sábado, 28 de dezembro de 2013

RODÍZIO

Ela está alegre, falante e, a julgar pelo tanto de arroz e feijão que põe no prato, também muito faminta.

Ela come sofregamente, o barulho metálico de seus talheres é algo elétrico.

"Mas que fome doida", ele pensa com um sorriso no canto da boca, e olha admirado a nova namorada mastigar, enquanto espera paciente o início do rodízio.


Ele não sabe, mas o cara que corta as carnes na churrascaria, o cara triste que nesse momento traz um coração sangrando no espeto, esse cara é o ex.

COBAIAS DA MINHA SOLIDÃO

Tirar onda calado. Da janela do ônibus, dar tchal pra desconhecida que varre a varanda da casinha no povoado Pindaré. Imitar disfarçadamente a mulher que bebe suco de cajá ao meu lado no balcão da padaria. Rir - depois do acontecido, já manobrando a moto na porta de casa - da vendedora do Mercadinho que perguntou se o rosto do Angus Young estampado na minha camisa era uma cabeça de jumento. Desnortear sobrinho chamando-o de tio.

domingo, 17 de novembro de 2013

ENTRE ALGUNS ALHOS E UNS TANTOS BUGALHOS

ou
Alguns esclarecimentos desnecessários para aqueles que me conhecem e alguns esclarecimentos totalmente inúteis para aqueles que não me conhecem e falam, insolitamente, como se me conhecessem ou algo parecido.

De repente, não mais do que de repente, como diria o poeta, eu que pensava já ter pendurado as minhas surradas chuteiras quanto às questões culturais artísticas da minha cidade, me vejo, no rebuliço de um mundo “internético” (para o qual, dada a minha confessa inabilidade para com o mundo tecnológico, me sinto um verdadeiro analfabeto, portanto, nada “doutoresco” como alguns desavisados, por não me conhecerem, se sentiram violentados pelo simples fato do título, o que, no mínimo, me causou estranheza. A estes, digo mansamente, não tenham medo: um título é um título e ele não é nenhuma víbora a trucidar alguém, e muito menos, que eu saiba,  não eleva ninguém às alturas. É tanto, que continuo ainda encantado pelas modorrentas miudezas do meu cotidiano). Porém, sei lá pelas quantas, diversas pessoas falaram que eu estava sendo motivo de um embate no Facebook.  Como sempre estive ausente das ditas “redes sociais” (não afirmo isto como mérito, mas além de um alimentado “analfabetismo”, a falta de paciência tem sido uma das minhas virtudes e, por consequência,  defeito).

De início, ao saber do fato, despontava, sem nenhuma petulância, a senil e eterna resposta: “ah, é!”.

Pois é, mas o que parecia ser um instante/algo a ser descartado, na mesma velocidade como o que foi feito, terminou por ter algumas sobrevidas, e assim, ao saber que o nível do embate/discussão rasteiramente se instalou nas reentrâncias corporais, sem ter que recorrer ao explícito do mundo,  citado, musicalmente, por Caetano Veloso, resolvi ler as tão “curtidas” páginas.

De antemão afirmo, não me espantei, principalmente com algumas afirmações grosseiras. (E talvez este seja o verdadeiro motivo que até hoje não faça parte da “rede”.) Ao ler, sinceramente, não sabia se ria da desgraça ou chorava diante das torpezas humanas.

Na dúvida, resolvi, que em respeito a alguns e outros tantos intolerantes, fazer alguns esclarecimentos que, de antemão, sei que de nada servirão.

Mas, vamos lá...

