terça-feira, 7 de junho de 2011

FIGURAS DO MEU ÁLBUM (V)

NICE REJANE ("RÊ BORDOSA")
Lembro-me bem do poema que ela declamou no palco do Ferreira Gullar, num desses finados festivais de poesia. Os versos eram bons e falavam da Copa do Mundo de 1982, do Paolo Rossi e – acho que na verdade não lembro bem – de um homem ou uma mulher caolha. Lembro também que em determinado momento ela levantou a blusa – estava vestida como uma autêntica Rê Bordosa – e mostrou os seios fartos e profanos para o público ignaro. Que seios, que mamas, que peitos. Eu já mamei na Nice Rejane. Não nas tetas, mamãe. Eu mamei nos lábios da Nice durante todo um show da banda Catarina Mina no saudoso TNT Cocktails. Nessa época ela era acadêmica de História e de vez em quando andava pela Uema nua e pintada de lama na companhia de um estudante de letras distribuindo um jornal que, se me lembro bem, se chamava Anticristo. Salvo engano ela ainda andou algumas vezes na companhia desse estudante – só que vestida e para o fórum, por conta dessa desobediência civil. Nessa mesma época, pouco antes de conhecê-la, eu era um cara magrinho recém-entrado na Uema que fumava compulsivamente e observava aquilo tudo com curiosa timidez. Mas vai que um dia, ou uma noite, eu a conheci. No bar do Gil, creio. E bebemos cerveja e conversamos e combinamos de nos encontrar para assistir alguns filmes. E de fato passamos a assistir diversos filmes lindos nos sábados à tarde. Dois, às vezes três filmes de uma tacada só. E depois saíamos zonzos de tanto cinema para o Bar do “Seu” Berla, para em seguida, mais zonzos – agora de cerveja – descer a ladeira da beira rio e dançar ao som de uns rocks e outras músicas estranhas para o ambiente, que escolhíamos literalmente a dedo na jukebox do Cais Bar. Doors, Cassia Eller, Pink Floyd. O bar inteiro era obrigado a ouvir nosso gosto musical e a tolerar a imagem dos nossos esqueletos bêbados balançado desengonçadamente entre as mesas sertanejas. Ainda guardo aqui nos meus arquivos, numa caixinha de papelão, o belo convite de um dos seus aniversários. Porque os aniversários da Nice são os melhores. Parafraseando o Nani Viera, “a melhor cerveja, o melhor churrasco”. Lembro-me especialmente de um que aconteceu na Vila Ipiranga. Cheguei lá e já encontrei o Gilberto Freire com sua Coca-Cola KS, a Didi falando alto, o Pinho abraçando a Didi e tentando beijar o seu pescoço por trás e o Benzão assando a carne entre um baseado e outro, além de diversas outras figuras bêbadas e felizes. Acho que nesse dia tão especial a Nice tava de bode com o Partido, porque em determinado momento – acho, não tenho certeza, eu já tava “alto” – ela pegou uma bandeirinha com a estrela do PT e falou alguma coisa, um desabafo, um desagravo regimental. A Nice, aliás, argumenta muito bem. Cansei de vê-la pegar o microfone em alguma greve ou eleição da Uema e deixar no chinelo alguns pobres mortais de argumento diferente do nosso – porque felizmente os argumentos sustentados pela Nice eram sempre convergentes aos nossos. Feliz de quem dividir a cama, a mesa e o banho com a Nice, essa menina às vezes amarga e sarcástica que tem uma gaitada deliciosamente incomum. “Enfim” – pra usar uma expressão que lhe é recorrente – já faz um tempo que não a vejo. Ao menos não a vejo com frequência. É que a gente acaba tomando outros rumos. “Se institucionalizando”, como diria o Josias Moraes, e isso acaba nos privando de algumas pessoas. Mas sempre que a vejo, nem que seja dormindo bêbada numa cadeira num fim de festa, como a vi recentemente no Boteco do Frei, me dá uma sensação boa. Nesse dia, aliás, quando tava indo embora, dei um beijinho de leve na sua face, cuidando para não acordá-la. Porque lhe desejo os melhores sonhos. Porque gosto demais dessa Rê Bordosa. Porque pra mim, ela, como diz o texto do Oscar Wilde sobre amizade que li pela primeira vez no seu convite de aniversário, é daquelas pessoas escolhidas não pela pele, mas pela pupila, porque tem aquele brilho questionador e aquela tonalidade inquietante.

6 comentários:

Anônimo disse...

Muito bom, Dinís. Uma bela ode para homenagear Nice, que não é Lobão, mas é um dos grandes vultos da história de Imperatriz.
Magno Urbano

Luís Diniz disse...

É isso aí, Magno. Esssa é a nossa Nice, a Rejane.

WALQUER CARNEIRO disse...

Mudando de assunto. Por onde anda o Gonzo Sade do Lapada no Pâncreas ? O cara tá sumidaço !!!!!
Ha, quanto a crônica de sua amiga, caricatura da Rê Bordosa, belo tratado sobre a saudade. . . Não digo mais nada por não conhecê-la.

Vanusa Babaçu disse...

Nice, paixão de minha BEL, que adora dizer que se fosse escolher uma mãe era Nice a contemplada. Bom disso, é que eu gosto da idéia. E nice nunca deu mamar pra minha nêga, já pensou se o tivese feito!!

Luís desenha Nice, texto delícia.

Beijos azeitados

Luís Diniz disse...

Walquer, o Gonzo anda muito ocupado com o tal Facebook. Acho que por isso ele não tá mais postando pelo blog. Aliás ele tá é republicando o Blog por lá.

Vanusa, a Nice é nossa. Nossa mãe, irmã, homem, tudo. Beijos.

Cláudio Marconcine disse...

acho que a casa continua aberta.