sexta-feira, 4 de março de 2011

PASSEIO DIURNO

Olhou a caveira acoplada no capô do Gol GT 2.0 e sorriu. Na porta da velha geladeira, fixado por dois cachinhos de uva, deixou o recado escrito com o giz de cêra vermelho da filha: "Amor, fui passear mas não demoro." Quando abriu o portão, a cachorrinha Sofia, que passara a noite fora, entrou latindo e correndo feito louca pela garagem. A cachorrinha Sofia quis entrar no Gol GT 2.0 preto, mas ele deu-lhe um sopapo que a fez deslizar rodopiando pela cerâmica recém encerada até chocar-se contra o vaso de uma planta chamada Cachorro Pelado. A cachorrinha Sofia ficou latindo detrás do Cachorro Pelado enquanto o Gol preto ganhava a rua deixando uma fumaça azulada para trás.

Estacionou no Mateus Supermercados. Apesar do calor, usava uma jaqueta preta e uma camiseta branca por baixo. Entrou pela seção de bebidas. Dois meses sem beber, desde o domingo em que esmurrara o sogro perto da churrasqueira, no quintal de casa, por ocasião do dia dos pais. Procurou aqueles uísques pequenos, de bolso. Achou, mas no final optou por um litro de Ypióca Gold. Passou na seção de Cama, Mesa e Banho e ficou um tempo cheirando os sabonetes. Cheirar sabonetes em prateleiras de supermercados era uma mania sua de infância. Phebo, Palmolive, Senador. Na saída do supermercado, acendeu um cigarro, olhou a caveira novamente e sorriu.

Desceu pela Avenida Getúlio Vargas, sentido Avenida Beira Rio. Estacionou no antigo Cais do Porto. Sorriu ao olhar para a caveira impassível sobre o capô. Abriu o litro de Ypióca Gold e bebeu um gole grande - um gole de três segundos, que fez a velhar garganta trabalhar célere, aos coices, como se tivesse acabado de sair de uma esperada revisão. Pôs o litro no teto do Gol e urinou na junção do muro das peixarias com o chão do cais. Quente, muito quente. De imediato um cheiro forte de terra molhada e peixe morto entrou pelas suas narinas. Bebeu outro gole e seguiu rumo ao banco do S. Hippies fumavam maconha numa barraquinha às margens do rio Tocantins. Um deles o reconheceu. Ofereceu um trampo. Não aceitou, mas transou ervas com o hippie sorridente. Outro gole. Duas adolescentes estavam sentadas no banco do S. Uma de cabelo azul e outra de cabelo vermelho. Frente a frente, pareciam conversar. Ao cruzá-las, viu que as duas se beijavam lascivamente. Observou que tinham piercing na língua. Nem deram por ele.

Voltou já um pouco tonto para o carro. Deu a partida. Piçarra e poeira ficaram para trás após uma arrancada brusca e bêbada. No bar Coco Verde, na curva do último lago, o dono do estabelecimento o atendeu com um cigarro na boca e uma flanela suja no ombro. Pediu uma cerveja e sentou-se numa mesa próxima à beira do rio, debaixo de uma sombra. Eram quatro da tarde. Mais abaixo, perto das canoas, abrigados numa touceira, três homens fumavam crack numa lata de cerveja improvisada como cachimbo. O cheiro de detergente queimado voou elétrico pelo ar. Algo se enroscou na sua canela. Uma página do jornal O Progresso. Com o pé, desenrolou a página, pisou em cima, leu a manchete: Mulher é encontrada morta e sem roupa no acesso da ponte Dom Felipe Gregory. Não gostou do título. Pensou que Nua e crua resumiria melhor o fato. Faltava mais poesia nas redações dos jornais.

