quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

OS PRISIONEIROS

"Livre e confiante cidadão da Terra", diz Kafka, "eis que está preso a uma corrente longa o bastante para lhe proporcionar a liberdade sobre todo o espaço terrestre". Conquanto sentindo-se livres, uma vez que desapercebidos da enferrujada corrente arrastando-se atrás de si, os familiares e amigos dos presos chegam cedo e trazem Coca-Cola, banana, bolo, maços de cigarro, arroz com abóbora e chambari em vasilhas de plástico verde transparente. Hoje é sábado, o dia de visita aos presos.

Chegam os visitantes, tão condenados quanto os visitados, e se aglomeram na porta da delegacia. Mães, pais, tios, namoradas, sobrinhos, amigos. Muitos são tarimbados na arte de visitar presos de justiça. Outros são iniciantes, os curiosos do cárcere. E há aqueles que não vêm propriamente para a visita. Apenas se postam na calçada afirmando que jamais a cadeia os conhecerá, cada um com sua carga de nojo, segurança, envergadura moral uniforme. Se orgulham por serem os cidadãos de bem, sem saber que muitos homicidas também já tiveram uma família amável e um emprego fixo.

Eu, como Bukowski, tenho medo do homem mediano, o cidadão de bem. Tenho medo dessas donas de casa que com uma faca extremamente amolada cortam cebola para o almoço religiosamente às onze e meia. Não me agradam essas crianças inteligentes demais, esses pastores de voz mansa, essas famílias de comensais que rezam nas mesas de luxuosas churrascarias agradecendo a Deus por poderem pagar vinte e cinco reais num rodízio de carnes. Ah, e que carnes, deliciosas carnes, gordurosas carnes. "O que existe de falsidade, ódio, violência e absurdo nas pessoas medianas", diz Bukowski, "é suficiente para abastecer qualquer exército em qualquer dia".

"Controle de solo para Major Tom. Controle de solo para Majo Tom..." Tento mais uma vez a comunicação via rádio, mas olho o relógio e são quinze horas - a hora de abrir os portões da masmorra moderna. Destranco os cadeados, as grades, o som angustiante de metal contra metal assustando os pardais. O presos - poucos: seis - aguardam na área reservada para o banho de sol. Um deles tem um violão e entoa uma triste música gospel, que todos acompanham, emocionados. Quando chegam no verso Como Zaquel, eu quero subir - que eu substituo maliciosamente por quero fugir -, cantam tão alto e tão em transe que temo que alguns deles enfartem, principalmente um preso mais idoso. Escuto o barulho do rádio. É o Major Tom. Entrecortada pela música evangélica, sua voz grave sentencia: "Aqui é o Major Tom para o Controle de Solo. O planeta Terra é azul e não há nada que eu possa fazer..."

Há sempre um preso incomum no cárcere. Talvez ele leia Vigiar e Punir esperando o tempo passar. Talvez ele saiba de cor e salteado todo o texto de A Apologia de Sócrates. Talvez um dia ele me chame até a grade e me diga que eu não sou mais livre do que ele, argumentando que ele, livre para decidir sobre sua liberdade, decidiu estar preso. Ele, que transgrediu determinados códigos morais erigidos ao longo de séculos, talvez um dia me pergunte, para o meu espanto: "Como está a prisão aí fora?" Há sempre um preso incomum que sabe que, em oposição ao cidadão normal, o delinquente é definido primeiro como louco, depois como meliante, malvado, e finalmente como anormal. Talvez ele seja decapitado, o preso incomum.

Às dezessete horas os visitantes vão embora. Fica o barulho de suas correntes na saída e a impressão de que um deles não voltará na visita seguinte. Este fatalmente um dia será preso por atropelar uma criança na descida de uma ladeira de um bairro residencial com uma caçamba sem freio carregada de areia molhada. Algemado, espancado, argumentará que além da falta de freio, os raios solares que reluziram no cabelo dourado do menino o ofuscaram. De nada adiantará: será condenado. Na cela, se assustará com a primeira lufada de vento que lamber seu rosto. Vai chorar durante a primeira semana. No dia da visita, não será visitado. Vai tremer ao ouvir o cadeado se fechando forte pela primeira vez. O baque duro do ferrolho trancará sua garganta. Como uma mônada que é, seu coração baterá forte, uma tontura o derrubará, o sangue lhe subirá quente à cabeça e tudo ao redor vai escurecer como num eclipse repentino.

8 comentários:

Anônimo disse...

Mais um trabalho fantástico da Lavra de Diniz!

Já tens material para um livro...

Quando é que vamos lançar o "Absurdas Crônicas" ou "Crônicas Malditas", prefaciadas por Adalberto e Tasso?

Entre em contato comigo: prof.magno@hotmail.com


Fraterno abraço tragi-cômico e crônico!

magno

Luís Diniz disse...

Olá, prof. Magno. É uma ideia boa um livro conjunto! Entrarei em contato sim...

Iuri Petrus disse...

Em tempos de constatação e divulgação da falência do sistema carcerário este é um ótimo texto para as pessoas que teimam em ignorar que há existência na prisão de dentro... e, olha, é humana!

Publica o livro rapá!!!

Anônimo disse...

Deve ter muita coisa boa por ai nas gavetas do pessoal...

Tenho algo novo como, "Tussiname Tremi Terra Konçerteza (o rei do sonzaum alto-motivu, azulcrinando os véio e as periguetes na madruga)"

Isso dará uma fortuna em direitos autorais. Preciso comprar comida para minha tartaruga...


abraço

Carlos Leen Santiago disse...

Nada como fechar o domingo pasmaceiro em companhia do nosso maior prazer individual (fora a punheta) que é a leitura!
Esses dias "desempoerei" meus livros velhos de Saramago e do Borges. É como viajar no tempo, essas coisas de ler antiguidades, coisas que se leu dez anos atrás, possui essa característica de nos re-lembrar o que algum dia já fomos: todos iguais.
Complemento meu domingo pasmaceiro em companhia do Hotel Subterrâneo. Tenho que imprimir o texto, não me conformo em ler pela tela do PC, gosto de ler deitado ou defecando. O Prof Magno tem razão! Entre em contato com ele!

Luís Diniz disse...

Boa lembrança essa do Borges, Carlos Leen. Como bem ele já disse, somos "o outro, o mesmo", sempre. Lembrei até daquele conto em que ele encontra a si mesmo (só que tipo vinte anos mais jovem)sentado num banco de uma praça, e então eles - o outro, o mesmo - começam a conversar. Saludos desde Assentamento Vitória.

dragonlucius disse...

Kafka, Platão, Bukowski, David Bowie...

Ívila disse...

Nossinhora dos contos malditos e verdadeiramente reais.
A prepotencia da liberdade."Não posso nem ir, quanto mais ir e vir" rs... com ou sem livro vou continuar visitando o saguão do Hotel.