quinta-feira, 30 de maio de 2013

O SUICIDA E OS APOSTADORES

Um homem está escalando uma torre de televisão. É um suicida e pretende se jogar quando chegar ao topo. Dois apostadores vão passando. Decidem apostar cem reais: se o homem se jogar do topo da torre, um deles ganha; se se desequilibrar e cair antes, quem ganha é o outro. Perto do topo ou já no topo (a torre é alta; é quase impossível visualizar perfeitamente a cena) o homem despenca. Os dois apostadores divergem. Ambos acham que ganharam a aposta. Há uma discussão calorosa e um deles saca uma arma de fogo e mata o outro. Cinco tiros de pistola. À noite, em casa, o apostador assassino assiste o telejornal. A lente da câmera não deixa dúvidas: o suicida se desequilibrou e caiu pouco antes de alcançar o topo. O apostador assassino entra em parafuso. A intransigência e a ganância o fizeram tirar a vida de um amigo de longa data. Na manhã seguinte, procura a mesma torre. Não merece viver. Começar a subir. Quer se jogar do topo. Dois apostadores vão passando.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

CONTRADIÇÃO, OPOSIÇÃO, PARADOXO

Enquanto meu velho fumava seus Mustangs sentado numa cadeira de macarrão, o pequeno homem melado de tinta se equilibrava na escada e avançava com o pincel: “Bar”, “Bar do”, “Bar do Sil”. E eu estava tão entretido  sentado no chão de areia branca e observando os dois adultos que quase não percebia três ladrões fugindo com dois bons gados de corte. Mas rápido acionei meus capatazes, que rápido mataram os ladrões e rápido retornam com meus nelores – um azul e outro amarelo. Quando enfim levantei a cabeça – entretido que já estava com a insegurança que rondava meu rebanho –, pude perceber que o pintor finalizava o seu trabalho. Ele então desceu da escada, e postou-se ao lado do meu pai, visivelmente satisfeito com a obra. Adiante e acima da fumaça cinza que o Seu Chico jogava no ar, surgiu para mim – vermelho sangue, gordo, estilizado – o nome “Bar do Silêncio”. Foi quando, junto com o vento fresco das oito da manhã, a didática da infância roçou na minha cara o que só muitos anos depois um professor traduziria pelos nomes de “contradição”, “oposição”, “paradoxo”.