Uma destrambelha pérola desinformativa:

Alguém disse que sou professor da UFMA e que assistiu uma palestra e eu só falava do  doutorado que fiz na Europa. Este dado na minha biografia eu desconhecia: Não sou professor da UFMA, nunca fiz uma palestra lá, tão-somente, com muito prazer, um minicurso sobre cinema e  nunca fui à Europa, portanto, até hoje nunca me autoproclamei “Doutor” e muito menos “Doutor europeizado”, e menos ainda, por enquanto, penso eu, não tenho a capacidade de estar em dois lugares ao mesmo tempo, isto é, não era eu o jurado de um concurso de arraiá em 2010, pois eu estava no Rio de Janeiro (UFRJ), fazendo o dito cujo doutorado. Já me acusaram de muitas coisas, mas onipresença, não nego, é completamente inusitada.  Acho que devem ser tonterias e vanices da alma humana.

Pequeno manifesto para algum desavisado que ainda não saiba:

Nunca fiz, nem montei qualquer espetáculo que se aproximasse do Teatro do Absurdo, e nunca subi ao palco, pois não sou ator, nunca pretendi e, portanto, nunca serei. O ‘adjetivesco’ da inveja não habita o meu ser.

Quanto à questão do Grupo Okazajo, antes de mais nada, é necessário alguns miúdos esclarecimentos:

1. Não sou da turma, não vi e odeio (e respeito a quem assim se posiciona).

2. Meu primeiro contato foi exatamente quando o grupo surgiu. Como fazia parte da “turma” envolvida nas questões culturais da cidade, evidente que estreitei, dentro do possível, contatos. NUNCA vi, participei ou soube que ao Grupo Okazajo foi negado acesso ao Ferreirinha.

3. NUNCA vi, e ninguém da “turma”, o Grupo Okazajo como adversário ou coisa parecida (para os desavisados, é fundamental afirmar que sempre éramos tão poucos (como até hoje), que os tão poucos eram sempre bem vindos).


4. Como na época era Presidente da FCI, procurei o Rogério, por diversas vezes, e disse que, como eles estavam começando, era interessante que se cercassem de conhecimentos, outras experiências, e se o grupo quisesse buscaríamos todo o tipo de apoio, principalmente trazer “fazedores” teatrais para dar oficinas, etc. Se a proposta não fecundou, foi uma questão de escolha, o que sempre respeitei.


Hoje, com serenidade, não me envergonho de dizer que todas as batalhas, as infindáveis lutas pelas questões artísticas de nossa cidade, das quais participei, a partir dos anos 80 do século passado, com dezenas de companheiros (alguns vencidos pelo tempo, outros ainda a saboreá-lo), valeram a pena. Vencemos algumas, fomos vencidos em dezenas, mas participamos e sei o quanto foi e é importante. Nem por isso me acho “dono”, ou um “ser supremo” ou coisa parecida. Fiz, como tantos outros, pelo PRAZER de fazer e isto bastava e até hoje basta.

Ao pendurar minhas mal ajambradas chuteiras artísticas, o fiz não por cansaço, desilusão, inveja ou coisa parecida. Fiz por que senti que não tinha mais nada a contribuir artisticamente para com a cidade que adotei de coração e alma. E sou daqueles que se  você não tem nada para acrescentar, o melhor é pedir licença e sair.

Porém sair, não é deixar de existir, de continuar pelejas outras. Meu campo de ação, hoje, é o meu ofício: ser professor, e isto me basta enquanto prazer tiver e a responsabilidade de sê-lo persistir.

Antes de ser profissionalmente o que sou e o que já fui, sem nenhum pudor me declaro como alguém que é serenamente um aprendiz, porém,  não consegue sentar à beira do caminho, ou como diria com maestria Expedito, remontando o dizer de Mariátegui, eu sou daqueles que acreditam quedevemos ser palco na vida, e não plateia”.

Quanto a tantos impropérios...

Primeiramente, é necessário reafirmar que as circunstâncias de uma sala de aula não conseguem ser reproduzidas em um texto, pois, o produzido sobre o acontecido, sempre deixa lacunas, destrói a ambiência do quê, o porquê e como foi dito. Mas, mesmo assim, vale refletir sobre algumas questões que estão sendo focos de discussões/embates ou impropérios:

Todas as vezes que o Grupo Okazajo é citado nas minhas aulas, ele é utilizado muito mais como um marca de um fazer “teatral” que, como uma invasão bárbara, assolou todo o nosso país, do que especificamente o Grupo e seus membros. Cito o nome, como poderia citar tantos outros, porém, estou em Imperatriz e a referência para muitos é o Okazajo e seus afins, até para que haja uma compreensão do que estamos a falar/discutir na sala.

