fome. Só me resta desejar-lhes uma boa refeição. Que dividam os meus olhos, um pra cada, mas que não metam o bico no meu cu. Que voem com minhas tripas penduradas no bico. Que bebam o resto do meu líquido prostático. Que suguem o meu sangue. E se souberem falar, que me informem qual o maldito KM que tá escrito na placa onde eles tão tomando banho de sol. Um babaca, um mané. Se o capêta perguntar, nem sei dizer em qual quilômetro morri.

4 comentários:

Anônimo disse...

Puta que pariu minha avó, caralho de texto bom da porra. Parabéns cara. Traficante devendo traficante e no resto rendeu pros urubus. Aliás o título é antológico.

Luís Diniz disse...

Gostei mais do título. Acho que daria uma boa capa para uma HQ. Hehehe. Se eu soubesse desenhar...
Valeu.

Fábio disse...

Mais uma vez, impressionante. Desesperadora sua narração. E não confie em ninguém mesmo.

Luís Diniz disse...

Valeu, Fábio. É sempre racional não confiar em ninguém.