segunda-feira, 28 de maio de 2012

100 METROS COM BARREIRAS

Então eu pulava uma barreira. A primeira dos 100 Metros com Barreira. Eu pulava alto, músculos e nervos no ápice, em câmera lenta. Estava bem fisicamente, estava preparado, confiante, adestrado para correr e saltar. Eu pulava a barreira e sentia o ar do Estádio Olímpico de Londres penetrar nas minhas narinas. Eu olhava pra baixo e via o meu tênis Nike branco pairando em cima da barreira. Era tudo tão nítido que eu podia ver até uma fila indiana de formigas trabalhando na divisão do gramado com a pista de atletismo. Eu ouvia a torcida brasileira gritando Braa-sil, Braa-sil, Braa-sil. Eu via bandeiras verdes e amarelas tremulando, o batuque de tambores, a dança frenética das mulatas na arquibancada. Eu não havia usado Neosoro nem dilatador nasal. Eu não lembrei de usá-los. Talvez por isso, o barulho estranho de tratores trabalhando na minha garganta. Talvez por isso a inquietação e os espasmos. O meu pé se enroscando primeiro na barra de ferro da cama, pra depois ficar preso na barra de ferro do sonho e eu cair feio, muito feio no chão do quanto, ao passo que minha cabeça – uma pesada melancia – se espatifava em inúmeros pedaços na raia 6 do Estádio Olímpico de Londres.

4 comentários:

Renan disse...

Luís e o sonho olímpico brasileiro.

Luís Diniz disse...

Sonhar e acordar roncando...

Fábio disse...

Neosoro... Não consigo viver sem... XD Seu texto me lembra um aforismo de "Humano, Demasiado Humano", em que Nietzsche afirma que os sonhos são produtos de estímulos nervosos reais.
Adorei o final! Parabéns, cara! Teu blog é excelente.

Luís Diniz disse...

Também não vivo sem Neosoro, brother.