Aliás, mesmo se não tivesse estes motivos/motivações, isso não me impediria (e nunca me impedirá) de na sala de aula ou em qualquer outro lugar, falar sobre questões que acho pertinentes a serem discutidas/questionadas.

Não vou aqui desfilar um rosário de teorias sobre o que é a arte e as suas tantas querelas (se a  alguém se interessar, não me furto, aliás, terei o maior prazer de conversar sobre), aqui, por necessidade, em poucas palavras, tentarei explicitar o que há muito tempo vem me incomodando nos insensatos dizeres “pós-modernosos” (e não quanto à questão da pós-modernidade, como bem citou Mayara).

Inicialmente, posso discutir sobres muitos fazeres humanos, inclusive o artístico, mas não aceito, de antemão, discutir números, quanto a leitores/ouvintes/espectadores, para referencializar ou referendar o que seja ou não uma obra artística. Acho que o argumento vale muito mais para a economia, mercado ou coisas afins. Segundo, não sou o dono da verdade, muito pelo contrário, pois me interessa muito mais as dúvidas, os questionamentos, as perguntas. Aliás, há muito acredito que as perguntas são muito mais interessantes que as respostas.

Sendo mais específico quanto aos meus questionamentos sobre um fazer “teatral” que se diz válido, quem sou eu para determinar o contrário, cada um faça o que bem entender, porém não exija o silêncio medíocre e/ou os aplausos retumbantes. Por isso, não posso, nunca, me furtar de perguntar:

O que fazer diante de um “espetáculo” que não só é conivente com os mais indignos preconceitos, mas os alimenta, saboreia em risos as suas torpezas? Que “arte” é esta que além de alimentar o medíocre senso comum, serve como arma contra aqueles que, ao saírem do palco, serão achincalhados/violentados como seres humanos? Isto é “comédia” ou uma autoproclamação à insensatez humana? É o riso ou uma orgiástica necessidade de, pelo menos, agradar para depois ser trucidado?

O que é isso? Os números não me servem como resposta.

Subir em um palco é o suficiente para dizer que está fazendo teatro? Escrever um livro impõe, ao fazedor, o direito de se autoproclamar escritor? Bater uma foto ou fazer um vídeo, necessariamente, para quem o faz, possibilita a se afirmar como  fotógrafo ou cineasta? O “autor-ator-fotógrafo-cineasta etc.” até tem o direito de fazê-lo, mas exigir dos outros que também o faça é, no mínimo, exigir demais (para não dizer outra coisa). Sempre digo, e continuo a afirmar, um dos nossos problemas, na atualidade, é que cada vez mais as pessoas só querem ser “artistas” e não, também, leitores/espectadores/ouvintes.

Só sei que nesta balança há muito que “não vale quanto pesa” (referência ao filme de Sergio Bianchi).

Não tenho dúvida que a conquista aos meios de produção, por parte dos artistas, possibilitou uma quebra de paradigmas e tutelas. Hoje, escrever um livro, fazer um filme-vídeo, gravar um cd-dvd, etc. é,  infinitamente, mais fácil. Porém, como contraponto, os “artistas” facilmente caíram na armadilha narcísica de, antes de qualquer coisa, se autonomearem, como se o meio de produção chancelasse a sua condição de ser. 

É exigir demais de quem assiste, ouve ou ler.

Que “fazer artístico” é este que qualquer senão para com ele se torna algo “contra a liberdade de expressão”? Que “fazer artístico” é este que só sabe conviver com os aplausos? Assim sendo, só resta perguntar: Isto é um "fazer artístico"?