As três cervejas o deixaram um pouco mais tonto. Mesmo assim, com o Gol em movimento, deu mais dois grandes goles na Ypióca Gold. Parou na frente de casa. Na calçada, ao vê-lo, a cachorrinha Sofia balançou o rabo. Dessa vez a deixou entrar. Depois de abandoná-la na estrada de Davinópolis, foi para a linha do trem e fumou um cigarro de maconha. Deu outro gole na Ypióca e deitou sobre os dormentes. Respirou fundo de papo pra cima. O coração batia forte, acelerando. Tentou se levantar, a cabeça pesou. Olhou para o lado e viu o carro preto estacionado na ribanceira. A caveira parecia sorrir para ele. No céu, um grupo de urubus voava em espiral. Dormiu um pouco.

No sonho, ele e a esposa haviam se convertido ao evangelho na Igreja da Madeira do Senhor dos Céus. As graças não demoraram a aparecer: ele parou de beber, ela parou de fumar. Mas a prosperidade financeira, afirmara o pastor Carlos, demoraria um pouquinho mais. Uma tarde o pastor os chamou e disse, com os olhos lacrimosos: "Abençoados, li na bíblia, em Oseias, capítulo três, algo determinante para a vossa prosperidade. Mas é necessário certo sacrifício, irmã. A senhora tem que ter relação sexual comigo. É o que diz o versículo, irmão Ricardo: 'Vai outra vez, ama uma mulher, amada de seu amigo, e adultera'. Tenho que adulterar a sua esposa, irmão, tenho que fodê-la". O pastor fodeu Simone durante quatro meses. Como a prosperidade não chegava, Ricardo resolveu ler o capítulo três de Oseias e percebeu que o pastor os havia os enganado. Não era adultera, como leu o pastor, mas adúltera. O capítulo falava de perdão a uma mulher adúltera, não em adulterar a mulher de um amigo.

Acordou com o silvo agudo do trem da Vale se aproximando. Começava a chuviscar. A cabeça doía. Recostou-se na ribanceira e ficou observando a locomotiva passar. Na volta para casa, um interesse bovino pela mulher aflorou. Seu pênis estava ereto, pressionando o zíper da calça. Era preciso foder Simone. Estacionou o Gol GT 2.0 preto na garagem, tirou a jaqueta, sorriu para a caveira. Ninguém em casa. Na geladeira, um recado da esposa. "Bem, eu e a Carlinha fomos até a casa da mamãe. A comidinha tá no fogão. Te amo". E mais abaixo, em forma de P.S.: "A Sofia ainda não apareceu". Sentou-se na frente do televisor. O apresentador almofadinha do JM TV noticiava o achado de  outro corpo nu de mulher. Foi quando algo se mexeu na garagem. Meio trôpego, como um bezerro recém nascido, o Cachorro Pelado saiu do vaso e veio na sua direção. Levou umas três quedas, até que enfim pôs-se à sua frente balançando o rabinho verde. Ricardo levantou-se e desferiu um chupe potente contra o estranho animal. O Cachorro Pelado se estatelou contra a parede. Depois agonizou, bufando, no chão. E das suas perninhas quebradas minou um líquido branco e viscoso.

7 comentários:

Anônimo disse...

um dia na vida.... é claro que eu tô afim!

Carlos Leen Santiago disse...

A mulher que aparece morta nua é a esposa dele? A tal de Simone? (se não for fica sendo agora: a seguir cenas do próximo capitulo)

Luís Diniz disse...

Não havia nem sacado a possibilidade. Agora pode ser...

WALQUER CARNEIRO disse...

Um conto bem bacana. Lembra muito as estranhas estórias de Nelson Rodrigues. E só por isso vele a pena seguir o seu Blog. Tô sempre por aqui..... Já sou freguês de hotel imundo, todavia necessário...

dragonlucius disse...

como se chama o cachorro pelado... Jostein Gaarder?

Luís Diniz disse...

Que Nelson Rodrigues amaldiçoe este hotel e seus hóspedes, Walquer! Dragon, decifra-o ou ele te devora...

Gonzo Sade disse...

Me senti, ali, sentado, incomodado com esse cachorro pelado. Tremulando como um recém bezerro em medo, sangrando um gomado leite azedo.