Um homem está escalando uma torre de televisão. É um suicida
e pretende se jogar quando chegar ao topo. Dois apostadores vão passando.
Decidem apostar cem reais: se o homem se jogar do topo da torre, um deles
ganha; se se desequilibrar e cair antes, quem ganha é o outro. Perto do topo ou
já no topo (a torre é alta; é quase impossível visualizar perfeitamente a cena)
o homem despenca. Os dois apostadores divergem. Ambos acham que ganharam a
aposta. Há uma discussão calorosa e um deles saca uma arma de fogo e mata o
outro. Cinco tiros de pistola. À noite, em casa, o apostador assassino assiste o telejornal. A lente da câmera não deixa dúvidas: o suicida se desequilibrou e
caiu pouco antes de alcançar o topo. O apostador assassino entra em parafuso. A
intransigência e a ganância o fizeram tirar a vida de um amigo de longa data.
Na manhã seguinte, procura a mesma torre. Não merece viver. Começar a subir.
Quer se jogar do topo. Dois apostadores vão passando.
quinta-feira, 30 de maio de 2013
quarta-feira, 29 de maio de 2013
CONTRADIÇÃO, OPOSIÇÃO, PARADOXO
Enquanto meu velho fumava seus Mustangs sentado numa cadeira
de macarrão, o pequeno homem melado de tinta se equilibrava na escada e
avançava com o pincel: “Bar”, “Bar do”, “Bar do Sil”. E eu estava tão entretido sentado no chão de areia branca e observando os dois adultos que quase não percebia três ladrões fugindo com dois
bons gados de corte. Mas rápido acionei meus capatazes, que rápido mataram os
ladrões e rápido retornam com meus nelores – um azul e outro amarelo. Quando
enfim levantei a cabeça – entretido que já estava com a insegurança que rondava
meu rebanho –, pude perceber que o pintor finalizava o seu trabalho. Ele então
desceu da escada, e postou-se ao lado do meu pai, visivelmente satisfeito com a
obra. Adiante e acima da fumaça cinza que o Seu Chico jogava no ar, surgiu para
mim – vermelho sangue, gordo, estilizado – o nome “Bar do Silêncio”. Foi
quando, junto com o vento fresco das oito da manhã, a didática da infância
roçou na minha cara o que só muitos anos depois um professor traduziria pelos
nomes de “contradição”, “oposição”, “paradoxo”.
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