Sei o quão é difícil o fazer artístico em nosso país. Sei, e bem sei, o quão inglório é persistir no fazer artístico em nossa cidade.

Como artistas, espectadores, leitores, ouvintes, todos aqueles que se interessam pela expressão artística de nossa cidade, de alguma forma, se tornam quase, inevitavelmente, em seres “esquizofrênicos”. Repartidos em sempre ser solidários com todos aqueles que têm a coragem de se expressar (artisticamente ou não), e, ao mesmo tempo, discordantes diante de diversos resultados vistos/lidos/ouvidos ou indignado diante da insana obrigação de aplausos retumbantes, ou silêncios canalhas.  

Sou, descaradamente, desta linhagem. Porém, não aceito mais desempenhar o papel da obrigação ou do silêncio. Talvez assim, eu possa estar contribuindo para algum fazer da minha cidade.

E de repente, não tão de repente, tudo isto me fez perceber que, pelo menos parece, eu não pendurei totalmente as chuteiras como pensava.

O que é a vida senão estes sustos da alma.

Gilberto Freire de Santana
16.11.2013




P.S.: Como espectador cinematográfico que sou, aproveito para indicar os seguintes filmes: (1) para quem, de alguma forma, quer saber  uma das  fontes deste fazer teatral atual, e perceber o quão os seus “filhotes” desvirtuarem um fazer, ali sim, transgressor , libertário, assista: Dzi Croquete, de Tatiana Issa e Raphael Alvarez; (2) para quem se interessa em pensar/questionar esse riso frouxo, que se diz “teatral”, que assola o nosso país, veja: O riso dos outros, de Pedro Arantes; e (3) quem quer pensar sobre a questão palco/plateia, o filme Um lugar na plateia, de Danièle Thompson , é uma boa. 

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

O ENTERRO

Ontem enterramos o pai do Oliveira. Eu, o filho, Jhonny e mais três desconhecidos. Dos 98 anos do velho, quantos de sofrimento existencial e terminal? No salão da Casa do Idoso, onde o corpo era velado, uma idosa inquire o preto Oliveira: "Tu não tá chorando não? Se fosse meu pai, eu tava chorando." Tocamos pro cemitério Bom Jesus. Talvez o menor cortejo da história da humanidade. No cidade dos mortos, sinto-me bem. Coveiros a postos, buraco aberto, pousamos o caixão na borda do abismo. Os profissionais da morte perguntam se esperamos mais alguém. Não. Only us. A urna desce. E jogamos, cada um, uma mão cheia de terra na cara do velho. As pás fazem o resto. O baque do barro contra o caixão preocupa e alivia. Os coveiros são céleres, porque há mais defuntos prestes a chegar. Mortos dão trabalho, penso. Mas vivos dão mais trabalho ainda, repenso, ao ver o Pastor Porto andando entre jazigos. Muito alinhado, grudado ao celular, parece o Geraldo Alckmin. Assombração. Vamos embora. No Caminho, Oliveira pergunta ao colega de trabalho onde ele tinha arrumado aquelas mangas deliciosas. "No cemitério", responde o outro, sorrindo. Pondero: antes uma manga adubada com defuntos do que com fezes. Enfim, Bar Gil. Cerveja gelada que desce refrescando. Brindamos e sorrimos ao imaginar que o último coveiro do mundo morrerá e não terá nenhum coveiro para enterrá-lo. Silêncio que segue. Pessoas indo e vindo no crepúsculo. E quando Oliveira me dá um tapinha nas costas, agradecendo a ida ao cemitério, penso como é bom estar vivo.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

