quinta-feira, 14 de abril de 2011

I HATE TV

Sou da geração pré-donwload, a geração fita Basf. E lógico: da Geração TV. Lembro que no Pasquim 21 havia uma coluna chamada Eu Odeio TV. Eu sempre a lia. A coluna era especializada em TV. Numa época em que as televisões já eram coloridas, a Semp lá de casa continuava preto e banco. Quando morávamos em Campestre, no início dos 90, alguns citadinos burlavam essa imposição socio-econômica acoplando uma tela de vidro com as cores do arco-íris sobre os velhos aparelhos. Era a engenhosa forma para colorir a programação. E os crediários a vendiam em até dez vezes com juros.

Nunca arrotei a célebre frase anônima Eu não assisto TV. Eu sempre assisti TV, aliás desde a tenra infância, quando, extasiado pela primeira vez em que a vi, eu só de cueca bebi metade de um litro de querosene que minha mãe deixara vacilando no pé da estante. Se estivesse vivo, ainda hoje meu pai diria que a culpa foi da TV, essa alienadora de mentes. Não, a culpa foi minha. E como estava gostoso aquele querosene. Fez-me ver a nave da Xuxa com outros olhos, outros sentidos, outras portas da percepção - embora depois eu tenha acordado num hospital em Teresina, Piauí, internado para desintoxicação.

Sou um órfão da Rede Manchete. Bati muita punhêta assistindo aos bailes de carnaval do Clube Escala, no Rio, madrugada adentro, com a TV ligada baixinho para não acordar meus pais. Devo a vida à televisão, ela que uma vez me livrou da morte. No dia em que o Homem Lombriga seria enterrado vivo no espetáculo do circo vizinho à nossa casa (o Circo do México, um circo fuleiro que não era do México), eu fiquei na dúvida se iria assistir ao fantástico enterro ou se ficava em casa assistindo a um dos episódios do Star Wars na Globo. Optei, no fim, pelo filme. No dia seguinte fiquei sabendo que uma arquibancada do circo havia caído e matado um menino da minha idade.

A televisão da casa de minha avó sofria. Durante as férias, era a oportunidade que eu tinha para assistir à novela Carrossel em cores. Deitava no sofá e aproveitava que minha avó estava na cozinha e ficava mudando de canal com o dedão do pé (também sou da geração pré-controle remoto). A de casa também esquentava: minha mãe tinha que me ameaçar - Menino, vou comprar uma caixa de geladinho pra tu vender na rua! -, caso contrário eu não abandonava a telinha para estudar a Tabuada e o Abc. Um dia levei umas bordoadas do meu pai quando ele me mandou pegar cigarro para ele na gaveta da máquina de costura e eu fiquei absorto assistindo ao Fofão. A TV foi minha primeira droga. E pode ser a última. Ou não é factível que um dia exista TV de LSD?

3 comentários:

Anônimo disse...

tava com saudade desses teus textos

Jorge Choairy disse...

Querosene...
Está explicado.

Luís Diniz disse...

Hahaha... Pense numa querosene gostosa, Jorge.