CABEÇA, CABEÇAS

No sonho, uma velha sem cabeça conduzia minha cabeça debaixo do braço. Passeava pelas ruas de uma pequena cidade, e ninguém parecia se assustar com a cena. A velha era popular. E falava com a minha boca, segurando minha nuca com as duas mãos estendidas na direção do interlocutor. Passava horas nas praças, nos comércios, nas feiras. No fim da tarde, eu estava exausto de tanto conversar. Eu só queria dormir, mas ela me conduzia debaixo do braço até uma igreja, onde eu era obrigado a rezar um terço de velhos rosários. Só lá pelas dez da noite, íamos pra casa. No fundo do quintal, me obrigava a vê-la banhando de cuia. Punha minha cabeça sobre um cepo de madeira e, despida, após buscar água num recipiente feito de pneus de caminhão, passava as mãos sem sabão nas suas partes flácidas. Ela se acariciava, e isso era horrendo. Ela me fazia mencionar nossa viajem para Canindé, mencionava a promessa, e isso era mais horrendo ainda. Depois, molhava meu rosto, assoando-me o nariz. Por volta da meia-noite, íamos pra cama, onde me obrigava a mamar o conteúdo azedo dos seus seios murchos. Finalmente, deitava-se, colocando minha cabeça sobre seu pescoço, e sonhava que um homem sem cabeça conduzia sua cabeça debaixo do braço. E se agoniava sem conseguir despertar.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

CHUVISCO

O melhor da chuva é a possibilidade de banhar no chuveiro do quintal, se a sua casa, como a minha, tiver um amplo quintal e um chuveiro fixado nele. Então a manha é liga-lo não tão forte, postar-se embaixo e, se estiver chuviscando como chuvisca agora, olhar pra cima, pro céu de chumbo, e perceber que a Máquina do Mundo gira alheia aos nossos interesses. Deixar o jato d'água atritar contra um olho, contra um ombro, contra a nuca. Ensaboar-se vendo cachos de mangas verdes balançando noutro quintal e sorrir de um Bem-te-vi boca de burro que queda ensopado sobre um fio de energia elétrica. Enxaguar-se nesta fronteira do rural com o urbano. E mijar forte, o pênis livre das mãos e da preocupação da cueca. Talvez masturbar-se antes de calçar as Havaianas. Mas certamente enxugar-se filosofando: é impossível encher a piscina do Bob Esponja; o chuvisco refresca sem inundar; Havaianas molhadas gemem como velhas portas.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

NEW BEDFORD HIGHWAY KILLER

Todos as noites, o velho cowboy entra na velha caminhonete e ruma para a Rodovia da Morte, a New Bedford Highway Killer, estacionando na margem do km onde o corpo de sua filha foi encontrado, dilacerado, dentro de um vestido azul sujo de barro e gramíneas, o pescoço mole. 

Uma caixa de cervejas debaixo do braço, uma pistola pendendo da mão, o cowboy adentra no campo com respiração regular. Ele se senta num velho troco de árvore. O mesmo de sempre. E deixa os faróis da caminhonete ligados atrás de si, faróis baixos que iluminam suas costas, seu chapéu, projetam sua sombra gigantesca e irregular campo adentro. 

O velho cowboy repete o mesmo ritual há nove anos. Como se se soubesse caçado, o assassino nunca retornou. Mas o cowboy tem sinceras esperanças, e bebe todas as cervejas com o cão armado e o dedo no gatilho. Às vezes venta forte. A vegetação se move e faz barulho. Algo estala.

Mas cowboy é, também, um pragmático: ele sabe que é mais fácil chover do que algo assomar de dentro do mato. Então chove, chove muito. O cowboy não se move. Não meneia a cabeça aprovando ou desaprovando nada. Seus olhos de tigre observando a dança da chuva, seus ouvidos atentos às gotículas que repercutem forte na aba do chapéu. 

Antes de amanhecer, o Cowboy entra na caminhonete e vai-se embora, bebendo o último gole da última cerveja quando estaciona na garagem de casa. Já não chove quando ele abre a porta do quarto. Sua mulher está na cama, mas não dormindo. E o vê tirando as botas e despencando como uma velha árvore do Estado de MassachusettsO cowboy dorme sonhando com o aceno e o sorriso da sua garota. Um longo tchal. Na última vez que a viu saindo de casa